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Na ocupação da Rocinha, a redenção de São Conrado

No bairro que já teve os valores mais altos do Rio, apartamentos de luxo devem ter valorização de ate 50% com a 'pacificação', estima Ademi

“Na orla de São Conrado mora a classe média alta, principalmente empresários jovens. São, normalmente, pessoas que gostariam de estar na Vieira Souto ou na Delfim Moreira”, explica o presidente da Ademi, José Conde Caldas

A favela da Rocinha cresceu junto com São Conrado, um bairro da zona sul que já foi o mais caro do Rio de Janeiro. Com a expansão das ruelas morro acima, aumentou também a criminalidade. Há 15 anos, as balas pressionam para baixo os preços dos apartamentos. A ocupação da Rocinha para a criação de mais uma UPP no Rio, que deve acontecer no próximo domingo, será uma conquista para os moradores e comerciantes. O melhor termômetro das expectativas com a ocupação é o mercado imobiliário. Segundo estimativas da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio (Ademi-RJ), um apartamento de 300 metros quadrados perto da Rocinha, em um condomínio de luxo, com espaço de lazer e quadras de esporte, deve ter valorização de até 50%. Atualmente, essas moradias custam cerca de 1,3 milhão de reais.

O preço, apesar de alto, é menor do que seria um apartamento idêntico no Leblon, bairro vizinho a São Conrado, estimado em cerca de 6 milhões de reais. Os imóveis depreciados por causa da criminalidade deverão todos subir de preço. Até mesmo nos apartamentos de frente para a praia, mais distantes da Rocinha, é provável que os valores subam até 40%. A Avenida Prefeito Mendes de Moraes, na praia de São Conrado, tinha valores mais altos que os valorizados bairros de Leblon e Ipanema no começo dos anos 90. Atualmente, o preço de um apartamento na rua da praia de São Conrado é de cerca de 3 milhões, enquanto no Leblon o valor é de, no mínimo, 7 milhões de reais.

“Na orla de São Conrado mora a classe média alta, principalmente empresários jovens. São, normalmente, pessoas que gostariam de estar na Vieira Souto ou na Delfim Moreira”, explica o presidente da Ademi, José Conde Caldas. Ele explica que o perfil do morador dos condomínios de luxo, próximos da Rocinha, é outro. “Eles querem apartamentos amplos, diferenciados e com área de lazer sem ter que ir para a Barra da Tijuca. Esses moradores estão na faixa dos 50 anos e prezam mais a qualidade de vida do que o status de morar no Leblon ou em Ipanema”, afirma.

Nos últimos 15 anos, os preços dos imóveis de São Conrado foram reduzidos à metade, de acordo com estimativas da Ademi. Episódios como a invasão de bandidos da Rocinha ao hotel Intercontinental mancham a imagem do bairro. “Quando criminosos fizeram reféns no hotel, muito negócio foi desfeito. As pessoas ficaram apavoradas e cancelaram a compra de imóveis no bairro”, explica Caldas.

A moradora de São Conrado Bruna Sabeck, de 26 anos, mora em um prédio em frente à favela. No dia da invasão ao Intercontinental, a perseguição dos policiais aos bandidos deixou a lateral do edifício cravejada de balas. “Foi helicóptero e tiros para todos os lados”, explica Bruna. Da janela de seu apartamento, se tem a imagem da Rocinha. No final dos anos 90, uma bala perdida chegou a entrar no décimo andar do prédio. “Quando tem operação, nem passamos perto da janela”, explica a moradora, que costumava se refugiar no corredor quando havia tiroteio na favela.

Por duas vezes, Bruna teve que deixar de voltar para casa por causa de arrastões feitos por traficantes da Rocinha no túnel Dois Irmãos, ligação entre o Leblon e São Conrado. Quem mora um pouco mais distante sente menos os problemas da convivência com uma favela dominada por traficantes. “A minha expectativa é de que a pacificação seja muito boa. Ela tem que acontecer. É um bairro maravilhoso com mito de ser perigoso”, explica a decoradora Claudia Mazza, de 60 anos.

Apesar dos preços menores do que os de mercado, São Conrado abriga o Fashion Mall, um dos shoppings mais caros do Rio, o Gávea Golf Club, frequentado pela elite carioca, e a segunda rua mais cara da cidade, a Capuri, com casas que valem entre 12 e 15 milhões de reais. As escolas também são caras. A instituição de ensino Carolina Patrício, por exemplo, tem a mensalidade entre 800 e 1.100 reais. A pacificação pode ser um passo para aumentar a interação entre a escola e a favela. Atualmente, os funcionários de serviços gerais do Carolina Patrício são moradores da Rocinha. Há vagas para algumas crianças do morro e, anualmente, são doados materiais escolares e móveis da instituição para as creches da Rocinha. “Acredito que com a pacificação, podemos estreitar os laços. Espera que seja um movimento vitorioso, sem qualquer tipo de tragédia. Queremos paz”, afirma a diretora Noemi Patrício dos Nascimento Simões, de 71 anos.

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