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Enem: mudança é positiva, mas não basta, diz especialista

MEC anuncia que irá punir com nota zero gracinhas na dissertação, como receita e hino de clube, e reduzir a discrepância máxima entre notas de corretores. Para especialista, mesmo tardias, mudanças são bem-vindas, mas não bastam para sanar todas as deficiências da prova

Por Lecticia Maggi 8 Maio 2013, 18h51

O Ministério da Educação (MEC) anunciou, nesta quarta-feira, importantes mudanças na correção do próximo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a ser realizado nos dias 26 e 27 de outubro. Como prometido pela pasta em março – quando foram divulgadas redações com trechos de receita de macarrão instantâneo e hino do Palmeiras -, candidatos que tentarem debochar da banca examinadora receberão zero. Outra alteração significativa é a redução da discrepância máxima tolerada para as notas dadas pelos corretores. Quando a diferença entre duas avaliações passar de 100 pontos, a redação será analisada por um terceiro especialista. A tolerância até o ano passado era de 200 pontos. Para Rogério Chociay, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as mudanças são bem-vindas, ainda que tardias.

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“A prova de redação não é uma prova de conhecimentos gerais, em que se pode considerar apenas uma questão – no caso, um trecho ou parágrafo – e ignorar o resto. A dissertação é um todo completo e deve se fechar em um significado global”, afirma Chociay. “No momento em que um aluno coloca uma receita de macarrão no texto ele quebra completamente sua estrutura, tornando-o uma colcha de retalhos. Esse tipo de redação nunca deveria ter sido aceito pela banca”, diz.

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Até a última edição, o zero só era atribuído em casos muito específicos: se o participante fugisse completamente do tema proposto, desrespeitasse os direitos humanos ou entregasse a folha em branco, com desenhos, impropérios ou menos de sete linhas de texto. Por essa razão, os candidatos do macarrão e do hino conseguiram marcar, respectivamente, 560 e 500 pontos cada, de um total de 1.000. O tema da redação, vale lembrar, não tinha nada a ver com futebol e nem com culinária. Os candidatos deveriam abordar os movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI.

“Havia textos muito, muito ruins, e pensei várias vezes em dar zero, mas não fiz isso porque segui exatamente as recomendações que me foram passadas. A orientação oral que recebemos era para não pegar pesado e relevar parágrafos inteiros, se fosse o caso”, afirma T., uma das corretoras da última edição do exame. A profissional – que não pode ter o nome divulgação por ter assinado um termo de sigilo com o CESPE/UnB, órgão responsável pela seleção dos avaliadores – afirma ter corrigido mais de 1.000 textos e não anulou nenhum.

A outra mudança divulgada por Mercadante – redução da discrepância permitida entre as notas dos corretores – também é vista com bons olhos por Chociay. “Como o Enem se tornou um processo seletivo unificado, essas mudanças são positivas na busca por uma seleção mais justa. Sabemos que as vagas no vestibular, principalmente em carreiras concorridas, é perdida por centésimos”, diz.

Apesar de aprovar as mudanças, Chociay lembra que essas alterações não serão capazes de sanar todas as deficiências da avaliação. O problema do Enem, ressalta o professor, está em seu gigantismo. Em 2012, segundo dados do MEC, foram necessários 5.692 corretores, 234 supervisores, 468 auxiliares e dez subcoordenadores regionais para avaliar 4,1 milhões de redações. No vestibular de universidades públicas, o número de participantes e, consequentemente de corretores, é bem menor. Na Fuvest, por exemplo, são necessários apenas 60 corretores para 35.000 dissertações.”Além disso, os corretores são treinados ao longo do ano, passam por simulações de correção e trabalham supervisionados por um coordenador. Quando há dúvidas sobre que nota atribuir a um aluno, elas são sanadas na hora. É um processo claro, objetivo e supervisionado”, afirma. O mesmo, segundo ele, não se pode dizer da avaliação federal, em que o treinamento dos corretores ocorre à distância, com apenas um encontro presencial, e a correção também é feita de forma remota. Há, portanto, um longo caminho ainda a ser percorrido em busca da excelência.

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