Dior, Chanel e Gucci e seus desfiles cinematográficos
Hollywood, Gabrielle Chanel e o caos cool do GucciCore: as maisons apostam em moda como estilo de vida e espetáculo global
“Moda não existe apenas nos vestidos. A moda está no céu, nas ruas, nas ideias, no modo como vivemos.” A frase de Gabrielle Coco Chanel parece costurar perfeitamente a temporada Cruise apresentada neste fim de semana por Dior, Chanel e Gucci. Três desfiles, três cidades e três formas diferentes de transformar roupa em narrativa, entre o brilho cinematográfico de Hollywood, a liberdade solar da costa basca e a energia caótica das metrópoles contemporâneas. Em comum, uma ideia poderosa: o luxo de hoje quer menos rigidez e mais personalidade.
Em Los Angeles, Jonathan Anderson mergulhou na ligação histórica da Dior com a indústria do cinema para apresentar a coleção Cruise 2027 da maison. O desfile ocupou as novas galerias David Geffen, no LACMA, transformando o espaço em uma espécie de cenário entre arte contemporânea e filme noir hollywoodiano. A inspiração inicial veio de uma peça de alta-costura criada por Christian Dior em 1949 e eternizada por Marlene Dietrich em um clássico de Alfred Hitchcock.
A coleção oscilava entre glamour vintage e irreverência pop com vestidos de renda bordada, feitos para refletir flashes de tapete vermelho, enquanto casacos de shearling evocavam o frio elegante das madrugadas de Malibu. Papoulas californianas surgiam discretamente em bordados e costuras, como uma homenagem à paisagem de Los Angeles, inclusive em look amarelo usado pela musa da marca, Sabrina Carpenter, na primeira fila do desfile. Os ternos masculinos masculino cobertos de lantejoulas o os chapéus criados por Philip Treacy, que faziam referência à editora de moda Isabella Blow, musa do excesso criativo dos anos 1990, também evidenciaram que ali Hollywood não era nostalgia, mas sim pura linguagem.
Já a Chanel preferiu olhar para dentro da própria história. Para sua primeira coleção Cruise à frente da maison, Matthieu Blazy levou a marca de volta a Biarritz, cidade onde Gabrielle Coco Chanel inaugurou sua primeira maison de alta-costura em 1915. Ali, ele buscou recuperar a ideia de liberdade que moldou o DNA da estilista francesa.
Na passarela instalada na Villa de Larralde, o tweed tradicional surgia em versões elásticas, maleáveis e luminosas, cobertas por paetês iridescentes que lembravam escamas marítimas. Uniformes náuticos, referência clássica de Chanel, apareciam reinterpretados com leveza quase esportiva, enquanto lenços de seda, conjuntos de algodão lavado e vestidos fluidos reforçavam a ideia de roupas para vestir e viver.
Blazy também reposicionou um dos maiores símbolos da maison: o duplo C, transformando em elemento estrutural das roupas, sustentando drapeados e definindo decotes. Nos acessórios, bolsas gigantes de praia, joias em forma de conchas e sapatos bicolores com perfume Art Déco ampliavam a atmosfera litorânea.
Se Dior apostou no cinema e Chanel na liberdade, a Gucci escolheu o espetáculo urbano. Sob comando de Demna, a maison italiana transformou a Times Square em uma gigantesca instalação viva para apresentar a Cruise 2027 intitulada “GucciCore”. Antes mesmo da entrada das modelos, os telões exibiam propagandas fictícias e reais de produtos da marca — de Gucci Gym a Gucci Pets — dando a ideia da Gucci como universo completo de lifestyle.
O casting parecia uma mistura improvável — e extremamente calculada — de cultura pop e moda: Paris Hilton, Tom Brady, Cindy Crawford, Emily Ratajkowski, Candice Swanepoel, Anok Yai e Alex Consani cruzavam a passarela como personagens saídos das ruas de Nova York.
A coleção partia justamente dessa ideia de arquétipos urbanos. Ternos risca de giz conviviam com denim, casacos técnicos reversíveis coordenam com estolas dramáticas em couro, e por aí vai. Uma Nova York filtrada pela estética hipercontemporânea de Demna — mas que facilmente poderia dialogar com qualquer outra grande metrópole obcecada por imagem, excesso e velocidade. O próprio diretor criativo definiu o GucciCore como um guarda-roupa permanente, pragmático e profundamente “Gucci”, ou seja, ligado à identidade da casa.
Assim, os três desfiles parecem apontar para o mesmo movimento da moda atual: menos fantasia inalcançável e mais construção de universos. Entenderam que não basta vender roupa, mas sim uma cidade, uma atmosfera, uma memória, um personagem e personalidades. O luxo contemporâneo já não quer apenas vestir alguém, mas sim criar mundos inteiros.





