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‘O pior já passou’, afirma especialista sobre riscos da nuvem tóxica

Segundo o professor de Medicina da USP Paulo Saldiva, equipes que tiveram primeiro contato com a fumaça podem apresentar os sintomas de queimaduras pulmonares em até 48 horas

Os membros das equipes que atenderam ao chamado de incêndio desta quinta-feira no terminal de cargas da empresa LocalFrio, em Guarujá, litoral paulista, são os que correm maior risco de problemas respiratórios em decorrência da nuvem ácida lançada sobre o município e sobre as cidades de Santos, São Vicente e Cubatão. É o que explica Paulo Saldiva, coordenador do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, há chance de queimadura pulmonar nos bombeiros que trabalham no combate ao incêncio. “O pulmão é o órgão de choque dos bombeiros”, afirma. Já para a população da região, o risco é menor. “O pior já passou”, diz o especialista.

“Existe todo um histórico de bombeiros que apresentam problemas respiratórios. Isso porque o pulmão não é sensível, como os olhos, nariz e garganta, que ardem. Da traqueia para baixo, sente-se muito pouco. Por isso, muitos desses bombeiros podem sofrer queimaduras extensas ou inflamação extensa do tecido pulmonar”, explicou. De acordo com Saldiva, os profissionais podem apresentar os sintomas de queimadura nos pulmões em até 48 horas. Até agora, nenhum bombeiro procurou atendimento médico.

Sobre os riscos para moradores e turistas, o especialista afirma que a ventilação da cidade reduz a concentração da nuvem, que se dispersa – o que reduz as chances de problemas respiratórios ocasionados pela fumaça. Mais de uma centena de pessoas foram atendidas nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) entre esta quinta e sexta-feira, todos com sintomas como náusea, mal-estar, irritação na garganta e olhos lacrimejando. “Tudo isso é consequência de respirar uma substância com pH muito baixo”, explica Saldiva. “Quem tem doenças crônicas, como asma e rinite, por exemplo, vai sofrer mais neste período”.

A principal hipótese para explicar a formação da nuvem tóxica que se espalhou sobre as cidades de Guarujá, Santos, São Vicente e Cubatão é uma falha em um dos contêineres. O equipamento teria uma rachadura que permitiu que a água da chuva entrasse em contato com a substância química armazenada, o dicloroisocianurato de sódio, provocando reações em cadeia, com a liberação de gases tóxicos, explosões e fogo. As chamas teriam, então, se espalhado para os outros equipamentos de transporte de carga, gerando o incêndio de grandes proporções.

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Mas não são apenas os seres humanos que podem sentir os efeitos da nuvem ácida. A vegetação e os animais que dela se alimentam também podem ser afetados. Isso porque a chuva, que por um lado lava o ar, também carrega as substâncias químicas para o solo. “Enquanto houver essa nuvem, a água vai reagir com os produtos presentes nela e se dará uma chuva mais ácida”, disse. “O cloro, particularmente, é tóxico para a vegetação”. O problema é que ainda não há informações sobre o volume que foi queimado de dicloroisocianurato de sódio, para saber as dimensões das consequências ambientais.

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou que, em uma primeira análise, não foi encontrada nenhuma anormalidade no Estuário (ambiente de transição entre mar e rio) de Santos, localizado na área portuária. “Fizemos uma vistoria no Estuário e não constatamos mortalidade de peixes”, disse o gerente da companhia, Enedir Rodrigues. A Cetesb também está fazendo o monitoramento do sistema de drenagem de água e do ar de Guarujá.