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‘Ligue Djá’, um documentário feito com mucho, mucho amor

Com devoção transbordante por seu personagem, a produção revela a doçura e a coragem do astrólogo e devolve a ele a dimensão de ícone da cultura televisiva

Por Isabela Boscov Atualizado em 24 jul 2020, 11h37 - Publicado em 24 jul 2020, 06h00

Feito com a devoção dos fãs, Ligue Djá — O Lendário Walter Mercado (Mucho Mucho Amor: The Legend of Walter Mercado, Estados Unidos, 2020) é o que se chama de um documentário chapa branca: se seu protagonista um dia cometeu algum pecado, o longa distribuído pela Netflix e dirigido por Cristina Costantini e Kareem Tabsch, ambos americanos de ascendência latina, não o registra. Isso não significa que o filme não contenha revelações interessantes. Para os espectadores brasileiros, entre os quais o autointitulado astrólogo e vidente ficou conhecido pelo comercial de um serviço telefônico pago dos anos 90 (é dele que vem o bordão “ligue djá!” usado no título nacional), pode ser surpreendente saber quão abrangente e duradoura foi a influência de Mercado sobre o público de língua hispânica nos Estados Unidos e na América Latina. Para os que nunca tiveram maior familiaridade com a figura feérica emoldurada por penteados laqueados e capas cravejadas de brilhos, é inusitado perceber que em Mercado o ego convivia com uma doçura e inocência autênticas, além de uma coragem assombrosa — uma necessidade tão imperativa de ser quem era que nem os preconceitos mais arraigados o intimidaram. Assim, se à primeira vista o apelo do filme está no exotismo, a visita à intimidade do personagem, já idoso e recolhido em sua casa, faz com que a curiosidade termine substituída pela admiração.

Nascido pobre no interior canavieiro de Porto Rico, Mercado, segundo o próprio relato, já chegou coruscante ao mundo, com o dom de efetuar curas, e muito cedo começou a materializar sua persona fluida — maquiado e extravagante, nem homem nem mulher, ou talvez ambos ao mesmo tempo. Foi bailarino e ator (canastrão, mas carismático) de teatro e de novelas até desembarcar por acaso na carreira de astrólogo televisivo, na qual se provou um fenômeno instantâneo mesmo em uma cultura exacerbadamente machista e homofóbica. Sempre sereno como um Buda, radiante e confiante de estar cumprindo um serviço público, Mercado fazia com que os astros derramassem mensagens otimistas — e só mensagens otimistas — sobre os mais de 120 milhões de espectadores que o sintonizavam durante uma hora inteira diariamente, para então despedir-se com sua frase-assinatura, a adorada “mucho, mucho amor”.

Como não é raro nesse tipo de biografia, ele foi traído pela pessoa mais próxima, o empresário que alavancou sua carreira e então se apropriou de toda ela — até do nome Walter Mercado — em um contrato lido por cima. É um desfecho melancólico, mas Ligue Djá atenua essa desolação com as imagens de Mercado iluminando-se por dentro em um encontro com os fãs, meses antes de morrer, aos 87 anos, em novembro do ano passado.

Publicado em VEJA de 29 de julho de 2020, edição nº 2697

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