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Elie Horn: “Temos a obrigação moral de doar”

É comum os empresários criticarem o governo por não avançar nas graves questões sociais brasileiras, mas eles se dedicam pouco à filantropia

Por Elie Horn* Atualizado em 7 fev 2020, 10h05 - Publicado em 7 fev 2020, 06h00

Na vida, para tudo há uma causa original: Deus. E pode-­se traçar uma sequência lógica a partir disso. Se Deus existe, também existe uma missão. Se o homem tem uma missão, qual é ela? Descobri que é fazer o bem. Eu era uma pessoa completamente avessa a exposição. Não gostava de conceder entrevistas, fosse para falar sobre minha empresa, fosse para falar sobre filantropia. Diziam-me que estava sendo egoísta. Afinal, não há sentimento melhor que fazer o bem. Comprometi-me a doar 60% de tudo o que tenho em vida, e assim procedo ano a ano. Agora, um dos próximos passos é construir uma cultura de doação.

Hoje faço parte do grupo The Giving Pledge, entidade filantrópica criada por Bill Gates e Warren Buffett. Nem de longe sou o maior filantropo deste país. Temos personalidades reconhecidas e outras que fazem muito, até mais do que eu fiz, seja por esforço, seja por volume financeiro, e nem são tão conhecidas. Entendi que ficar calado sobre isso não me levaria a lugar algum. Porque não é suficiente apenas dar. Podemos doar quanto quisermos, mas estaremos fazendo um único bem. Se conseguimos convencer outra pessoa, esse bem se multiplica por dois. E, se esse novo doador conquista o coração de outros, essa multiplicação se torna algo de crescimento exponencial. Quando encontramos pessoas com condições de fazer diferença, sempre percebemos que elas têm sentimentos bons. Contudo, há uma corrupção social muito grande causada pelo egoísmo. É preciso uma campanha sobre o altruísmo.

  • Após ter decidido começar a falar sobre o que faço, essa missão passou a ser inspiração para as pessoas doarem. Entre as ações que realizo para cumprir essa missão estão jantares beneficentes, eventos, palestras.

    No entanto, todas as vezes em que fazemos um jantar, por exemplo, na hora em que as pessoas precisam pôr a mão no bolso, logo aparecem as desculpas. Muitos dizem que o governo precisa incentivar mais, por meio de isenções fiscais. Digo: “Esqueça o governo! Faça o seu dever”. Se cada um de nós fizer a sua parte, já bastará para termos um mundo melhor. Está na hora de criticarmos menos e fazermos mais pelo outro, pelas crianças, pelo futuro. Temos a obrigação moral de dar. Acredito que só critica quem não quer dar.

    Alguns dados mostram como poucos têm vontade de doar. Nos Estados Unidos, o volume de recursos repassados a entidades filantrópicas alcança 1,6% do produto interno bruto (PIB). No Reino Unido, um país com uma cultura menor de doação, esses repasses representam 0,5% do PIB. No Brasil, onde a atitude se faz muito mais necessária que nos países desenvolvidos, eles não chegam a 0,2% do PIB. Junto com diversos outros colegas empresários, fundei o Movimento Bem Maior de fomento à filantropia. Nosso objetivo é que, até 2030, esse porcentual seja o dobro do que é hoje. Queremos criar uma moda. E queremos fazer com que as pessoas “vistam esse movimento”. Quando elas perceberem quanto podem se sentir bem por uma causa nobre, passarão a fazer o bem sempre.

    A falta de uma cultura de doação no país nos coloca numa situação desprivilegiada em relação ao resto do mundo. Recentemente, dois empresários vieram ao escritório. Cada um prometeu um bom montante para a causa. Logo depois, um terceiro bateu à porta para contribuir com um valor substancial também. Percebo que a ideia tem dado resultado. Estamos conseguindo conscientizar as pessoas. Esse é um ponto importantíssimo nesta discussão: consciência e desejo.

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    “Dizem que o governo precisa dar incentivos a quem quer doar. Digo: ‘Esqueça o governo! Faça o seu dever’”

    Digo isso porque uma questão sempre surge quando se fala sobre quanto o brasileiro doa: é a condição financeira de cada um. Uma pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) revela que “ter mais dinheiro” é o fator mais citado pelas pessoas como estímulo para doar tempo ou dinheiro. Quando existe vontade, nada é maior que isso. Seja uma hora na semana, seja uma pequena parte dos ganhos. Desde que seja de sua vontade e desde que aquilo realmente vá melhorar a vida de alguém.

    Há algumas situações para as quais não podemos deixar de olhar com carinho. A primeira infância, a educação, a inclusão social, o combate à pobreza e, o que mais tem nos tocado nos últimos tempos, o abuso sexual de menores de idade. Saber que existem meninas de 8 anos que são abusadas dói-me muito — faz mal ao coração. Mais doloroso ainda é pensar que muitos bebês passam por essa situação. Ajudar a resolver tal questão é uma missão maior, um assunto urgente que precisa de um remédio imediato. É isso que nos motiva a sermos maiores. No momento em que todos entenderem sua missão aqui, vão fazer as coisas com mais força e eficiência.

    Quando conversei com minha família sobre a vontade de abrir mão de parte do patrimônio, a única coisa que ela me pediu foi que eu fizesse isso em vida, e não após a morte. Assim o tenho feito. Minha questão é com Deus. Ele detesta mediocridade. Meu pai doou 100% do que tinha. Tento seguir um caminho semelhante, porque essa é minha poupança eterna. Se fizermos bem para este mundo, Deus estará de bem conosco agora e na eternidade; afinal, quando morrermos, a vida da alma, que é eterna, apenas começará sua trajetória.

    Toda pessoa que se preza trabalha pelo seu futuro e pelo de sua família. Qualquer um com um mínimo de responsabilidade sabe que precisa guardar algo para sua velhice. Então, é fundamental pensar: “E o futuro da minha alma? Como estou cuidando disso?”. Se Deus existe, e eu tenho uma certeza inabalável de que sim, não posso ficar devendo a Ele.

    * Elie Horn é empresário. Judeu nascido na Síria, o fundador da Cyrela está radicado no Brasil há 65 anos

    Publicado em VEJA de 12 de fevereiro de 2020, edição nº 2673

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