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Economia

Os ruídos brasileiros que atravancam o acordo entre Mercosul e UE

Foram imediatas e desesperadas as ligações para os gabinetes de assessores do vice-presidente Hamilton Mourão depois de o general disparar, com todas as letras: “Acordo MercosulUnião Europeia parece que começa a fazer água”, há duas semanas. Não foi ponto sem nó. Enquanto diplomatas e membros do Itamaraty se preocupavam, Mourão sabia que tinha atingido a mira em cheio. Presidente do Conselho Amazônia Legal, o vice-presidente vem costurando as tratativas para a consolidação do acordo de livre comércio com o bloco europeu e reclama, em conversas privadas, sobre a inércia do Ministério das Relações Exteriores, sob a tutela de Ernesto Araújo, nas conversas para ratificação do tratado. Com a intermediação do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, vindo da iniciativa privada, o vice-presidente vem se encontrando com membros de instituições financeiras e empresas privadas para mostrar o compromisso com a pauta ambiental. Prova disso, segundo ele aos entes de mercado, era o pedido ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para estender até 2022 a presença do Exército na região amazônica, para coibir o desmatamento na região, por meio da extensão da Garantia da Lei e da Ordem. 

Tem dado certo. Depois de retaliações públicas ao acordo por parte dos europeus, o clima das negociações arrefeceu nos bastidores. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, vem meses a fio costurando essa aproximação. Em uma reunião ocorrida em janeiro a titular da Agricultura dos Países Baixos, Carola Shouten, a ministra brasileira ouviu da colega europeia que o uso de defensivos agrícolas nas produções brasileiras a preocupava. A resposta veio por meio de dados. A brasileira apresentou um levantamento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, apontando que os Países Baixos são o país que proporcionalmente mais usa os chamados defensivos agrícolas em relação ao tamanho das produções. Os holandeses usam mais que o dobro de produtos que os brasileiros, 9,38 quilos por hectare, contra 4,31 quilos. Com isso, o ambiente de negociações melhorou e o governo conseguiu arrefecer os ânimos dos europeus em relação ao acordo. O problema, porém, é muito mais de imagem do Brasil no exterior devido a questões ambientais do que qualquer outro ponto do tratado em si. 

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina: Costuras internacionais para arrefecer os ânimos europeus Marcos Correa/PR

No mês passado, Stephan Seibert, porta-voz da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, colocou o acordo em xeque. “Temos sérias dúvidas de que o acordo possa ser aplicado conforme planejado, quando vemos a situação”, afirmou, referindo-se à Amazônia. A fala foi feita logo após uma reunião com a ativista sueca Greta Thunberg. Entre altos assessores do Palácio do Planalto, a fala foi interpretada como uma “jogada para a torcida” alemã. “Não pegaria bem para eles ver o Pantanal em chamas e ratificar a parceria”, diz um auxiliar. E os fatos corroboram com a leitura. Presente em um almoço com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, nesta quarta-feira, 9, o embaixador da Alemanha no Brasil, Heiko Thoms, confirmou a VEJA a disposição da maior economia da União Europeia para ratificar o tratado. “Nossa posição permanece intacta. Nós fomos capazes de estabelecer esse acordo depois de quase 30 anos de negociação, e estamos muito dispostos em consolidá-lo”, diz. “A Alemanha está arraigada a esse compromisso, mas é um processo. Existem problemas políticos, mas existem muitos interesses mútuos na consolidação do tratado”, completa ele, citando a preocupação alemã com os desmatamentos na região amazônica.

 

No caso do chanceler, o problema é de gestão. Cobrado por eficiência, o ministro foi ofuscado pela atuação de Tereza Cristina em âmbito internacional, até mesmo nas costuras das tratativas com o bloco europeu. A principal conquista do ministro, segundo fontes palacianas, foi uma aproximação do Brasil com os Estados Unidos, numa relação em que o país não coletou benefício algum — apenas cedeu. O acordo com a União Europeia é visto pelo ministro como a bala de prata para sua biografia à frente do Itamaraty. A pancada de Mourão ao jogar “por água” o acordo pressionou os diplomatas do Itamaraty, que confirmaram ao vice-presidente a inclinação e os trabalhos diários para melhorar a imagem do país no exterior. Em chamas, a reputação do Brasil no exterior vem sendo tópico das discussões diárias do Itamaraty, da vice-presidência e do Ministério da Agricultura junto aos europeus. Cabe ao presidente Jair Bolsonaro o chapéu de bombeiro e demonstrar compromisso firme com a agenda ambiental.


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Os ruídos brasileiros que atravancam o acordo entre Mercosul e UE
  • Enquanto os europeus mostram-se dispostos a ratificar a parceria, disputas internas no governo e questões ambientais atrasam a consolidação do tratado

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