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petróleo

05/04/2015

às 16:00 \ Política & Cia

SARDENBERG: A Petrobras já está sendo privatizada desde a época de Graça Foster — com alienação do patrimônio para pagamento de dívidas

(Foto: AP)

Levy e Dilma: um ortodoxo recrutado para salvar o governo. Ele respeita e ouve os mercados, mas ela diz que não governa com “especuladores”  (Foto: AP)

PRIVATIZANDO NA BACIA DAS ALMAS

Artigo de Carlos Alberto Sardenberg publicado no jornal O Globo

Carlos-Alberto-Sardenberg1Não faltam manifestações a favor da Petrobras e contra sua privatização. O PT, sindicatos e associações de petroleiros atribuem a sanha privatista às elites e aos mercados.

Mas a Petrobras já está sendo privatizada, e isso desde a época de Graça Foster. Chamam a operação de “vender ativos” ou “desinvestimento”, mas o nome é privatização na forma mais clássica: alienar patrimônio para pagar dívidas e fazer caixa…

E mais: privatizam no pior momento. A estatal, superendividada, está desesperada atrás de caixa; o petróleo está em baixa forte e, parece, duradoura, o que desvaloriza todos os ativos do setor. Privatizam na bacia das almas.

Parece ser a sina dos desenvolvimentistas: obrigados a tocar políticas ortodoxas para corrigir os estragos causados por suas políticas supostamente desenvolvimentistas. Com uma agravante: são estranhos à ortodoxia, não a estudaram, não a praticaram, acabam fazendo tudo mal feito.
Pensaram no atual momento do governo Dilma?

Pois é isso mesmo, com uma diferença importante. A presidente chamou um legítimo ortodoxo, assim celebrado no Brasil e lá fora, para tocar esse serviço.
Para quem considera que o ajuste é necessário, trata-se de uma vantagem. Mas os conflitos são inevitáveis.

A presidente e ministro Levy até que se esforçam para não criar atritos e/ou para desarmar os que aparecem. Mas toda vez que uma ou outro fala espontaneamente, quando deixam fluir as ideias, dá trombada.

Levy respeita e ouve os mercados. Dilma diz que não governa para especuladores. O ministro considera que o ajuste das contas públicas é questão de princípio, que não há vida sem equilíbrio fiscal e monetário. Dilma acha que o ajuste é um atalho, um mal necessário para um problema momentâneo.

Levy escreveu diversas vezes sobre os equívocos da política do Dilma-1. Previu os desastres quando disse, por exemplo, que o crescimento dos salários sem ganhos de produtividade levaria fatalmente ao aumento do déficit das contas externas e da inflação. Dilma acha que o crescimento dos salários é seu mérito e que os problemas vieram não disso, mas da crise internacional.

Levy tem dito que a crise já acabou. Dilma ainda sustenta que a Europa está estragando tudo com sua austeridade.

Então, poderão perguntar, por que a presidente aplica aqui a mesma austeridade? Não é a mesma, sustenta a presidente. Lá é questão de princípio, aqui é mal passageiro.

Levy disse que a alta de salários sem ganhos de produtividade aperta o lucro das empresas, o que não é bom, porque estas param de investir. Dilma acha que o ajuste tem que ser mais em cima das empresas.

Levy diz que os bancos públicos vão elevar suas taxas de juros, as taxas que Dilma mandara derrubar.

Levy quer um amplo programa de privatização de estradas, portos, aeroportos, para o qual considera que as tarifas devem ser atraentes, ou seja garantir o bom lucro dos investidores. Para Dilma, o mais importante é a tarifa baixa.

Mentiricídio

Muita gente no governo diz que Levy comete sincericídio. Querem, pois, que cometa mentiricídios.

Ele não tem feito isso, mas dá umas voltinhas. Por exemplo: diz que o ajuste das contas públicas tem como objetivo o crescimento econômico. Não é bem assim. Difícil ter crescimento sustentado com desajuste das contas públicas. Mas contas em ordem não garantem crescimento. É perfeitamente possível ter orçamento equilibrado e estagnação.

O que garante crescimento é investimento, especialmente em infraestrutura e, no nosso caso, via privatizações — quer dizer, perdoem, concessões.

Bom para a China

A política externa da China tem um grande objetivo: garantir o abastecimento de comida, matérias primas e petróleo. Na outra mão, abrir e consolidar mercado para seus produtos industrializados.

Com enorme poupança, a China paga adiantado e assim financia a produção do que vai receber lá na frente. A petroleira que recebe o financiamento fica amarrada ao credor por muitos anos.

Com a Argentina, a China fez um monte de acordos desse tipo, de financiar a troca de alimentos por industrializados. A Argentina está sem acesso aos mercados internacionais de crédito e assim se agarra ao dinheiro chinês.

Por isso, a Petrobras precisa explicar muito bem como foi esse acordo pelo qual vai receber US$ 3,5 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China.

Não pode

Parece que a gente está anestesiado diante de tanto malfeito. Mas convém reparar: o presidente da Vale, Murilo Ferreira, não pode ser o presidente do Conselho de Administração da Petrobras.

As duas têm negócios e operações conjuntas que podem levar a conflito de interesses. Além disso, a Vale tem um pé no governo – ou o governo tem um pé na Vale. E tudo bem com o mesmo executivo como chairman e CEO das duas maiores companhias?

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28/02/2015

às 18:00 \ Política & Cia

SARDENBERG: Risco Petrobras, risco Brasil

(Imagem: Envolverde.com.br)

Em 2015, o Brasil afunda junto com a Petrobras (Imagem: Envolverde.com.br)

Artigo de Carlos Alberto Sardenberg publicado no jornal O Globo

Carlos-Alberto-Sardenberg1A inflação já estourou o teto da meta e vai continuar assim ao longo deste ano. Produção e consumo vão devagar, quase parando. Contas externas continuam no vermelho. Contas públicas são arrumadas a custo de corte de gastos, inclusive em benefícios sociais, e carga tributária.

O brasileiro já entendeu tudo. Pesquisa do Instituto Datapopular mostra que as pessoas esperam para este ano mais inflação, menos emprego, mais impostos e nada de aumento de salário.

Mas não há expectativa de desastre ou de uma crise aguda, não por causa do cenário econômico.

Por exemplo: a inflação em 12 meses, medida pelo IPCA-15 de fevereiro, bateu em 7,36%. Qual a previsão consensual entre os especialistas para o final do ano? A mesma coisa, 7,33%, tal como se vê no Relatório Focus, veiculado toda segunda-feira no site do Banco Central e que resume a opinião de fora do governo (consultorias, instituições financeiras, institutos de estudo e pesquisa).

O dólar tem oscilado entre R$ 2,80 e R$ 2,90. Expectativa para dezembro? R$ 2,90, e se chegar a R$ 3, pouca gente vai estranhar. Bate na inflação, encarece o importado, mas o BC agora parece mais sério no esforço de alcançar a meta de 4,5%, ainda que lá na frente. A taxa de juros vai subir de novo na próxima reunião.

Por outro lado, o dólar caro o ano todo deve ajudar a reduzir o déficit das contas externas, barateando exportações e encarecendo as viagens internacionais.

Também ninguém espera um desastre nas contas públicas. Ao contrário, é certo que estarão bem melhor do que ano passado só com a eliminação, já em prática, das lambanças do ex-ministro Mantega. Será difícil para o atual ministro Joaquim Levy cumprir a meta de economizar R$ 55 bilhões líquidos este ano, mas ninguém vai achar que é o fim do mundo se economizar uns 40 bi ou até menos que isso. Interromper a trajetória desastrosa dos últimos anos já é um baita avanço.

O país não escapa de uma recessão este ano, também conforme um amplo entendimento entre analistas aqui e lá fora. Logo, o desemprego deve aumentar — e as pessoas já perceberam que está mais difícil arranjar ou trocar de trabalho. Mas quando se estende o cenário para 2016, a coisa melhora no geral. A expectativa é de mais crescimento, com menos inflação e maior equilíbrio nas contas do governo.

Resumindo, 2015 é um ano ruim, pior que 2014, mas será também um período de arrumação. Dia desses, o ministro Joaquim Levy disse que não há tarefa de política econômica que não possa ser feita neste momento. Quis dizer que os problemas estão identificados, as receitas são conhecidas e já foram aplicadas em outras ocasiões. Há também amplo entendimento nisso.

Então, qual o problema, além do desconforto de cruzar este ano?

A Petrobras.

Considerem os investimentos em infraestrutura, por meio das concessões de estradas, portos, aeroportos, transportes a empresas privada — aqui está a única chance de intensificar a atividade econômica. Mas isso não pode deslanchar enquanto as empresas que se ocupam disso, todas clientes e fornecedoras da Petrobras, estiverem mais preocupadas em se livrar da Lava-Jato e vender ativos.

A própria estatal está cancelando obras e devolvendo sondas, plataformas etc. Estaleiros nacionais e estrangeiros que se instalaram por aqui perdem encomendas, sobram com capacidade ociosa. E não são competitivos no mercado externo porque, protegidos aqui, têm preços maiores e tecnologia menos atual.

Além disso, todo o mercado mundial de petróleo está em retração. Com a queda de preços, companhias pelo mundo todo desistem dos investimentos mais caros e, com isso, sobram equipamentos e navios. Aliás, ficaram mais baratos, o que poderia ser uma oportunidade para a Petrobras — que, entretanto, não pode aproveitá-la por causa da política de comprar máquinas com alto componente nacional.

Não foi só roubalheira — com o perdão desse “só”.

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14/02/2015

às 18:00 \ Vasto Mundo

Daniel Yergin, economista americano, a VEJA: na nova era do petróleo, com preços em queda, estatais como a Petrobras terão que fazer um esforço brutal para serem mais eficientes

(Foto: Dina Rudick/The Boston Globe/Getty Images)

(Foto: Dina Rudick/The Boston Globe/Getty Images)

A NOVA ERA DO PETRÓLEO COMEÇOU

O economista americano diz que o mundo com barril a 100 dólares ficou para trás e que apenas as petrolíferas que levarem a sério o desafio da competitividade vão prosperar

Entrevista a Ana Clara Costa, de Davos, publicada em edição impressa de VEJA

No começo dos anos 2000, esteve em voga a teoria de que as reservas de combustíveis fósseis se esgotariam num futuro próximo. O economista americano Daniel Yergin era um dos mais enfáticos opositores dessa tese. Segundo ele, a tecnologia levaria o homem a descobrir outras formas de explorar reservas de combustíveis fósseis.

Suas previsões se mostraram precisas. Com a exploração das reservas de xisto nos Estados Unidos, aprodução mundial disparou no fim de 2014, fazendo o preço do barril de petróleo recuar para menos de 50 dólares. Essa queda acentuada nos preços – que promete ser duradoura – tem impactos econômicos e geopolíticos ainda difíceis de estimar.

Novamente, Yergin é um dos mais bem equipados para fazer essa análise. Vice-presidente do conselho de uma das maiores consultorias de energia dos Estados Unidos, depois de desenvolver uma carreira acadêmica na Universidade Harvard, ele é autor de dois livraços sobre a história da exploração do petróleo e a procura por novas fontes de energia: Petróleo (Paz e Terra), vencedor do Pulitzer em 1992, e A Busca (Intrínseca), recém-lançado no Brasil.

Começou uma nova era do petróleo“, diz Yergin. “Estatais de energia mundo afora, como a Petrobras, terão de levar muito a sério o desafio da competitividade se quiserem prosperar.” Ele falou à reportagem de VEJA no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Por que o preço do barril de petróleo caiu tanto em tão pouco tempo?

Numa fórmula simples, por causa da lei da oferta e da demanda. produção de óleo e gás de xisto nos Estados Unidos cresceu de maneira inaudita. Ninguém contava que subisse tão rápido, nessa escala surpreendente. Em paralelo, há uma queda na demanda, porque as maiores economias do mundo estão em marcha lenta. Em 2014, a Agência Internacional de Energia reduziu as perspectivas para a demanda cinco vezes.

Somam-se esses dois fatos e temos a redução drástica no valor do barril de petróleo, que deve perdurar porque não se prevê redução da oferta num futuro próximo. Mas o mais interessante nesse movimento é que a política do petróleo também mudou.

Por muitas décadas, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes foram o que chamamos de swing producers, países capazes de definir os níveis de preço do combustível fóssil aumentando ou reduzindo a produção de suas reservas gigantescas. Pois bem, na reunião da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) do fim do ano passado, os árabes anunciaram que não vão mais desempenhar esse papel e que caberá ao mercado encontrar seu ponto de equilíbrio. Fizeram isso porque, se reduzissem aprodução para acompanhar a queda na demanda, criariam uma oportunidade para que países vizinhos como Iraque ou Irã abocanhassem um pedaço do seu mercado.

Com toda a turbulência no Oriente Médio, eles parecem ter concluído que a estratégia de mercado livre atendia melhor aos seus interesses do que deixar a porta aberta para que vizinhos hostis pudessem se aproveitar. Em resumo, mudaram os níveis de produção, mudou a geopolítica. Os Estados Unidos, de certa forma, podem desempenhar o papel de “regulador de preços” que antes era dos países do Golfo. É uma nova era do petróleo.

Se não fosse pelo xisto, quanto o barril poderia custar hoje?

Estima-se que em torno de 150 dólares, em vez dos cerca de 50 hoje vigentes. Teríamos um outro mundo à nossa frente.

O crescimento na produção de xisto nos Estados Unidos é realmente sustentável?

Uma fase importante no desenvolvimento dessa indústria está sendo superada, aquela da regulação. Na maior parte dos estados americanos produtores, a controvérsia amainou. Participei da comissão que o presidente Barack Obama criou para estudar os aspectos ambientais do gás de xisto, que são os mesmos da extração de óleo de xisto. Há questões ambientais que de fato precisam ser tratadas com todo o rigor.

Mas a legislação foi posta de pé, nos planos federal e estadual, e as empresas têm respeitado as normas, porque as multas para irregularidades são altíssimas. A indústria, portanto, está muito mais madura, e só não deve crescer com a mesma velocidade em 2015 porque, como eu disse, os Estados Unidos têm um novo papel na regulação do preço do barril de petróleo e já estão se exercitando nessa área. Em vez de produzirem 1 milhão de barris adicionais por dia, os Estados Unidos vão produzir meio milhão em 2015, pois agora planejam a produção em função dos preços.

Mas os investimentos em tecnologia vão continuar. Eles visam a tornar a perfuração uma atividade menos onerosa. Em tempos de petróleo barato, ganhos de competitividade são fundamentais, e os produtores americanos sabem disso. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

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14/02/2015

às 17:00 \ Vasto Mundo

Como a Venezuela de Chávez e Maduro virou uma máquina de criar pobreza

FRACASSO GARANTIDO — A favela Petare, em Caracas: a pobreza no país aumentou 28% (Foto: Fernando Llano/AP)

FRACASSO GARANTIDO — A favela Petare, em Caracas: a pobreza no país aumentou 28% (Foto: Fernando Llano/AP)

A MÁQUINA DE GERAR POBREZA

Reportagem de Nathalia Watkins publicada em edição impressa de VEJA

Manda a tradição caudilhista que um governo deve dar muitos presentes e subsídios para reduzir a pobreza.

Desde os dois primeiros mandatos de Juan Domingo Perón na Argentina, entre 1946 e 1955, não se via na América Latina uma máquina estatal tão poderosa para distribuir frango, geladeiras e farinha como a Venezuela bolivariana, favorecida pelos petrodólares.

O resultado dessa política, porém, é quase sempre o oposto do que se pretende. Um governo que gasta demais e sem controle acaba produzindo a inflação – o meio mais eficiente para multiplicar os miseráveis.

Segundo estudo divulgado dias atrás pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão da ONU, a Venezuela é o único país da região em que o índice de pobreza (que impossibilita um padrão de vida digno) e o de miséria (quando não se tem dinheiro sequer para comer) aumentaram. O primeiro subiu de 25%, em 2012, para 32%, em 2013. O de miséria foi de 7,1% para 9,8% nesse intervalo.

6,2 salários mínimos para comprar uma cesta básica

A inflação da cesta básica no ano passado foi de 93%. Isso significa que, em doze meses, o preço das mercadorias quase dobrou. Os salários, por sua vez, não aumentaram na mesma proporção. Entre dezembro de 2013 e dezembro de 2014, a diferença no valor da cesta básica foi de três salários mínimos. Atualmente, são necessários 6,2 salários para comprá-la.

Os bons empregos sumiram. O setor produtivo foi destruído desde que Hugo Chávez assumiu o poder, em 1999, com estatizações, expropriações e leis contra a iniciativa privada. As únicas vagas foram criadas pelas estatais, que turbinaram ainda mais os gastos públicos.

Os 30 milhões de habitantes do país hoje dependem de alimentos importados, comprados com os dólares obtidos com a exportação de petróleo. Com a produção e o valor do barril em queda, há desabastecimento, inflação e mais pobreza. “De que adianta ganhar uma casa se não há dinheiro para pôr comida dentro dela?”, diz o economista venezuelano Oscar Meza, diretor do Centro de Documentação e Análise Social (Cendas), em Caracas.

“A realidade é ainda pior do que mostram os dados, porque a Cepal trabalha com as cifras oficiais, as mesmas que o governo tenta esconder. Uma estimativa real de pobreza certamente estaria em torno de 40%”, afirma Meza. Prevendo novos protestos contra a inflação, o governo aprovou uma lei que autoriza as forças de segurança a matar os manifestantes.

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07/02/2015

às 15:00 \ Política & Cia

JOSÉ SERRA em entrevista: Petrobras deve “vender o que dá prejuízo”

José Serra: algum compromisso importantíssimo, e desconhecido, provocou sua ausência na sessão solene de hoje do Congresso. Qual terá sido? (Foto: hojeemdia.com.br)

Serra: Petrobras deveria explorar e produzir… petróleo (Foto: hojeemdia.com.br)

Senador tucano critica excesso de “diversificação” feita pela companhia; no Senado, quer campanha oficial antidrogas obrigatória

Entrevista a Débora Bergamasco publicada no jornal O Estado de S. Paulo

Recém-empossado no Senado, José Serra (PSDB-SP) afirmou ontem que a Petrobras precisa “vender, conceder ou extinguir” ativos que hoje dão prejuízo e áreas que fogem da prospecção e exploração de petróleo, principal atividade da estatal. “Diversificou demais e foi muito além do necessário”, justificou o tucano.

Nesse retorno a Brasília, Serra se prepara para cobrar a equipe econômica do governo e listou como uma das prioridades do mandato propor uma lei que obrigue o governo a fazer propaganda contra as drogas.

Para o tucano, criou-se um tabu “no PT e na esquerda” de que se deve ter postura “frouxa” sobre o tema. “No meu tempo de UNE (Serra foi presidente da União Nacional dos Estudantes em 1964), que era o que havia de mais esquerdista na época, fumar maconha era coisa de alienado.”

A condução da Petrobras vem sendo muito criticada, especialmente pela oposição. Que mudanças deveriam ocorrer?

A Petrobras tem que ser refundada. Mudar radicalmente os métodos de gestão, profissionalizar diretoria, conselho administrativo e rever as tarefas que exerce. Sua função essencial é explorar e produzir petróleo. No Brasil, a Petrobras diversificou demais e foi muito além do necessário, acabou se lançando em negócios megalomaníacos e ruinosos.

Hoje, ela atua na distribuição de combustíveis no varejo, nas áreas de petroquímica, fertilizante, refinaria, meteu-se em ser sócia de empresa para fabricar plataformas e investiu até em etanol, justamente quando a política de contenção de preços da gasolina arruinava o setor. O que dá prejuízo precisa ser enxugado.

Enxugado como? Vendido?

Vendido, concedido ou extinto. E tem que começar pela revisão do modelo do pré-sal: retirar a obrigatoriedade de a empresa estar presente em todos os poços, ser a operadora única dos consórcios e ter que suportar os custos mais altos da política de conteúdo nacional. Não se trata apenas de contabilidade, a empresa tem que ter vigor, porque o petróleo continuará por muito tempo sendo uma grande mercadoria.

O mais fenomenal é que, quando a energia estava cara lá fora, aqui foi mantida artificialmente barata para segurar a inflação e ajudar a reeleição da presidente, desestruturando o setor de petróleo e de etanol. Agora que ficou barata lá fora, é mantida cara aqui, prejudicando o PIB, dificultando a queda dos preços e tirando competitividade das empresas.

O sr. vai apresentar um projeto para limitar o endividamento da União. A mudança mexeria na forma como o governo dá transparência aos gastos, especialmente na política econômica?

Claro. Quando você tem que fazer limites para a dívida – tanto líquida quanto bruta -, isso implica transparência total. Implica a transparência que o Banco Central tem que dar em suas operações na área monetária. A política de juros, por exemplo, pode gerar endividamento.

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03/02/2015

às 15:00 \ Política & Cia

GABEIRA: Dilma, na sua fase Greta Garbo, acabou no Planalto Central

(Foto: Paulo Novaes/EFE)

Dilma Garbo: se esconder atrás dos óculos escuros para não explicar seu plano econômico (Foto: Paulo Novaes/EFE)

GRETA GARBO, QUEM DIRIA…

Artigo de Fernando Gabeira publicado no jornal O Estado de S. Paulo

Fernando Gabeira O GloboNa última semana fui a Santa Catarina para documentário sobre a morte do surfista Ricardo dos Santos, foi assassinado com dois tiros nas costas por um soldado da PM embriagado. Constatei que o soldado respondeu a quatro inquéritos, um por tortura. O Ministério Público pediu sua retirada das ruas.

Ele não só continuava trabalhando normalmente, como usava a arma oficial, uma ponto 40. Tentei falar com o governador Raimundo Colombo e com o comandante da PM, eles se esquivaram. Não foram ao enterro, não viram a família, só se eclipsaram.

Por que as pessoas do governo não dão as caras nessas circunstâncias? Ao fazer essa pergunta, lembrei-me de Dilma, que também se refugiou no Palácio do Planalto e não apareceu para falar francamente das medidas econômicas e da crise hídrica que já atinge 45 milhões de brasileiros. Nem mesmo para nos consolar pela situação energética (é uma especialista) e dizer quais são os rumos do País nesse campo.

Dilma, na sua fase Greta Garbo, quem diria, acabou no Planalto Central.

Não me estou referindo a essas aparições programadas, com blindagem à prova de perguntas elementares. Com os ministros, foi como se aparecesse de chapéu e óculos escuros, se escondendo. Era preciso não apresentar como sua a nova política econômica. Era preciso explicar por que não a mencionou na campanha. Ao contrário, atribuiu as medidas de austeridade aos adversários, caracterizando-as como um saco de maldades.

Sabe-se ainda que o governo pretendia mudar as regras de seguro-desemprego e pensões de viúvas antes das eleições. Mas não teve coragem de mencioná-las. De novo, atribuiu aos adversários conservadores e neoliberais que não gostam dos pobres.

Ainda na Guarda do Embaú, no pé da Serra do Tabuleiro, navegando no Rio da Madre, tentei me colocar a pergunta essencial para mim: por que a esfera da política se descolou da sociedade e os governantes não se sentem responsáveis em reconhecer erros, apontar rumos?

À noite vi pela TV o ministro de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri, numa mesa-redonda em Davos defender a política de Dilma. Segundo ele, o país retomou o caminho do meio, entre consumo e investimento, é um movimento normal. O que acontece, na verdade, é o fracasso de uma política econômica que, em certos casos, como o da energia, estimulou o aumento de consumo de forma equivocada, econômica e socialmente.

É no processo eleitoral que encontramos algumas respostas para o descolamento da esfera do governo, permitindo que a presidente paire no limbo dos corredores do palácio enquanto o País espera respostas urgentes. Numa campanha comandada pelo marketing, o governo criou uma novela de quinta categoria em que a heroína, Coração Valente, enfrentava banqueiros que tiravam a comida da mesa dos pobres.

Em 2018, criam outro script e, assim, esperam, vencem as eleições de novo. A propósito: o roteirista que imaginou Lula vestido de laranja na frente da Petrobras deveria ser mandado para a Sibéria.

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02/02/2015

às 15:00 \ Vasto Mundo

A guerra pelo Ártico — ou melhor, pela colossal reserva de petróleo que há ali

O aquecimento global derreteu o oceano polar e abriu rotas marítimas (Foto: Corbis/Latinstock)

O aquecimento global derreteu o oceano polar e abriu rotas marítimas (Foto: Corbis/Latinstock)

O derretimento do mar congelado do Polo Norte tornou acessível uma área que concentra 13% do petróleo não explorado do mundo. Quatro países já disputam a região

Reportagem de Raquel Beer publicada em edição impressa de VEJA

O Ártico é, disparado, a região mais afetada pelo aquecimento global. Enquanto a temperatura do planeta se elevou 0,5 grau desde 1980, com transformações radicais no clima, no Polo Norte o aumento foi de 1,6 grau. O efeito direto foi o derretimento de 30% do oceano de superfície congelada que se espalha pelo território.

Além de destruírem o bioma, que corre o risco de se transformar em uma imensa floresta (atalho para a extinção de espécies endêmicas, como o urso-polar), as mudanças climáticas ainda tiveram como consequência o surgimento de um conflito entre quatro países que pode provocar sérias disputas políticas, ou até bélicas.

O motivo por trás de tamanho interesse pelo Ártico é, como de costume, financeiro. O derretimento do mar levou à abertura de novas rotas marítimas, antes intransponíveis, e de áreas ricas em gás natural e petróleo. O que fez com que Estados Unidos, Rússia, Canadá e Dinamarca reivindicassem como seus territórios considerados até agora neutros, de águas internacionais. A tensão aumenta por compartilharem o interesse pelas mesmas regiões.

Algumas nações já têm um pedaço do oceano polar para chamar de seu. A Convenção de Direito do Mar, criada em 1982 pela ONU, estabelece que cada país tem direito à exploração dos recursos marítimos presentes em uma faixa de 370 quilômetros a partir de sua costa, as chamadas zonas econômicas exclusivas (ZEEs). A regra se aplica ao Ártico, que faz fronteira com cinco países: Estados Unidos (pelo Alasca, território americano), Canadá, Rússia, Noruega e Dinamarca (graças à Groenlândia).

Estabelecidas as ZEEs, porém, restaram 3 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a 25% do oceano polar, que viraram águas internacionais, não pertencentes a governos. E é para essa parcela que estão voltados os olhos. Estima-se que lá estejam 30% do gás natural e 13% das reservas de petróleo ainda não descobertas no mundo.

Diante de um iminente conflito, a Rússia reforçou suas tropas no território em disputa (Foto: Zumapress.com/Glow Images)

Diante de um iminente conflito, a Rússia reforçou suas tropas no território em disputa (Foto: Zumapress.com/Glow Images)

O conflito se intensificou no último ano, quando a ONU aprovou a concessão para a Rússia de um território, antes neutro, de 52 000 quilômetros quadrados no Mar de Okhotsk.

A ofensiva russa despertou temor nos outros países com influência no Ártico, e em dezembro passado a Dinamarca submeteu à ONU um documento reivindicando uma área de 895 000 quilômetros quadrados – mais de vinte vezes maior do que a própria Dinamarca. O argumento é que a Groenlândia estaria conectada a uma área embaixo do Polo Norte por uma crosta continental submarina. Na sequência, Estados Unidos e Canadá avisaram que também pediriam sua fatia.

(CLIQUEM NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA) (Arte: VEJA)

(CLIQUEM NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA) (Arte: VEJA)

Conhecido pelo gosto por conflitos, o presidente russo Vladimir Putin rapidamente adotou manobras perigosas: reativou uma base militar que datava da época soviética, enviou navios militares e drones e estabeleceu mais tropas no Polo Norte. Com isso, levantaram-se os alicerces para o palco de uma possível guerra (se não bélica, política), que pode, inclusive, prejudicar ainda mais o habitat.

Ambientalistas advertem que a exploração comercial e militar pode acelerar a destruição da fauna e da flora do Ártico.

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01/02/2015

às 10:00 \ Vasto Mundo

Um dos maiores criminalistas americanos diz que a Petrobras nos EUA vai enfrentar Justiça implacável

(Foto: Gilberto Tadday)

Robert Luskin, criminalista americano: Petrobras pode ser punida nos Estados Unidos (Foto: Gilberto Tadday)

LÁ A JUSTIÇA É IMPLACÁVEL

Um dos maiores criminalistas dos Estados Unidos afirma que as investigações do petrolão em seu país serão profundas e podem levar a uma severa punição de empresas brasileiras

Entrevista a Malu Gaspar publicada em edição impressa de VEJA

O criminalista Robert Luskin é um personagem típico de Washington: integrante do primeiro time da advocacia americana, circula entre republicanos e democratas com a mesma desenvoltura e conhece como poucos os meandros da burocracia governamental.

Mas, apesar de ter ganho notoriedade defendendo clientes famosos – Karl Rove, ex-assessor do presidente George W. Bush acusado de divulgar informações contra uma agente da CIA, e o ciclista Lance Armstrong, alvo de um escândalo de doping -, sua maior especialidade é a lei que pune corporações internacionais por pagar propina para obter contratos, o Foreign Corrupt Practices Act.

Além de dar aulas sobre o tema na Universidade de Georgetown, em Washington, Luskin, 64 anos, ex-promotor formado em Harvard, já defendeu dezenas de multinacionais em inquéritos do gênero. Nesta entrevista a VEJA, ele informa que as investigações sobre o petrolão nos Estados Unidos vão desvendar toda a extensão do esquema. Até empresas que não atuam lá, entre elas algumas das empreiteiras, poderão ser alcançadas pelas pesadas punições estabelecidas pela lei americana.

As investigações sobre o escândalo da Petrobras nos Estados Unidos podem atingir empresas brasileiras que pagaram propina para obter contratos?

É bem possível. Os Estados Unidos interpretam a lei de forma bastante abrangente. Se a empresa contraiu um empréstimo aqui, se alguma transação financeira foi intermediada por instituições bancárias americanas ou um dos envolvidos é americano, o governo pode decidir entrar no caso.

Foi o que ocorreu com a petroleira francesa Total, investigada por ter pago milhões em propinas a um funcionário público no Irã. Não havia praticamente nada que ligasse a história aos americanos, mas um único pagamento, justamente o primeiro, de 500 000 dólares, foi feito a partir de uma conta bancária nos Estados Unidos. O governo passou a investigar o escândalo, e a Total foi multada em 398 milhões de dólares.

A empresa até poderia ter enfrentado o governo em um processo judicial alegando falta de legitimidade, mas preferiu selar o acordo porque, se perdesse, o custo seria bem mais alto do que a multa.

No caso Petrobras, a quanto podem chegar as multas?

Não se pode dizer antes que se saiba exatamente em que projetos houve negociata, quanto de propina foi pago e qual o ganho obtido. É a partir desses dados que se calculam não apenas a multa mas também eventuais penas de prisão. Para chegar a um número, o Departamento de Justiça e a Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão fiscalizador do mercado americano) vão se juntar e aprofundar a investigação.

Foi esse o procedimento no caso da Alstom. A apuração começou por um episódio ocorrido na Indonésia e foi ganhando vulto à medida que avançava. A multa à multinacional francesa foi de 772 milhões de dólares. A mesma força-tarefa vai ser acionada no escândalo Petrobras. No final, acho muito provável que as empresas brasileiras envolvidas façam acordo e aceitem encerrar o caso pagando a multa. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

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01/02/2015

às 6:00 \ Disseram

Nada faltará à Venezuela?

“Deus proverá. Jamais faltará à Venezuela.”

Nicolás Maduro, presidente venezuelano, referindo-se à queda nos preços do petróleo — cuja venda representa quase 100% das divisas do país —, em discurso de prestação de contas à nação, transmitido pela TV

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17/01/2015

às 20:00 \ Vasto Mundo

A Groenlândia comemora o aquecimento global: na ilha gelada há agora mais terras verdes, melhor agricultura, mais rebanhos, até carne bovina e… mais dinheiro

(Foto: DeAgostini/Getty Images)

Com temperaturas menos baixas, também a pesca na Groenlândia é favorecida e a economia nacional agradece (Foto: DeAgostini/Getty Images)

QUANTO MAIS QUENTE, MELHOR

Os moradores da gélida Groenlândia e de outras regiões do Ártico comemoram o aquecimento global, que em altas latitudes beneficia a agricultura, a mineração e a pesca

Reportagem de Paula Pauli publicada em edição impressa de VEJA

O viking Eric, o Vermelho, não era dado a sutilezas. Banido da Islândia por assassinato, acabou iniciando a colonização, no ano de 982, de uma gigantesca ilha povoada por esquimós do tamanho dos Estados do Amazonas e da Bahia juntos [quase 2,2 milhões de quilômetros]. Não foi por ironia que ele deu ao lugar o nome de Grønland (“terra verde”, nas línguas escandinavas), mas para se contrapor à origem gélida da palavra Islândia, de onde esperava atrair colonos.

Táticas milenares de marketing à parte, a Groenlândia tinha mesmo, naquele tempo, um clima mais convidativo do que hoje, quando 80% de sua área é permanentemente coberta por gelo. A civilização viking estabelecida por Eric na maior ilha do mundo entrou em declínio no século XIV por vários motivos, entre eles o esfriamento do clima por causas naturais.

Seiscentos anos depois, o fenômeno inverso, agora provocado pela ação humana, está dando à paisagem da Groenlândia um novo motivo para fazer jus ao nome. A ilha, que no século XVIII se tornou uma colônia da Dinamarca e hoje é uma região autônoma do país nórdico, constitui uma prova de que o aquecimento global não tem apenas efeitos apocalípticos.

O aumento da temperatura ampliou em três semanas por ano o período de cultivo nas terras livres de gelo, e no último verão no Hemisfério Norte, em meados de 2014, as prateleiras dos supermercados em Nuuk, a capital, ficaram repletas de brócolis, morangos e repolhos cultivados nas hortas da ilha, algo inimaginável até recentemente.

Com grama verde por mais tempo, o rebanho de ovelhas cresceu de 15 000 para 20 000 cabeças nos últimos vinte anos. Pela primeira vez desde os tempos de Eric, o Vermelho, está-se criando gado bovino para corte e para leite. “As pessoas estão plantando batatas ao ar livre. Temos bife da Groenlândia, e o último verão foi um dos poucos em que os pescadores encontraram atum”, diz Hans Lichtenberg, morador de Nuuk. Os benefícios do aquecimento global tornaram-se um dos assuntos preferidos dos 57 000 habitantes da ilha.

Entre as novas oportunidades está a exploração das riquezas do subsolo, facilitada pela retração na cobertura de gelo. O governo local já distribuiu 150 licenças a mineradoras e petrolíferas. Dez anos atrás, havia somente vinte.

Calcula-se que um oitavo de todo o petróleo não explorado do mundo e talvez um quarto do gás natural estejam no Ártico, no qual se situa boa parte do território da Groenlândia. Em um futuro próximo, a mineração de carvão, ouro, ferro e diamante pode se transformar na principal atividade econômica, suplantando a pesca.

As perspectivas são tão boas que a Dinamarca anda namorando o quintal da antes subestimada colônia e, no mês passado, comunicou às Nações Unidas que se considera dona de 900 000 quilômetros quadrados de mar no Ártico, o que pode gerar atritos com a Rússia do incansável brigão Vladimir Putin, com reivindicações conflitantes.

Também no Ártico, o derretimento do gelo abriu uma nova rota para navios entre os oceanos Atlântico e Pacífico. O novo percurso tem um terço da distância dos tradicionais, que passam pelos canais de Suez ou do Panamá. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

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