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Dilma Rousseff

04/03/2015

às 18:03 \ Política & Cia

ELIO GASPARI: Se Dilma e Levy não se acertarem, 200 milhões de brasileiros é que pagarão a conta

(Foto: AP)

Levy e Dilma: opostos, mas ambos perderão se não atingirem um equilíbrio (Foto: AP)

A DUPLA DILMA-LEVY

Artigo publicado no jornal O Globo

elio gaspariO ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ri demais e fala demais. A doutora Dilma zanga-se demais e fala de menos. Levy ainda não completou 90 dias no cargo e já se viu na constrangedora situação de reverter uma afirmação depois de ser publicamente repreendido pela chefe.

O pior é que ambos tinham razão: a amplitude das desonerações tributárias foi uma “brincadeira” e sua expressão foi “infeliz”. Noutra ocasião Levy foi levado a uma acrobacia semântica, esclarecendo que a economia não sofrerá uma “recessão”, mas uma “contração”.

(Em qualquer época, o Planalto tem horror a essa palavra. Em 1974 a censura baixou uma ordem tornando “terminantemente proibidas” quaisquer referências “relativas a recessão econômica, ainda que hipotéticas”)

Até hoje se pode ouvir a gargalhada de Mário Henrique Simonsen ao saber dessa proibição.

As situações em que Levy se atrapalhou são despiciendas porque ainda não refletem grandes diferenças de fundo. Se a doutora quiser que ele cante tangos numa Unidade de Terapia Intensiva, quem pagará a conta serão os brasileiros. Nos últimos 50 anos, presidentes e ministros da Economia dançaram a mesma música em apenas quatro ocasiões, com as duplas Lula-Palocci, FH-Malan, Médici-Delfim e Castello Branco-Roberto Campos. O preço dos desarranjos e dos ministros-fantasmas foi a maior crise econômica da história do país.

Se o comissariado e o doutor Levy ficarem num jogo de gato e rato, ambos perderão. Entre as atribuições do ministro da Fazenda está a de animador de auditório. Alguns titulares, como Guido Mantega, tiveram desempenhos patéticos. Outros, como Pedro Malan, funcionaram como maestros, regendo charangas de sábios. Levy mostrou que é um mau animador. Ora exagera no economês, ora escorrega num coloquialismo de banqueiro bem-humorado.

Tudo isso não tem grande importância diante das dificuldades das contas nacionais e do esforço que será necessário para recolocá-las nos trilhos. Enquanto Lula deu mão forte a Antonio Palocci, seu governo teve rumo na economia. A situação de Levy é outra. O compromisso da doutora com sua agenda é uma dúvida. O do comissariado petista é quase uma certeza negativa.

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04/03/2015

às 16:06 \ Política & Cia

Supremo extingue a pena do mensaleiro Genoino. Ele foi beneficiado pelo indulto de Natal de Dilma

O ex-deputado José Genoino: livre, leve e solto (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

O ex-deputado José Genoino: livre, leve e solto (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

Ministros consideraram que o ex-presidente do PT já cumpriu os requisitos que permitem que seja beneficiado pelo indulto de Natal assinado por Dilma

Por Laryssa Borges, de Brasília, para VEJA.com

O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira por unanimidade extinguir a pena do ex-presidente do PT José Genoino, condenado por corrupção ativa no julgamento do mensalão. Os ministros consideraram que o mensaleiro petista já cumpriu os requisitos que permitem que seja beneficiado pelas regras previstas no decreto de indulto natalino assinado pela presidente Dilma Rousseff em 2014.

Genoino começou a cumprir em novembro de 2013 os quatro anos e oito meses a que foi condenado pelo STF e pagou multa de cerca de 670.000 reais em janeiro de 2014, após uma vaquinha organizada por correligionários.

Atualmente Genoino cumpre prisão domiciliar por ter conseguido abater parte da pena e cumprido o mínimo de um sexto da reclusão, o que garantiu a ele o direito a progressão de regime do semiaberto para o aberto. Como o Distrito Federal não tem casas de albergado, estabelecimento previsto em lei para abrigar condenados em regime aberto, o ex-presidente do PT recebeu o direito de permanecer em prisão domiciliar.

O indulto assinado pela presidente Dilma Rousseff, usualmente confundido com a saída temporária de Natal, é um benefício que avalia um conjunto de exigências para perdoar definitivamente as penas de parte da população carcerária. De acordo com o Tribunal de Justiça do DF, o indulto normalmente é concedido a detentos com bom comportamento, paraplégicos, tetraplégicos, portadores de cegueira completa, mães de filhos menores de 14 anos e àqueles que tenham cumprido parte da pena em regime fechado ou semiaberto.

Em geral, para a concessão dos indultos são examinados a gravidade do crime, se houve ou não violência cometida e o cumprimento parcial da pena.

No pedido de indulto, José Genoino informou que teve bom comportamento quando cumpria pena em regime semiaberto e também quando foi autorizado a terminar o restante da sentença em prisão domiciliar. Ele afirmou ainda que o abatimento de 34 dias da pena por trabalho e estudo permitiria a ele se enquadrar nos beneficiários do perdão judicial.

O decreto de indulto assinado pela presidente Dilma em 2014 prevê o benefício, entre outros casos, para detentos que tenham cumprido um quarto da pena e que estejam em regime aberto e para condenados que estivessem cumprindo pena em regime aberto ou prisão domiciliar, desde que faltasse até oito anos para o cumprimento da pena total.

“Todos os casos associados à execução na ação penal 470 [mensalão], tenho decidido monocraticamente. Como foi um julgamento emblemático e é o primeiro caso de extinção de punibilidade, em parte pelo cumprimento da pena, pelo pagamento da multa e por força do indulto, reconhecendo a validade do indulto e a extinção da punibilidade da pena, resolvi trazer a apreciação do Plenário”, disse o relator do mensalão Luís Roberto Barroso ao justificar o fato de ter levado o caso para apreciação de todos os ministros do STF.

04/03/2015

às 14:37 \ Política & Cia

VÍDEO: Senador Aloysio Nunes diz que Dilma é “refém” do ministro da Fazenda, Joaquim Levy

Em discurso no plenário, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) chamou a atenção para o fato esdrúxulo de o governo ter um ministro da Fazenda “sem o respaldo explícito da presidente da República”. Ao mesmo tempo, lembrou que, paradoxalmente, o ministro Joaquim Levy é a “última esperança” de manter a imagem do Brasil frente aos credores.

Sendo assim, o ministro mantém, ao mesmo tempo, a condição de alguém que não recebe o apoio que deveria da presidente, mas que a presidente, mesmo se quisesse, não poderia demitir:

– Se [Dilma] tira o ministro Levy, imediatamente vem o rebaixamento dos títulos da dívida pública — afirmou o senador.

04/03/2015

às 6:00 \ Disseram

O governo já poderia ter caído

“Se o regime fosse parlamentarista, o governo já tinha caído, porque perdeu a confiança. No presidencialismo, um impeachment é extremamente traumático.”

Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, ao afirmar que não vê motivos para o impeachment da presidente Dilma Rousseff no momento

02/03/2015

às 18:55 \ Política & Cia

Oposição quer levar Dirceu, Cardozo e Vaccari à CPI do petrolão

(Foto: Renato Costa/Folhapress)

CPI da Petrobras começa a se movimentar: requerimentos para João Vaccari Neto e José Dirceu, entre outros (Foto: Renato Costa/Folhapress)

Na semana em que a lista de políticos citados no petrolão será finalmente conhecida, colegiado começa a se agitar: já são mais de 200 requerimentos

Por Marcela Mattos e Gabriel Castro, de Brasília, para VEJA.com

Na semana em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vai enviar ao Supremo Tribunal Federal os pedidos de investigação contra políticos citados no petrolão, a CPI da Petrobras começa a se movimentar.

Nesta segunda-feira deputados de oposição começaram a protocolar uma lista de pedidos de audiência com autoridades e executivos. Figuram entre os requerimentos os nomes do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, do tesoureiro da campanha da presidente Dilma Rousseff, Edinho Silva, além dos mensaleiros Delúbio Soares e José Dirceu. Todas essas propostas de oitiva foram apresentadas em formato de convocação – ou seja, se aprovadas, os depoentes serão obrigados a comparecer à comissão.

Até a tarde desta segunda, foram protocolados mais de 240 requerimentos à secretaria da comissão de inquérito. A próxima reunião do colegiado será na próxima quinta, quando será apresentado o plano de trabalho pelo relator, o petista Luiz Sérgio (PT-RJ), e os requerimentos já podem ser votados.

A deputada Eliziane Gama (PPS-MA) quer que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu seja convocado para explicar sua menção como um dos beneficiários do esquema. Além de ter prestado consultoria para empreiteiras envolvidas no petrolão, ele é citado pelo doleiro Alberto Youssef como um dos favorecidos pelo pagamento de propina. O líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP), também pediu a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico de Dirceu nos últimos dez anos.

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) pediu convocação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Como VEJA revelou, ele se encontrou com o advogado da empreiteira UTC, Sérgio Renault, e assegurou que haveria uma reviravolta nas investigações.

Há ainda requerimentos de convocação da presidente da Caixa, Miriam Belchior, e de Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como lobista do PMDB no esquema. Na lista, estão também os empreiteiros e executivos presos na operação Lava Jato, delatores do esquema como o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Yousseff, e figuras como o ex-diretor internacional da Petrobras, Nestor Cerveró.

Os oposicionistas pediram também a convocação de três ex-presidentes da Petrobras: José Eduardo Dutra, José Sérgio Gabrielli e Graça Foster.

O primeiro requerimento protocolado, de autoria do PSDB, pede que sejam criadas três sub-relatorias dentro da CPI: uma de sistematização, uma para gerenciar a parte operacional e outra para lidar com o núcleo político do esquema.

Estratégia petista

Embora a maioria dos pedidos tenha sido feita por parlamentares de oposição, o PT também apresentou requerimentos nesta segunda – mas, como esperado, não pediu a audiência de nenhum nome diretamente ligado ao partido. A ação segue estratégia de tentar vincular os escândalos de corrupção na estatal aos executivos e empresários, blindando a cúpula da legenda no esquema que sangrou os cofres da Petrobras.

Com documentos assinados pelo deputado Afonso Florence (PT-BA), o partido pediu a audiência – mas apenas por meio de convite, quando a presença não é obrigatória – dos ex-presidentes José Sérgio Gabrielli e Graça Foster, e também do atual chefe da Petrobras, Aldemir Bendine. Por outro lado, Florence quer a convocação do ex-gerente da estatal Pedro Barusco e do ex-diretor Renato Duque.

Em outra frente para blindar o partido, o PT também trabalha para ampliar o escopo das investigações para o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso. Requerimento de Afonso Florente pede que a comissão faça uma devassa nos contratos da estatal firmados a partir de 1997. O plano original da CPI prevê apenas a apuração entre 2005 e 2015 – ou seja, nos governo Lula e Dilma, quando o assalto aos cofres da estatal foi institucionalizado.

01/03/2015

às 20:00 \ Política & Cia

BRICKMANN: Quem quer o confronto sempre perde

(Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Em ato pela Petrobras, Lula pediu paz mas falou do “exército” de Stedile (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

ARMAI-VOS UNS AOS OUTROS

Notas da coluna de Carlos Brickmann publicadas em diversos jornais neste domingo

Carlos BrickmannNa lanchonete de um grande hospital, um ex-ministro petista é insultado a gritos e acaba tendo de se retirar. No Rio, onde se realizava um ato governista, um senhor de cabelos brancos, com camiseta pró-impeachment, é agredido a pontapés por manifestantes petistas. E os líderes partidários acirram as tensões.

Palavra de Lula: “Quero paz e democracia, mas também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stedile colocar o exército dele nas ruas”. Frase perigosa – no dia 15, estão marcadas manifestações contra Dilma. Será levado para a política o clima das torcidas organizadas, que marcam brigas pela Internet?

Certas coisas ficaram claras com a declaração de Lula: o MST, como sempre disseram seus adversários, não é um movimento autônomo, mas tropa auxiliar do PT; e os sem-terra não são sem-terra, mas soldados do exército de João Pedro Stedile, comandante do MST, que pode ir às ruas a chamado de Lula. Tanto os radicais que agrediram verbalmente um ex-ministro (que sempre se comportou civilizadamente) quanto Lula, é este o futuro que desejam para o Brasil?

E vamos parar de besteiras, cavalheiros, a respeito da força de cada lado. Em 1964, havia Generais do Povo (um deles, o marechal Osvino Alves, era presidente da Petrobras), havia as Ligas Camponesas de Francisco Julião, havia os Grupos dos Onze de Leonel Brizola, havia os marinheiros amotinados, e era tudo fumaça. O governo caiu sem resistência. Perderam todos, de ambos os lados.

A hora é de calma. Ninguém deve ser Tiradentes com o pescoço dos outros. 

O ganha-perde

Dos três líderes civis do movimento vitorioso contra Jango, dois foram cassados, Lacerda e Adhemar, e um, Magalhães Pinto, que sonhava ser presidente, teve de contentar-se em ser chanceler (mais tarde, perderia até seu banco). O militar que iniciou a revolta, general Mourão Filho, foi encostado.

Do lado do governo, quem mais pedia luta não chegou a lutar: muitos foram exilados, inúmeros presos, muitos torturados, vários assassinados. O líder dos marinheiros amotinados, Cabo Anselmo, jogou dos dois lados. E nada ganhou de nenhum deles. Vive na clandestinidade, é malvisto, nem fortuna amealhou. 

Quem quer o confronto sempre perde. Vence quem não estava na briga. 

Mais longe, tão perto

Alguns dos movimentos de rua mais sanguinários, como os camisas pardas nazistas e os camisas negras fascistas, nasceram do recrutamento de marginais pagos. Depois reuniram oportunistas e prepotentes. Quem os comparar com esse pessoal que recebe 50 reais, sanduíche e tubaína, estará certo. Cuidado com eles.

01/03/2015

às 15:00 \ Política & Cia

MAÍLSON DA NÓBREGA: A menos que apareçam novos fatos, não é uma boa ideia procurar o impeachment de Dilma

(Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

Dilma está perdendo popularidade e tem escândalos de sobra, mas continua com maioria no Congresso (Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

SOBRE O IMPEACHMENT

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Conversas e especulações sobre um eventual impeachment de Dilma aumentaram com a forte queda de sua popularidade, que se explica pelos desastres derivados de má gestão. Sobressaem o escândalo na Petrobras,o risco de racionamento de energia e os maus resultados na economia.

Apesar disso, a menos que novos fatos venham a justificá-la, não parece boa a ideia de buscar a interrupção de seu mandato.

Em estudo de 2006, Kathryn Hochstetler examinou as tentativas de interrupção do mandato de presidentes eleitos na América do Sul após a redemocratização das décadas de 70 e 80 (Rethinking presidentialism: challenges and presidential falls in South America). Até 2003, dezesseis presidentes enfrentaram tentativas de impeachment e nove deixaram governo antes do fim do mandato. Apenas um impeachment se concretizou, o do brasileiro Fernando Collor. Os demais fracassaram por outros motivos.

A autora lista três fatores que motivaram tentativas de impeachment na região: 1) insatisfação com a política econômica, 2) acusações de corrupção e 3) governo minoritário no Congresso. Adicionalmente, os protestos de rua representam um forte determinante. Na ausência de um desses fatores ou de movimentos de rua, os presidentes concluíram mandato.

Foi assim no Brasil nas tentativas de impeachment de Getúlio Vargas e Fernando Henrique. O caso de Vargas (1954) teve por motivação atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, que resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz. O mandante do delito, Gregório Fortunato, era chefe da guarda pessoal de Vargas. O pedido de impeachment foi apresentado pelo deputado Afonso Arinos, mas Vargas era majoritário no Congresso. A proposta foi rejeitada por 136 votos a 35.

No caso de Fernando Henrique (1999), a iniciativa foi do PT, no início do segundo mandato do presidente. FHC enfrentava queda de popularidade com a desvalorização da moeda, que durante a campanha pela reeleição ele prometera não realizar. O PT mobilizou protestos de rua sob o lema “Fora FHC!”. Os movimentos, porém, não se encorparam. Havia insatisfação com a política econômica, mas inexistiam escândalos. governo não era minoritário. Não houve processo de impeachment.

No escândalo do mensalão (2005), falou-se em impeachment de Lula, mas a oposição temeu a interrupção do mandato de um líder tão popular. Preferiu apostar numa agonia lenta, que acarretaria a derrota nas eleições do ano seguinte. Acontece que a expansão da economia, do emprego e da renda contribuiu para a recuperação da popularidade de Lula. O impeach­ment abortou.

Há quem, na oposição, se lembre do caso para defender a tese de que agora não se deveria contemporizar. A contínua deterioração da economia e os desdobramentos do petrolão disparariam protestos. Caberia à oposição atiçar os movimentos de rua que já se esboçam, desgastar a presidente mediante ações no Congresso e, assim, criar o ambiente para instaurar o processo.

O impeachment é um recurso legítimo e constitucionalmente válido para descontinuar más administrações. É um processo político. Não requer prova inequívoca, típica dos casos que envolvem crime. Indicações de que o dinheiro da corrupção na Petrobras serviu para financiar a campanha eleitoral de Dilma bastariam.

Ocorre que buscar o impeachment poderia não ser a estratégia mais conveniente. Mesmo que protestos de rua acontecessem em escala crescente, o governo ainda reuniria condições para manter a maioria no Congresso.

Embora improvável de acontecer, no decorrer do seu mandato normal a presidente ainda tem a oportunidade de reconhecer erros, reformular políticas, desenvolver habilidades no exercício do novo governo e melhorar a qualidade de sua equipe, recuperando a confiança na sua administração e na economia.

A eventual interrupção do mandato presidencial eliminaria as chances de reversão, pela própria Dilma, dos erros cometidos no primeiro governo. Permitiria, além disso, que os petistas utilizassem o processo de impeachment para posar de vítimas das elites, acusando-as de liderar um golpe contra o PT. Não se aproveitaria também o efeito pedagógico do julgamento de um fracasso pelos eleitores nas urnas.

28/02/2015

às 0:00 \ Disseram

O que esperar de 2015

“Este ano vai ser o das manifestações da direita, pedindo o impeachment da Dilma e o fim da corrupção.”

Luiz Eduardo Oliveira, manifestante agredido por petistas no ato em frente à Associação Brasileira de Imprensa na última terça-feira

26/02/2015

às 19:50 \ Política & Cia

Crise na Ucrânia pode resultar em calote de 2 bilhões de reais ao Brasil

NO FRONT — Poroshenko vistoria o cumprimento do cessar-fogo no leste ucraniano, na semana passada: carta para Dilma, sem resposta (Foto: Mykhailo Palinchak/Reuters)

NO FRONT — Poroshenko vistoria o cumprimento do cessar-fogo no leste ucraniano, na semana passada: carta para Dilma, sem resposta (Foto: Mykhailo Palinchak/Reuters)

UM CALOTE ESPACIAL

Ao interromper um projeto de lançamento de satélites com a Ucrânia, o Brasil pode ter um prejuízo de 2 bilhões de reais

Reportagem de Leonardo Coutinho publicada em edição impressa de VEJA

Em 2003, o então presidente Lula criou, em parceria com a Ucrânia, a empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), para a construção de uma nova geração de foguetes e de uma base de lançamento em Alcântara, no Maranhão. O acordo previa para 2006 a estreia do país no bilionário mercado de satélites.

A Ucrânia se comprometeu a arcar sozinha com a produção do foguete, e os custos das obras civis seriam divididos por igual entre os dois países. A base, porém, só começou a sair do papel cinco anos depois da data prevista para a inauguração. E, em março de 2013, as obras foram paralisadas por falta de pagamento. A ACS deve 96 milhões de reais às empreiteiras.

A Ucrânia acusa o Brasil de ter parado de investir no projeto, que já consumiu o equivalente a 2,6 bilhões de reais dos cofres públicos de ambos os países. Em 2013, dos 546 milhões de reais prometidos pelo Brasil, apenas 12% foram efetivamente transferidos para a ACS. No ano passado, o repasse representou só 3% dos 431 milhões de reais previstos.

Há duas semanas, o presidente da Agência Espacial Estatal da Ucrânia, Oleh Uruskyi, enviou ao ministro Aldo Rebelo, da Ciência e Tecnologia, uma carta afirmando que, como o Brasil deixou de cumprir com suas obrigações, seu país pagou 50,1 milhões de dólares – cerca de 144 milhões de reais – às construtoras, como um esforço derradeiro para salvar o projeto.

Kiev enviou outras cinco correspondências oficiais pedindo um posicionamento do Brasil. Nenhuma foi respondida, nem mesmo uma assinada pelo presidente Petro Poroshenko e endereçada a Dilma Rousseff em julho do ano passado.

(Foto: Alcântara Cyclone Space)

QUASE PRONTO — Com 80% do projeto concluído, a Ucrânia procura outro sócio (Foto: Alcântara Cyclone Space)

Quem mais tem a perder com o calote é o Brasil. O governo da Ucrânia estuda sair do projeto e associar-se a outro país para lançar o foguete, que já está 80% concluído. O Brasil será cobrado nas cortes internacionais para ressarcir o equivalente a 822 milhões de reais gastos pelos ucranianos. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação diz, em nota, que o projeto não foi suspenso, e que a crise política na Ucrânia “gerou grandes incertezas e prejudicou a interlocução em curso”.

Uma explicação plausível é que o Brasil cedeu a pressões da Rússia, que apoia a guerra separatista no leste da Ucrânia, para abandonar a parceria espacial. Documentos internos do Itamaraty divulgados no passado revelaram que o chanceler russo pediu ao Brasil que não condenasse a atuação da Rússia na Ucrânia. No que foi prontamente atendido.

26/02/2015

às 18:12 \ Política & Cia

“The Economist”, uma das publicações mais prestigiosas do mundo: Brasil está num atoleiro e Dilma é fraca

economist capaA revista britânica dedica mais uma capa ao Brasil e afirma que o país vive seu pior período desde o início da década de 1990 (governo Collor)

Pela terceira vez em menos de dois anos, a revista britânica The Economist — fundada há 172 anos e um dos oráculos do capitalismo mundial — volta a dedicar sua capa ao Brasil. E, novamente, não é por razões animadoras.

Na edição latino-americana que chega às bancas, uma passista de escola de samba está em um pântano coberta de gosma verde com o título ‘O atoleiro do Brasil’. A reportagem que foi veiculada nesta quinta-feira foi produzida por uma equipe de editores e jornalistas da publicação que passou uma temporada no Brasil para tomar pé da situação econômica.

Os jornalistas estiveram em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Leiam também:
Caio Blinder: Manchete Brazil! Situação não tá russa

"The Economist": Brasil em atoleiro (Foto: Reprodução da capa)

“The Economist”: Brasil em atoleiro (Foto: Reprodução da capa)

Nas duas últimas capas que a Economist havia feito sobre o país (uma em setembro de 2013 e outra em outubro de 2014), a principal crítica até então recaía sobre a equipe econômica e a presidente Dilma Rousseff, que juntas haviam conseguido minar a credibilidade das contas públicas.

Outra crítica recorrente era a política protecionista. Na edição recente, a revista poupa o novo ministro Joaquim Levy — mas não Dilma: “Escapar desse atoleiro seria difícil mesmo para uma grande liderança política. Dilma, no entanto, é fraca. Ela ganhou a eleição por pequena margem e sua base política está se desintegrando”, diz a revista.

Em editorial, a revista se refere ao Brasil como “antiga estrela da América Latina” e afirma que o país vive seu pior momento desde o início da década de 1990, período de instabilidade política, com o impeachment de Fernando Collor, e derrocada econômica, com a hiperinflação.

“A economia do Brasil está uma bagunça, com problemas muito maiores do que o governo admite ou investidores parecem perceber”.

Além da ameaça de recessão e da alta inflação, a revista cita como grandes problemas o fraco investimento, o escândalo de corrupção na Petrobras e a desvalorização cambial que aumenta a dívida externa em real das empresas brasileiras.

Capas sobre o Brasil na revista em 2009 e 2013

Capas sobre o Brasil na revista em 2009 e 2013

Segundo a publicação, Dilma Rousseff “pintou um quadro cor-de-rosa” sobre o Brasil durante a campanha eleitoral.

A revista critica o fato de a presidente ter usado o discurso de que a oposição iria retirar as conquistas adquiridas nos últimos anos, como o aumento da renda e os benefícios sociais.

“Apenas dois meses do novo mandato e os brasileiros estão percebendo que foi vendida uma falsa promessa”.

A Economist nota que boa parte dos problemas brasileiros foi gerada pelo próprio governo, que adotou uma estratégia de “capitalismo de Estado” no primeiro mandato. Isso gerou fracos resultados nas contas públicas e minou a política industrial e a competitividade, diz.

A revista destaca que Dilma reconheceu parte desses erros ao convidar Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. “No entanto, o fracasso do Brasil em lidar rapidamente com distorções macroeconômicas deixou o senhor Levy com uma armadilha de recessão”.

Entre as medidas para que o Brasil retome o caminho do crescimento sustentado, a revista sustenta que “pode ser muito esperar uma reforma das arcaicas leis trabalhistas”. “Mas ela [a presidente] deve pelo menos tentar simplificar os impostos e reduzir a burocracia sem sentido”, diz o texto, ao citar que há sinais de que o Brasil pode se abrir mais ao comércio exterior.

O editorial termina lembrando que o Brasil não é o único dos Brics em apuros. A Rússia está em situação pior ainda.

A publicação ainda sugere que ainda é tempo para agir: “Mesmo com todos os seus problemas, o Brasil não está em uma confusão tão grande como a Rússia. O Brasil tem um grande e diversificado setor privado e instituições democráticas robustas. Mas seus problemas podem ir mais fundo do que muitos imaginam. O tempo para reagir é agora”.

 

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