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Ex-secretária diz que foi demitida por não ‘nomear despreparados’

Katiane Gouvêa, que comandava a Secretaria do Audiovisual, afirma que foi vítima da política do então secretário Roberto Alvim, que citou o nazista Goebbels

Por Hugo Marques Atualizado em 21 fev 2020, 13h09 - Publicado em 21 fev 2020, 12h32

No dia 11 de dezembro, a então secretária do Audiovisual, Katiane Gouvêa, foi forçada a se retirar de seu gabinete pelo superior, o então secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim – o mesmo que reproduziu o discurso do nazista Joseph Goebbels. Pela primeira vez, ela falou sobre o episódio. Katiane disse a VEJA que Alvim enviou um assessor e dois seguranças à sua sala e que os homens a forçaram a se retirar do prédio. Os três a acompanharam até a garagem, em uma espécie de condução coercitiva. Alvim foi demitido no mês passado, após copiar frases do ministro da propaganda nazista.

“O Alvim sempre mencionava as ideias do Goebbels e eu dizia a ele: ‘Eu não quero saber de nada que venha do nazismo. Eu pedia que ele respeitasse as pessoas e as instituições’”, disse Katiane. Ela lamenta que tenha sido escorraçada do ministério. “Quando abri a porta do meu gabinete, vi três pessoas que tinham ido me acompanhar, eu disse que não precisava daquilo, mas me responderam: ‘A gente está aqui para te escoltar, é uma ordem do secretário’”.

Katiane afirma que sua demissão não teve nenhuma relação com eventual prestação de contas de campanha, quando foi candidata a deputada, e nem com suposta proibição de veiculação de um filme, que ela nega veementemente. Seu afastamento do governo, diz, se deu em relação a dezenas de nomeações que chegavam à sua mesa, mas que ela não aceitava assinar, pois a grande maioria era de pessoas sem currículo, sem nenhuma formação ou preparo para os respectivos cargos.

“O que mais desagradou ao Alvim foi eu não ter feito as nomeações de gente despreparada, de não ceder às pressões políticas para distribuir cargos no governo”, diz Katiane. Ela afirma que não aceitou ceder às pressões para nomear mais de 20 pessoas indicadas por Geralda Gonçalves, a ‘Geigê’, amiga do presidente Bolsonaro, e três indicações que Alvim dizia terem sido feitas pelo então ministro da Cidadania, Osmar Terra. Katiane guarda até hoje alguns dos currículos que rejeitou, que chegavam pelo WhatsApp.

Katiane diz que defendia passar um pente fino nos projetos da Lei Rouanet. Ela diz que a grande maioria dos projetos que captaram recursos não teve prestação de contas. “O que aconteceu com a Regina Duarte foi positivo, pois o processo dela está na fase administrativa desde 2004 e até hoje o TCU não cobrou esse dinheiro”. Regina Duarte, conforme mostrou reportagem de Veja, teve as contas rejeitadas em um de seus projetos financiados pela Lei Rouanet.

Roberto Alvim diz que não dará nenhuma declaração sobre o que a ex-secretária Katiane ou qualquer outra pessoa falar sobre ele. Geigê não quis comentar. O ex-ministro Osmar Terra não retornou telefonema.

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