Rainha da moda: o talento de Madonna em, até hoje, criar tendências
Cantora completou 68 anos neste domingo 16, reafirmando seu status de ícone fashion
Hoje em dia, falar que Madonna é um ícone fashion pode até soar como um clichê. Mas, de fato, ela é. Aos 68 anos, completados neste domingo, 16, a cantora continua sendo uma das raríssimas artistas capazes de mudar o que as pessoas querem vestir simplesmente por aparecer em público. Não se trata apenas de figurinos memoráveis: ao longo de mais de quatro décadas, a estrela pop transformou roupa em discurso, provocação, personagem e, sobretudo, ferramenta de reinvenção. Nas mãos de Madonna, ou melhor, no corpo dela, a moda virou verbo – e de ação.
Nascida em 1958, ela surgiu em Nova York no início dos anos 1980 com crucifixos, renda, lingerie aparente, luvas, saias curtas e uma mistura deliberadamente caótica de referências. Em pouco tempo, aquilo que parecia apenas a estética de uma garota punk da noite nova-iorquina virou uniforme de uma geração. A diferença, porém, é que Madonna nunca foi simplesmente uma musa de estilistas. Ela foi, muitas vezes, uma espécie de laboratório para eles. Sua capacidade de enxergar uma roupa antes que ela se tornasse desejável ajudou a transformar criadores em fenômenos. O caso mais emblemático é Jean Paul Gaultier. Quando a estrela apareceu na turnê “Blond Ambition”, em 1990, usando o famoso corset com sutiã cônico sobre uma calça de alfaiataria risca de giz, a lingerie deixou definitivamente de ser apenas roupa de baixo para virar armadura, provocação e símbolo de poder feminino. Gaultier já era um nome importante da moda, mas a imagem daquele cone dourado projetou sua criação para um público que provavelmente nunca havia acompanhado uma passarela. O look tornou-se tão indissociável da cantora que, décadas depois, o próprio Gaultier voltou a criar uma releitura do cone para a “Celebration Tour”.
Com Dolce & Gabbana, a história também é de mão dupla. Madonna já havia escolhido a dupla italiana para uma aparição em 1991, mas a relação ganhou outra dimensão quando Domenico Dolce e Stefano Gabbana criaram os figurinos de sua “The Girlie Show”, em 1993. Madonna pediu que os estilistas estudassem referências como “Cabaret” e “My Fair Lady” para construir uma espécie de striptease glamoroso, com cabaré, fetichismo, corsets, brilhos e alfaiataria. Foram cerca de 1. 500 peças para a turnê. A associação entre a cantora e a estética sensual, teatral e italiana da dupla ajudou a consolidar a identidade internacional da Dolce & Gabbana — uma parceria que atravessaria décadas e chegaria até campanhas recentes da marca.
E então veio Tom Ford. Em 1995, ainda à frente da Gucci, o estilista havia acabado de apresentar uma coleção que mudaria os rumos da marca, com camisas de cetim abertas, calças justas e uma sensualidade setentista. Madonna escolheu justamente um dos looks-chave para o MTV Video Music Awards daquele ano: camisa azul de cetim, aberta sobre um sutiã preto, e calça preta. O efeito foi imediato. A combinação de masculinidade e sensualidade passou a ser reproduzida exaustivamente e ajudou a transformar Ford em um dos nomes mais comentados da moda e a catapultar o estilista e a nova Gucci à fama.
Mas a lista é muito maior. Azzedine Alaïa ganhou uma espécie de homenagem pop quando Madonna deixou deliberadamente visível a etiqueta do estilista no clipe de “Bad Girl”. Versace tornou-se outra de suas grandes alianças: Madonna estrelou campanhas da marca em diferentes momentos, enquanto Donatella assinou, entre outros, o espetacular macacão prateado usado na “Celebration Tour”. Riccardo Tisci, então na Givenchy, criou o figurino de rainha de Madonna no Super Bowl de 2012. Stella McCartney desenhou seu vestido de casamento com Guy Ritchie, em 2000. E até Alessandro Michele, então na Gucci, ganhou uma vitrine poderosa quando Madonna usou seu terno roxo no Billboard Music Awards de 2016, em homenagem a Prince.
A capacidade de Madonna de atravessar gerações também aparece em sua última grande turnê. Na “Celebration Tour”, encerrada no Rio de Janeiro em 2024, ela não apenas revisitou seus maiores sucessos: revisitou seu próprio arquivo fashion. O figurino passou por Gaultier, Versace, Vetements e outros nomes, reconstruindo referências de quatro décadas. Entre eles estava Guram Gvasalia, diretor criativo da Vetements e irmão de Demna Gvasalia, fundador da marca e posteriormente um dos grandes nomes da Balenciaga. Guram colaborou com Madonna em peças da turnê, incluindo bustiers de renda e uma estética que atualizava o lado punk, fetichista e underground de sua imagem. Era quase uma passagem de bastão: a mulher que ajudou a transformar a cultura das ruas em alta cultura agora inspirava uma nova geração de designers que havia feito exatamente o caminho inverso.
Aí, aliás, pode estar o grande segredo da longevidade fashion de Madonna. Ela nunca quis parecer atual. Quis parecer Madonna. Seu método sempre foi misturar passado e futuro, masculino e feminino, sagrado e profano, luxo e rua, vulnerabilidade e poder. Por isso suas roupas sobrevivem às tendências: elas não pertencem completamente à época em que foram usadas. O vestido de noiva com crucifixos dos anos 1980 ainda aparece nas referências de bridal fashion; o corset continua nas passarelas; a lingerie à mostra virou linguagem cotidiana; a alfaiataria masculina ganhou sensualidade; o western voltou inúmeras vezes; a renda, o rosário, as correntes, as luvas e o rosa-choque reaparecem ciclicamente.
Não por acaso, em 2024 a Dolce & Gabbana dedicou um desfile inteiro à influência de Madonna, recuperando justamente os códigos que ela ajudou a popularizar: sutiãs cônicos, corsets, renda, alfaiataria boyish e referências de suas eras Blond Ambition e Erotica. Madonna assistiu ao desfile da primeira fila. A homenagem dizia muito: quatro décadas depois, a moda ainda volta a ela para buscar referências.
Cinco looks de Madonna que nunca saíram de moda
O vestido de noiva com crucifixos — 1984
É provavelmente o primeiro grande manifesto fashion de Madonna. Na apresentação de “Like a Virgin” no primeiro “MTV Video Music Awards”, ela surgiu de vestido de noiva de tule, luvas, múltiplos colares, crucifixos e o provocador cinto Boy Toy. O vestido, a lingerie aparente e a iconografia religiosa transformaram a cantora em assunto nacional e ajudaram a definir a estética dos anos 1980. O mais interessante é que ela não estava apenas seguindo uma tendência: estava inventando uma linguagem que seria copiada por milhares de meninas.
O cone de Jean Paul Gaultier — 1990
O figurino definitivo. O corset de cetim com seios em formato de cone, usado sobre a risca de giz da “Blond Ambition Tour”, virou uma das imagens mais reconhecíveis do século XX. Madonna transformou o corset — historicamente associado à contenção do corpo feminino — em símbolo de poder, sexualidade e autonomia. Décadas depois, a peça continua sendo reinterpretada por estilistas, celebridades e marcas.
A Madonna Maria Antonieta de “Vogue” — 1990
No VMA daquele ano, Madonna entrou no palco como uma versão pop, sensual e deliberadamente exagerada de Maria Antonieta. Vestido volumoso, peruca, joias e referências ao século XVIII foram transformados em espetáculo. O look também mostrou outra característica fundamental da estrela: ela não reproduzia referências históricas; ela as desmontava, sexualizava e transformava em cultura pop.
A camisa azul de Tom Ford para a Gucci — 1995
Aqui está uma das maiores aulas de poder fashion da cantora. Madonna apareceu no VMA com uma camisa masculina de cetim azul, aberta sobre um sutiã preto, combinada com calça preta. Simples para os padrões Madonna — e justamente por isso tão eficiente. O look ajudou a transformar a sensualidade minimalista de Tom Ford em fenômeno de massa e antecipou uma combinação que continua sendo explorada: alfaiataria masculina + lingerie + atitude.
A Madonna religiosa da “Celebration Tour” — 2023/24
O mais bonito é que o último capítulo não tentou apagar os anteriores. Madonna voltou aos símbolos que sempre foram seus: crucifixos, véus, corsets, renda e referências católicas. Em determinado momento da turnê, apareceu em um minivestido preto da Dolce & Gabbana, véu branco e crucifixos; em outro, vestiu um look com auréola. Jean Paul Gaultier criou ainda uma nova versão de seu cone, enquanto Guram Gvasalia levou a linguagem punk e fetichista para a nova década. É Madonna olhando para o próprio passado e provando que ainda consegue transformá-lo em futuro – com muita maestria. God save the fashion Queen!







