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Caso Britney Spears vai de diagnóstico de demência a espiões israelenses

Novos documentários se aprofundam no drama da cantora, que há doze anos foi privada da própria autonomia pela Justiça

Por Felipe Branco Cruz 28 set 2021, 12h15

Em 2009, um ano após ter sido submetida a um rigoroso regime de tutela, a cantora Britney Spears, de 39 anos, tentou pedir na Justiça a troca de seus advogados, numa manobra digna da ficção. Em um plano traçado pelo seu ex-empresário Sam Lutfi e o papparazzo que virou namorado, Adnan Ghalib, considerados más influências pelo pai da cantora, Jamie Spears, eles pediram ajuda a jornalista Jenny Eliscu para se infiltrar em um hotel onde a cantora estava hospedada e se encontrar secretamente com ela no banheiro. Na ocasião, Jenny diz ter entregue um documento a Britney com o pedido para deixar a tutela e trocar de advogado, já que ela não confiava em Samuel D. Ingham. A cantora assinou o documento e  Jenny se encarregou de entregá-lo à Justiça. O esforço, no entanto, foi em vão. Um tribunal decidiu que a cantora não tinha capacidade de contratar seu próprio advogado e suspeitou que a assinatura poderia ter sido falsificada.

A cena é descrita por Jenny no documentário Britney x Spears, que estreou nesta terça-feira, 28, na Netflix. O documentário, produzido e dirigido por Jenny e pela cineasta Erin Lee Carr, mostra ainda o documento oficial que embasou o pedido de tutela, em que a cantora teria sido diagnosticada com demência. Exceto pelo encontro no banheiro, este novo documentário traz poucas novidades sobre o caso: já se sabia que o pai de Britney sugeriu que ela tivesse demência, e que a cantora não conseguiu o direito de escolher o próprio advogado. Nem por isso o filme fará menos barulho do que merece: Britney traz com ela um magnetismo que atrai as atenções — uma benção vertida em maldição quando o excesso de fama,  dinheiro, paparazzi em seu encalço e dramas familiares a colocaram sob a tenebrosa tutela do próprio pai.

O novo filme sai na esteira de outros dois, Framing Britney Spears e Controlling Britney Spears, ambos produzidos pelo The New York Times. Se o primeiro ajudou a dar destaque para o drama comparável a um esquema de cativeiro, os mais recentes, embora não tragam lá muitas revelações, prometem colocar os últimos pregos no caixão desse sistema — espera-se.

Controling Britney Spears, que estreou recentemente nos Estados Unidos e ainda está indisponível no Brasil, foca no aparato de segurança criado pelo pai, que supostamente teria colocado escutas dentro do quarto dela e monitorado sua vida, mesmo quando ela estava na intimidade com o namorado. Os celulares em torno da cantora também estariam sendo monitorados por uma empresa israelense de espionagem, chamada The Black Box.

  • Embora dignas de filmes de Hollywood, essas suspeitas são corroboradas no documentário da Netflix, que traz entrevistas com amigos que emprestavam o telefone para Britney ligar para outras pessoas sem ser monitorada e relembra uma ocasião em que ela conseguiu escapar por 30 minutos da vigilância para dirigir seu próprio carro. Por outro lado, um ex-integrante da equipe da cantora desdenha das afirmações ao dizer quer Los Angeles não é um país fascista e que se Britney quisesse pedir ajuda ou falar com alguém, ela conseguiria.

    Em mais de 1h30 de duração, as duas cineastas de Britney x Spears se emocionam com a leitura dos documentos sigilosos do caso, recebidos por meio de uma fonte não identificada. Elas investigam ainda como uma pessoa aos 30 e poucos anos, com diagnóstico de demência – geralmente dado para idosos -, possa trabalhar, fazer shows, dirigir espetáculos e até atuar como jurada de reality show? “Diziam que ela estava louca”, conclui Erin.

    Pôster do documentário 'Britney X Spears'
    Pôster do documentário ‘Britney X Spears’ //Divulgação

    Os esforços dos documentários parecem estar surtindo efeito. Recentemente, Britney foi autorizada a trocar de advogado e a primeira ação dele foi pedir o fim da tutela, algo que nunca tinha sido feito com o seu antigo representante. O pai, sentindo a pressão da opinião pública, pediu oficialmente para deixar a tutela afirmando que os fundamentos para ela existir podem não mais existir.

    Outro mérito do filme é destinar seus esforços apenas ao processo de tutela, deixando de lado os episódios polêmicos em que a cantora se envolveu no passado, como quebrar o carro de um paparazzo ou raspar o cabelo. “Até para dirigir um carrinho de golfe ela tinha que pedir autorização”, diz um amigo da cantora. O documentário é concluído no dia da fatídica audiência em que Britney foi autorizada a falar e se defender. E as cineastas deixam uma incômoda pergunta no ar: como uma situação como essa pôde continuar por tanto tempo sem solução? Uma questão que a Justiça terá de responder.

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