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As dificuldades da Tesla para se consolidar no mercado brasileiro

O presidente Jair Bolsonaro confirmou as intenções de trazer a companhia para o Brasil — mas os entraves ainda são muitos

Por Victor Irajá - Atualizado em 26 fev 2020, 11h42 - Publicado em 21 fev 2020, 11h58

Em um futuro próximo, finalmente, veremos os revolucionários carros da Tesla zanzando pelas ruas do país? O presidente Jair Bolsonaro tuitou, na manhã desta sexta-feira, 21, que viajará aos Estados Unidos em março para discutir a montagem de uma fábrica da montadora de veículos elétricos no Brasil. Anteriormente, VEJA abordou que o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, está negociando junto com o deputado federal Daniel Freitas (PSL-SC) a instalação de uma fábrica nos cantos de cá. “Em nossa extensa agenda a possibilidade da Tesla no Brasil”, anunciou pela rede social. O presidente vai a Miami nos dias 9 e 10 do mês que vem.

A sede deve ser montada em Santa Catarina. Apesar de o governo não confirmar o acordo, Freitas disse a VEJA que a companhia de Elon Musk chegaria por aqui até 2023. Os entraves, porém, são muitos para que a empresa consiga se consolidar no país. Para além dos elevados preços dos carros, o país enfrenta um déficit em infraestrutura — como de pontos para o abastecimento dos veículos. Na esteira deste problema, uma start-up de tecnologia, a Tupinambá, lançou um aplicativo para interligar os locais onde os consumidores podem, digamos, carregar os carros. “Acaba a figura dos postos de combustível tradicionais e nasce uma nova era de serviços, que podem ser oferecidos por shoppings centers e redes de varejo”, afirma Davi Bertoncello, CEO da empresa.

Claro que o Brasil é, sempre, um mercado interessante — principalmente com as expectativas de um avanço robusto da economia nos próximos anos. Em janeiro, dada a aceleração dos valores das ações da empresa, a Tesla ultrapassou a General Motors (GM) e a Ford combinadas. A companhia se tornou a primeira montadora a ultrapassar o valor de mercado de 100 bilhões de dólares, enquanto as duas americanas são, respectivamente, avaliadas em aproximadamente 50 bilhões de dólares e 37 bilhões de dólares. “A Ford e a GM passaram por uma grave crise financeira há dez anos. Ficaram para trás nos quesitos de inovação e desenvolvimento. Não foram capazes de lançar essa tendência”, afirma Milad Kalume Neto, da consultoria automotiva Jato Dynamics.

A tendência, digamos, mais verde e ambientalmente correta são fatores que explicam o por que de a Tesla ver o Brasil com bons olhos. O preço dos combustíveis nas alturas também. Mas, convenha-se, pagar mais de 5 reais por litro não parece um desafio para aqueles dispostos a pagar mais de 74 mil dólares — este é o preço cobrado nos Estados Unidos. Para importar um carango destes, o brasileiro precisava desembolsar uma pequena fortuna, que ultrapassava as centenas de milhares de reais.

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O longo reinado do petróleo, porém, ainda parece distante de acabar. Não são poucos os que invocam o fim da era dos combustíveis fósseis por questões ambientais. Parte dessa certeza vem de ações como o recente anúncio feito pela prefeitura de Paris de que os carros movidos a gasolina e diesel serão banidos da capital francesa até 2030. Da mesma maneira, embalam o raciocínio demonstrações como a ocorrida no último Salão de Frankfurt, com todas as grandes montadoras a ostentar modelos elétricos ou híbridos.

Ninguém duvida que os automóveis, ônibus e caminhões poluidores estão com os dias contados. Mas, ainda que o número de veículos elétricos aumente drasticamente, os países emergentes levarão um tempo bem maior para aderir às novas tecnologias. “É consenso que o processo de transição da matriz energética é um fenômeno global irreversível. O que não se sabe é quanto tempo essa revolução demorará para acontecer”, afirma Carlos Assis, sócio da consultoria Ernst & Young. Elon Musk torce para que seja em breve — mas, para quem quer mandar o homem à lua, o Brasil não parece um destino tão distante.

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