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Como um caso de amor pode ajudar Hollande (e a França)

Revelação de affaire com atriz lança holofotes sobre presidente francês, que aproveita para apresentar plano de austeridade

Por Diego Braga Norte
19 jan 2014, 06h49

Há quase dois anos ocupando o Palácio do Eliseu, o presidente francês François Hollande tem poucos motivos para comemorar. Exceto pelas elogiadas incursões no Mali e na República Centro Africana, seu governo é um desastre sob qualquer ângulo analisável. Desemprego em alta, popularidade em baixa (76% de desaprovação, a maior desde 1958, início das medições), aumento de impostos, balança comercial negativa, desindustrialização, queda do poder de consumo da população e nenhum sinal de melhora no horizonte próximo. Acuado e recebendo críticas da direita e da esquerda que o ajudou a eleger, Hollande precisava agir. E assim ele o fez, direcionando seu governo rumo à austeridade e à direita. Ele só não esperava receber um impulso a partir do que seria um escândalo: a revelação de um caso amoroso com uma bela atriz. Com os olhos do mundo voltados para Hollande por causa do affaire, seu pronunciamento em uma entrevista coletiva na última terça-feira ganhou peso e dimensão. Pouquíssimas vezes na história uma entrevista de um chefe de Estado francês chamou tanta atenção. Se o interesse da maioria era saber o que ele tinha a dizer sobre o romance – e ele não disse nada significativo – suas propostas na área econômica foram destaque em lugares precisos e importantes: no mercado, na Alemanha, nos EUA e nas páginas das principais publicações da área, do Wall Street Journal ao Handelsblatt, passando pelo Financial Times e, é claro, Les Echos.

Uma primeira sinalização de que o governo francês poderia mudar de rumo veio no discurso de Ano Novo – tradicional mensagem do presidente francês em cadeia nacional feita todo dia 31 de dezembro. Hollande mencionou que estava “certo de que a França pode fazer mais com menos”, graças ao combate aos “abusos” dos benefícios sociais. Suas declarações lhe renderam críticas da esquerda e elogios do mercado, mas ficaram restritas à esfera política francesa, sem reverberar com força na Europa nem repercutir no mundo. Aí veio o inesperado, a revista Closer revelou um caso amoroso – até agora não desmentido por nenhuma das partes – entre François Hollande, 59 anos, e a atriz Julie Gayet, 41. E o apagado presidente francês ganhou atenção global.

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“A coletiva de imprensa ganhou notoriedade com o caso extraconjugal. Nunca uma entrevista de Hollande, ou de qualquer outro presidente francês, foi tão acompanhada pela imprensa global”, disse Stéphane Monclaire, cientista político da Universidade de Paris 1 – Sorbonne. Diante de mais de 600 jornalistas, Hollande se recusou a falar de sua vida privada, mas soube aproveitar os holofotes para propor uma nova agenda político-econômica que é uma tentativa de salvar seus três últimos anos de mandato. Em seu discurso inicial, antes das perguntas dos jornalistas, o presidente anunciou cortes de 50 bilhões de euros em gastos públicos e de 30 bilhões de euros em impostos até 2017. “Se a França quiser manter sua influência no mundo, se a França quiser ter peso nos rumos da Europa, se quiser ter o controle de seu destino, então deve, de maneira imperativa, restaurar a sua força econômica”, afirmou.

Com o título “Hollande corteja investidores com plano para reviver a economia”, o Wall Street Journal ressaltou que o presidente francês “alardeou uma agenda pró-investidores com cortes de impostos e gastos para reviver a anêmica economia da França, evitando o escrutínio público do que chamou de um “momento doloroso” em sua vida pessoal”. (leia a íntegra, em inglês). O Financial Times destacou que Hollande busca um “recomeço” e que, apesar da controvérsia envolvendo sua vida pessoal, ele mudou de direção. Para o jornal inglês, embora os detalhes de como as reformas serão feitas ainda sejam vagos, “a nova filosofia que visa tentar cortar gastos é bem-vinda”. “Reduzir o tamanho do Estado é essencial para que as contas públicas da França sejam sustentáveis a longo prazo”. (íntegra, em inglês)

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Mudança de rumo – O aperto orçamentário vai contra um dos pilares de sua campanha, que criticava a austeridade defendida por Nicolas Sarkozy e Angela Merkel. Hollande anunciou também outras medidas, como o desejo de realizar uma ampla reforma política territorial e estreitar os laços com a vizinha Alemanha, prometendo inclusive a criação de uma empresa binacional de energia, nos moldes da bem-sucedida EADS, fabricante dos Airbus. Ele acrescentou que o governo pedirá um voto de confiança do Parlamento sobre o pacto de responsabilidade, que foi considerado na França e fora do país como uma nova política econômica liberal.

Josepha Laroche, especialista em política da Universidade de Paris 1 – Sorbonne, afirma que a mudança de atitude de Hollande chocou a esquerda por ele ter usado um “léxico da direita, fazendo total oposição à sua campanha eleitoral e transgredindo simbolicamente a doutrina de esquerda”. Os mercados aprovaram suas medidas, assim como Merkel e seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), que reiteradamente criticava Hollande por sua conduta econômica com viés estatal. O elogio à nova postura veio do ministro alemão de Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier. “O que o presidente Hollande apresentou é, em primeiro lugar, corajoso. Isso me parece ser o caminho certo, não só para a França, mas também pode ser uma contribuição à Europa como um todo”.

Saiba mais: Austeridade: a ideia poderosa que dá vida ao capitalismo

A UMP (principal partido de centro-direita que faz oposição a Hollande) acolheu seu discurso classificando-o como “lúcido”, mas cobrou ação do presidente. Bernard Accoyer, presidente da UMP na Assembleia Nacional, disse ao Les Echos – principal diário econômico francês – que Hollande “se tornou consciente de que sua política iria direto para a parede, e agora mudou de direção”. Jean-Pierre Raffarin, ex-primeiro-ministro de Jaques Chirac (entre 2002 e 2005) e atual senador pela UMP disse que “a mudança é bem-vinda, mas é preciso acompanhar de perto para ver se é séria”. De acordo com o cientista político Monclaire, “não é a primeira vez que chefes de Estado eleitos com votos de esquerda rendem-se às realidades do mercado. Já aconteceu isso com Gerhard Schröder [primeiro-ministro alemão entre 1998 e 2005] e mais recentemente com Tony Blair [primeiro-ministro britânico entre 1997 e 2007]”.

Apesar dos elogios, pairam dúvidas sobre o plano de Hollande. “Ele agora confessou ser um social-democrata, mas ele rejeitou o mesmo termo em maio, preferindo definir-se como socialista. A Medef [organização que representa as empresas francesas, semelhante à Fiesp] espera esclarecimentos sobre a extensão do declínio nos gastos públicos anunciados e sobre o pacto de responsabilidade. Mas como acreditar nisso depois de tantos erros políticos?” – disse ao site de VEJA Joëlle Garriaud-Maylam, senadora pela UMP. “Acho que falta clareza. As empresas precisam de estabilidade fiscal robusta e não de uma ‘enésima reforminha'”, completou.

A base de apoio a Hollande na Assembleia Nacional (a Câmara francesa) tem uma superioridade confortável, com 325 cadeiras contra 230 deputados da oposição. No Senado, a situação se inverte, com a oposição dominando 181 cadeiras, contra 148 da situação. Além de negociar com a oposição, talvez a maior dificuldade de Hollande será domar seus próprios apoiadores no Legislativo. “O discurso de Hollande não teve nada a ver com as teses keynesianas ou desenvolvimentistas que seu governo vinha seguindo até então. Resta saber se ele vai conseguir convencer a esquerda para cumprir a agenda de mudanças”, diz Monclaire.

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As críticas dos partidos Comunista, Socialista e da CGT (Central Geral dos Trabalhadores, sindicato que possui mais 700.000 membros e um histórico de influência na política francesa) não tardaram. Pierre Laurent, secretário-nacional do Partido Comunista Francês (PCF) disse que o programa de Hollande “é um verdadeiro pacto de irresponsabilidade social e seu anúncio é uma explosão do modelo social e republicano francês”. Já o ex-senador e atual eurodeputado Jean-Luc Mélenchon, líder da Frente de Esquerda, foi ao Twitter para pedir oposição à Hollande: “Rápido, uma ampla oposição de esquerda no Parlamento e na rua contra este programa de direita!”, escreveu.

Antigalã, impopular e muito hábil – Baixinho, gordinho, com um olhar caído escondido atrás de óculos, e muita dificuldade de sorrir em público, Hollande não tem o ‘physique du rôle‘ que o caracterize como um galã – tampouco transmite a imagem de um homem dinâmico e carismático, algo que seria muito útil em sua profissão. Durante sua campanha presidencial, boa parte de sua publicidade apoiou-se no mantra ‘président normal‘ em contraposição presidente hiperbólico representado por seu rival Sarkozy. “Passamos de um presidente hiperativo para um hipoativo e as pessoas ainda não se habituaram ao jeito de Hollande”, compara Monclaire. Hollande e seu governo ainda apresentam problemas de comunicação, passando uma imagem de uma administração hesitante. “Ele não é um grande orador e seu estilo é pobre e confuso. Ele dirige a França como dirigia o Partido Socialista”, diz Laroche. Hollande foi dirigente máximo do partido entre 1997 e 2008. (Continue lendo o texto)

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Apesar de sua imagem lhe ser desfavorável, é consenso entre os especialistas que Hollande é muito hábil em negociações nos bastidores e em articulações políticas. Afinal, ninguém chega à presidência do Partido Socialista francês – o maior entre os socialistas da Europa – e à Presidência da República sem nenhum mérito. “François Hollande é resultado de uma experiência tripla: é um tecnocrata competente da Ecole Nationale d’Administration, é líder de um partido político grande e é um político com experiência que se baseia na arte do compromisso e pequenos arranjos”, analisa Frédéric Sawicki, diretor do centro de pesquisas políticas da Universidade Sorbonne. Agora é hora de saber se essa habilidade será eficaz para viabilizar suas propostas.

Desemprego e fuga – Em meio à crise do euro e com a França afundada em uma estagnação econômica, a principal promessa de campanha de Hollande era justamente a criação de empregos. Mais de uma vez o presidente deu declarações afirmando que a curva do emprego se inverteria até o final de 2013, fato que não se concretizou. Em novembro – a medição mais recente – a França registrou 3,29 milhões de desempregados, 10,8% da população apta a trabalhar, recorde histórico e com perspectiva de aumentar ainda mais.

Além disso, nos dois primeiros anos de administração, o governo Hollande foi na direção contrária do que sugere a boa governança e aumentou os impostos sobre os contribuintes franceses, diminuindo-lhes o poder de consumo. Some-se ainda ao pacote de desastres o escândalo político protagonizado pelo então poderoso ex-ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, que mantinha uma conta não declarada da Suíça para fugir do pesado fisco francês. Cahuzac renunciou em março do ano passado, semanas após sua conta secreta vir à tona. Outra figura que preferiu escapar da pesada carga tributária francesa foi o ator Gérard Depardieu, que primeiramente fixou residência na Bélgica e depois, em dezembro de 2012, ganhou um passaporte russo e foi morar na Moldávia – onde vive no sugestivo endereço no número 1 da rua Democracia, em Chisinau, capital do país.

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Com poderes constitucionais muito amplos – comparados pela revista Economist como “monárquicos” – o presidente francês tem uma margem de manobra grande e uma influência poderosa nos rumos do país. Em outras palavras, o Executivo francês é mais forte do que em outras democracias. Segundo os especialistas ouvidos por VEJA, a sociedade francesa não se contenta com um homem normal, quer alguém que sobressaia, um líder de fato. Resta saber se Hollande vai conseguir ser esse líder que a França tanto anseia. Se não conseguir, seu consolo e frustração será ficar conhecido pelo poder de seu charme com as mulheres.

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