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A tranca de bicicleta e a selvageria no Rio

Pelo Facebook, cariocas que condenam a ação de justiceiros convidam quem apoia a tortura a um 'bloqueio mútuo'. Polícia, que não consegue conter a escalada dos roubos, agora também precisa combater gangues que querem fazer 'justiça com as próprias mãos'. Assim começaram as milícias

As autoridades de segurança do Rio recebem, desde o último domingo, uma aula prática sobre como um problema negligenciado pode ter desdobramentos trágicos. Diante da escalada de roubos na cidade, em particular na região do Flamengo, um bando de autointitulados “justiceiros” recorreu a uma prática medieval para castigar um adolescente negro e pobre a quem acusaram de roubo. O jovem foi preso a um poste com uma tranca de bicicleta em forma de “U”. A polícia, que não prendia os ladrões, agora caça também os torturadores na calçada de uma área nobre da cidade.

O caso veio à tona – e ganhou proporção – por meio das redes sociais. A artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, que fundou a ONG Projeto Uerê, de apoio a crianças com dificuldade de aprendizado, foi no domingo à noite ao local onde o rapaz, de 17 anos, estava nu, preso pelo pescoço e com ferimentos. A cena lembra um episódio do seriado Breaking Bad, na qual um traficante é mantido preso com uma tranca semelhante, em um porão.

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Yvonne publicou a imagem chocante e revelou em sua página do Facebook a história do rapaz, que disse a ela ter vindo do Maranhão. Ele próprio afirmava que um grupo de motoqueiros, que se apresentavam como “justiceiros”, eram os autores do castigo. Ao jornal O Globo, a artista plástica disse ter recebido e-mails com ameaças de morte depois de ter denunciado o caso.

Também nas redes sociais, formou-se rapidamente uma corrente de repúdio a quem pretende realizar justiça com as próprias mãos. A forma de reprovação da selvageria no Facebook consiste em convidar a um “bloqueio” quem eventualmente aprovar o uso da tranca como instrumento de tortura. Mais ou menos no seguinte formato: “Este objeto é uma tranca de bicicleta, feita para prender bicicletas em postes. Se você acha que essa tranca deve ser utilizada em seres humanos, por favor me exclua de sua lista de amigos do Facebook”. Este foi o texto escolhido pelo crítico de cinema e DJ Marcelo Janot, que, ao longo do dia, teve sua publicação compartilhada por mais de 1.000 seguidores.

A resposta do poder público veio na forma de prisões na região do crime. Na madrugada desta terça-feira, uma operação da Polícia Militar deteve 14 suspeitos – doze deles menores de idade – em uma pista de skate do Parque do Flamengo. O grupo foi denunciado por moradores de rua, que diziam ter recebido ameaças. Não há comprovação de envolvimento no caso do rapaz preso com a tranca de bicicleta.

A situação extrema criada com a barbaridade do domingo escancarou a angústia da população com o crescimento acentuado dos roubos, em todas as suas variações. Os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) referentes a outubro de 2013 mostram crescimento em todas as modalidades de roubo na comparação com outubro de 2012. Os roubos de veículos cresceram 50,1% (passaram de 1.762 para 2.645 registros no Estado); os roubos a transeunte subiram 38,2% (foram de 4.029 casos para 5.569); assaltos em ônibus cresceram 67,7% (de 350 para 587). Os “roubos de rua”, que consideram todos os assaltos, roubos de celular e em coletivos, tiveram 6.694 casos, ante 4.728 no mesmo período do ano anterior, um aumento de 41,6%. Também cresceram roubos a residência, com aumento de 89 para 120 casos (34,8%).

Quando a análise dos dados é ampliada, considerando o trimestre de agosto a outubro, também há aumento. Roubos de veículo cresceram 43,7%; ataques a transeunte subiram 38,1%, assaltos em coletivo tiveram elevação de 77,6% e os roubos a residência registraram aumento de 20,5%.

Sempre que a polícia do Rio deixou uma modalidade de crime correr solta o resultado foi trágico. Ao longo das décadas, o faz de conta propiciou a entrega do controle territorial dos morros aos chefes do tráfico. Bandidos armaram-se para a guerra com a polícia e com quadrilhas rivais, estabelecendo um arsenal que, nas horas ociosas, serviram e servem a todo tipo de crime, dos sequestros da década de 80 e 90 aos assaltos a carros forte. Nas áreas mais pobres, além do tráfico, surgiram ao longo da última década quadrilhas de milicianos, comandadas por policiais da banda podre que viram, na ausência de poder público e serviços, uma oportunidade para operar diretamente atividades ilegais, como transporte, fornecimento de água e gás, distribuição de sinal de TV a cabo e, claro, “segurança”.