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Caetano Veloso

03/11/2012

às 12:03 \ Música no Blog

Paulinho da Viola, 70 anos: celebrem com um samba do primeiro disco do mestre

Parabéns para ele (Foto: Divulgação)

Parabéns para ele (Foto: Divulgação)

Por Daniel Setti

Da voz e do violão do carioca Paulo César Batista de Faria saem, há mais de cinco décadas – quando começou a compor – algumas das letras e melodias mais aveludadas e melhor elaboradas do samba. Algo que garantiu há tempos ao músico, mundialmente conhecido como Paulinho da Viola, vaga no seleto hall dos grandes da música brasileira.

A partir do próximo dia 12 ele integrará outro clube, mais inusitado, o de lendas vivas da canção tupiniquim a completarem 70 anos neste 2012 – Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento lhe fazem companhia.

E para homenagear Paulinho, que deu seus primeiros passos musicais vigiando de perto o talento do pai, Cesar Faria, violonista do mítico grupo de choro Época de Ouro, Música no Blog recupera “Coisas do Mundo, Minha Nega”, composição sua presente em seu primeiro disco, homônimo, de 1968.

Embora fosse o primeiro trabalho individual do sambista, Paulinho da Viola era o registro de um artista já bastante experimentado. Desde 1964 Paulinho integrava o quadro de compositores da Portela e participara de álbuns colaborativos com Elton Medeiros e com o supergrupo A Voz do Morro (do qual faziam parte, entre outros, Zé Kéti, Nelson Sargento e o próprio Medeiros).

No vídeo abaixo, o Lord do Samba interpreta “Coisas…” em especial da TV Globo exibido em 1980.

 

06/10/2012

às 12:00 \ Tema Livre

BEATLES — 50 anos de “Love Me Do”, o primeiro compacto deles: celebrem meio século de magia beatlemaníaca em 5 canções de outros artistas com letras sobre os “Fab Four”

The Beatles em 1962: Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon e George Harrison (Foto: Apple Corps)

The Beatles em 1962: Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon e George Harrison (Foto: Apple Corps)

Por Daniel Setti

O Fim do Mundo se aproxima, de acordo com o calendário maia. Mas, para a comunidade internacional de milhões de beatlemaníacos, é possível que uma data deste último trimestre de 2012 tenha sido até mais importante: falamos precisamente de ontem, sexta-feira, 5 de outubro, o 50º aniversário do lançamento do primeiro compacto dos Beatles, editado no Reino Unido pelo selo Parlophone, ligado à EMI.

Trazendo 2 minutos e 22 segundos de pura magia no lado A com “Love Me Do” e 2 minutos e seis segundos de encantamento juvenil no lado B com “P.S. I Love You”, duas autênticas amostras da denominação de origem Lennon-McCartney – embora mais McCartney do que Lennon –, o début de sete polegadas mudou para sempre o mundo.

Uma rara cópia da prensagem original do compacto contendo "Love Me Do" e "P.S. I Love You" (Foto: Beatles 64/Collector's Frenzy)

Uma rara cópia da prensagem original do compacto contendo "Love Me Do" e "P.S. I Love You" (Foto: Beatles 64/Collector's Frenzy)

Desde então, além de toda a revolução musical promovida pelos Fab Four, fenômenos típicos do século 20, como a transformação de personalidades pop em semideuses e em artigos altamente vendáveis, também ganhariam novas proporções. Algo que se nota não apenas na infinidade de conteúdo e produtos já produzidos a respeito dos quatro roqueiros de Liverpool, mas também nas letras de algumas boas canções sobre eles.

Música no Blog separou cinco destas composições que trazem um ou dois integrantes dos Beatles como personagens. A seleção com canções sobre a banda como um todo, também bastante promissora, fica para um outro post.

-Milton Nascimento x John Lennon e Paul McCartney – “Para Lennon & McCartney” (1970)

Mesmo sem referência direta (o refrão diz “Mas agora sou cowboy/
Sou do ouro / eu sou vocês”), trata-se de um “pedaço” de homenagem à genial dupla.

-Shelley Plimpton (Trilha do espetáculo Hair, 1968) x George Harrison– “Frank Mills”

Aqui a menção vai para o Quiet Beatle, George Harrison: “Ele foi visto pela última vez com seu amigo / Um baterista, parecido com o George Harrison dos Beatles”. Tema extraído do mítico espetáculo Hair, cuja estreia na Broadway ocorreu em 1968.

-Caetano Veloso x John Lennon e Ringo Starr – “Cambalache” (1969)

Adaptando em grande estilo um velho tango de Enrique Santos Discépolo (1901-1951), Caetano incluiu referências a dois beatles nos lugares que, na composição original, eram dedicados ao compositor Igor Stravinsky e ao astrônomo Luigi Carnera. O resultado ficou assim: “Misturem-se Ringo Starr,Van Don Bosco e La Mignón, Don Chicho e Napoleón, John Lennon e San Martín”. Escutem-a aqui.

-Devendra Banhart  x Paul McCartney e Ringo Starr – “The Beatles” (2005)

O neohippie meio venezuelano meio americano Devendra se espanta já na primeira estrofe: “Paul McCartney e Ringo Star são os únicos Beatles no mundo!”.

-Odair José x John Lennon – “Eu queria ser John Lennon”

“Eu queria ser John Lennon um minuto só / Pra ficar no toca-discos e você me ouvir”. Eis a sabedoria popular devidamente beatlemaníaca do veteraníssimo Odair.

(Mais sobre Beatles e outras listas musicais neste link)

 

04/08/2012

às 12:00 \ Música no Blog

Os 70 anos de Caetano Veloso em cinco atos

Caetano-Veloso-70-anos

Caetano, 70 (Foto: Rafael Cusato - Contigo)

Por Daniel Setti

Ostentar uma obra de mais de 40 décadas e conseguir, por boa parte deste período, manter-se no topo – comercialmente ou como referência mundial – é para poucos. Implica inevitavelmente correr riscos artísticos e entrar em “roubadas estilísticas” mas, sobretudo, possuir um talento fora do comum.

Caetano Veloso, que completa 70 anos no próximo dia 7, é um dos raros integrantes desse clube de grandes da música cuja eclética influência ainda está para ser medida. E tantos foram os saltos na carreira do baiano de Santo Amaro de Purificação que realizar uma retrospectiva bem resumida de sua carreira é, além de interessante, muito difícil.

Ao longo dos 44 anos que separam 2012 de seu primeiro e homônimo álbum solo Caetano esteve, em muitos momentos – tal qual um David Bowie tropical -, movido pela urgência das novidades. Raramente se conformou com a fórmula de sucesso (ou fracasso) estabelecida por um álbum, procurando renovar-se no seguinte, flertando com praticamente todo tipo de ritmo e estilo musical possível e associando-se a outros artistas que lhe ajudassem a mostrar caminhos pouco trilhados.

Isso algumas vezes significou um resultado abaixo da média, uma chuva de resenhas negativas ou a pecha de oportunista, mas também possibilitou que cada disco novo seu continuasse relevante até hoje, ao contrário do que acontece com o trabalho da maioria de seus colegas de geração. Além disso, transformou-se em um dos mais originais e imitados intérpretes da MPB.

Em homenagem à entrada de Caê para a ilustríssima classe de septuagenários 2012 (Paul McCartney, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Brian Wilson…), Música no Blog separou um Top 5 com canções do músico divididas pelas cinco décadas em que lançou discos de estúdio (o mais recente é Zii e Ziê, de 2009):

“Clarice” (1968)

O seminal disco Caetano Veloso trazia as revolucionárias faixas “Tropicália” e “Alegria, Alegria”, mais conhecidas. Mas este épico orquestrado sobre a virgindade de uma mulher cujo corpo “é feito de adivinhação”, composto com Capinam, arrepia a espinha igualmente.

“You Don’t Know Me” (1972)

Não só Música no Blog, mas também o próprio Caetano considera Transa, gravado no exílio em Londres, o melhor disco do artista. Mesmo misturando inglês e português nas letras, poucas vezes ele esteve tão inspirado. A faixa de abertura, interpretada aqui na turnê do disco (2006), é um comovente desabafo sobre ser estrangeiro.

“Vaca Profana” (1986)

Homenagem a várias cidades, entre as quais São Paulo, Belo Horizonte, Barcelona, Madri e Nápoles, registrada originalmente por Gal Costa e depois pelo próprio autor no álbum ao vivo Totalmente Demais. O vídeo abaixo integra o DVD Multishow – Caetano e Maria Gadú (2011)

“Circuladô de Fulô” (1991)

Um dos melhores momentos do álbum Circuladô é este poema do concretista Haroldo de Campos musicado por Caetano. Marcado pelas mudanças bruscas de clima, a complexa letra e as texturas do violoncelo do velho colaborador Jaques Morelenbaum. Vídeo tirado da turnê que deu origem ao álbum Circuladô ao Vivo (1992).

“Odeio” (2006)

Do surpreendente álbum , no qual Caetano assumiu a influência do indie rock americano e inglês das últimas três décadas e despiu seu som ao formato baixo-guitarra-bateria. Extraído de show da turnê subsequente, que também gerou CD.

(Mais sobre música neste link)

30/06/2012

às 12:02 \ Música no Blog

GILBERTO GIL: 70 anos de vida e 50 de carreira; relembre em vídeo 5 momentos da trajetória de um grande da MPB

O septuagenário Gil: há muito tempo que ele praticamente só revisita a própria obra e a de seus ídolos, mas sua discografia é farta em pérolas (Foto: Arquivo Pessoal - Gilbertogil.com.br)

O septuagenário Gil: há muito tempo que ele praticamente só revisita a própria obra e a de seus ídolos, mas sua discografia é farta em pérolas (Foto: Arquivo Pessoal - Gilbertogil.com.br)

Por Daniel Setti

Compositor de grandes clássicos da MPB, letrista rebuscado, fundidor de ritmos, violonista inovador e de suingue único e personalidade de faceta ativista e política, Gilberto Passos Gil Moreira completou 70 anos na última terça-feira, 26 de junho. A data foi celebrada com o lançamento de um CD e DVD ao vivo, Concerto de Cordas & Máquinas de Ritmo, no qual revisitada o seu repertório acompanhado de orquestra dirigida pela violoncelista Jaques Morelenbaum.

A chegada do novo título às lojas acentua a tendência apontada pelo músico soteropolitano há mais de uma década: a de optar por trabalhos ao vivo e tributos às obras de outros artistas – Bob Marley e Luiz Gonzaga, entre outros – em detrimento de álbuns inteiramente formados por composições inéditas.

Esta “preguiça” com relação ao novo – algo que não se pode dizer, por exemplo, de seus conterrâneos e contemporâneos Tom Zé e Caetano Veloso – justifica-se em parte pela agenda ocupada de Gil, que entre 2003 e 2008 ocupou o cargo de Ministro da Cultura do governo Lula (antes fora vereador em Salvador pelo PMDB e depois PV, entre 1989 e 1992). Mas o fato é que o período dourado de sua discografia clássica se concentra mesmo nas décadas de 1960 e 1970.

Em homenagem a um dos grandes músicos brasileiros em atividade, festejamos a 70ª primavera de Gil e os seus nada menos que 50 anos de carreira – o primeiro compacto do cantor, “Povo Petroleiro” e “Coça, Coça, Lacerdinha”, saiu em 1962 – repassando alguns dos momentos mais marcantes desta trajetória:

“Domingo no Parque” (1968)

A toada criada a partir da união de baião e pop era aparentemente alegre, mas a letra acabava em um sangrento crime passional. Do segundo disco, Gilberto Gil, gravado com participação de Os Mutantes. É o revolucionário grupo paulistano, por sinal, que acompanha o baiano na histórica apresentação de “Domingo no Parque”, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967. Um dos primeiros registros visuais do Tropicalismo, movimento de fusão estético-musical do qual Gil foi um dos arquitetos:

“Expresso 2222” (1972)

Um dos pontos altos destes 50 anos de carreira, o disco Expresso 2222 mergulhava nas raízes musicais nordestinas. Tocando a faixa-título sozinho em especial da Globo do mesmo ano, quando voltou do exílio político em Londres, o autor mostra porque é considerado um dos grandes mestres brasileiros do violão.

“Lamento Sertanejo” (1975)

A mais bela balada já escrita por nosso homenageado está no ótimo álbum Refavela. Ele a recuperou ao lado do velho amigo Dominguinhos no DVD “Fé na Festa”, gravado no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, em 2010:

“Toda Menina Baiana” (1979)

Começou como uma saia justa: o então Ministro da Cultura convocando o então Secretário Geral da ONU, o ganês Kofi Annan, para assumir as congas em evento na sede da entidade em setembro de 2003, durante o qual se homenageavam vítimas do atentado ocorrido no mês anterior em Bagdá, entre as quais o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Mas, apesar do sorriso amarelo e da falta de pegada percussiva de Annan, a casa animou e Gil soube conduzir o inusitado recital com “Toda Menina Baiana”, de Realce, disco que marcava a transição à sua face mais pop dos anos 1980.

“Parabolicamará” (1992)

Já se adaptando à geração MTV – produziu clipes de divulgação para o canal -, Gil lançou Parabolicamará. A bolacha conta com bons momentos como “Madalena (Entra em Beco, Sai em Beco)”, “Quero Ser Teu Funk” e a faixa-título, inspirada em ritmo de capoeira, que escutamos abaixo rearranjada no excelente “Acústico MTV”, de 1994:

(Mais sobre música neste link)

29/04/2012

às 18:02 \ Livros & Filmes

A falta que faz um Paulo Francis

exoneração temporária Francis: o homem amável e de maneiras gentis dava lugar, na hora de lidar com as palavras, ao crítico implacável e ao homem sem medos que assinava colunas como a Diário da Corte, da Folha de S.Paulo

EXONERAÇÃO TEMPORÁRIA -- Francis: o homem amável e de maneiras gentis no trato com amigos, beligerante e implacável quando escrevia (Foto: Fernando Pimentel)

 

O livro Diário da Corte, que reúne colunas do mais beligerante e hábil polemista brasileiro, comprova que não há o que substitua alguém capaz de ver as coisas como as coisas são

(Publicado na edição de VEJA de 25 de abril de 2012 por Augusto Nunes)

Capa: Diário da Corte

Capa: Diário da Corte

O ator principiante não teria ido além da primeira peça caso houvesse recusado a sugestão do agitador teatral Paschoal Carlos Magno: que tal trocar o Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn da certidão de nascimento por um nome artístico menos tonitruante?

E o sofrível coadjuvante seguiria vivendo papéis secundários se não tivesse criado um personagem condenado ao êxito no mundo real: o jornalista Paulo Francis, em tudo diferente do intérprete. O homem amável, de gestos suaves e maneiras gentis, era temporariamente exonerado entre um texto e outro.

Ironia desmoralizante, sarcasmo impiedoso

Na hora de lidar com palavras, materializava-se a entidade agressiva, de temperamento beligerante, extraordinariamente hábil no ataque frontal, na ironia desmoralizante, no humor ferino, no sarcasmo impiedoso.

O estilo claro e contundente na forma e no conteúdo, a abrangência temática, a independência intelectual e a disposição para a correção da rota fizeram desse Paulo Francis o maior polemista do jornalismo brasileiro moderno. Ele continua no topo do ranking, comprova a leitura de Diário da Corte (Três Estrelas; 408 páginas; 59,90 reais), coletânea de 76 colunas publicadas pela Folha de S.Paulo entre 1975 e 1990 que chega agora às livrarias.

na hora de lidar com as palavras, ao crítico implacável e ao homem sem medos que assinava colunas como a Diário da Corte, da Folha de S.Paulo

Estilo claro e contundente, abrangência temática e independência intelectual na coluna "Diário da Corte" (Foto: Reprodução)

O país da amnésia endêmica, que esquece a cada quinze anos o que aconteceu nos quinze anteriores, também condena os melhores e mais brilhantes a quinze anos de esquecimento — contados a partir da morte física. Francis não escapou dessa temporada no limbo.

Em 4 de fevereiro de 1997, quando um infarto o surpreendeu no apartamento em Nova York, milhares de leitores do colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo e milhões de espectadores do comentarista dos telejornais da Rede Globo e do programa Manhattan Connection haviam transformado o carioca de 66 anos em celebridade nacional. Pois mesmo o mais conhecido jornalista brasileiro teve de esperar até agora pela exumação parcial da obra escrita.

Textos que poderiam ser publicados agora, sem retoques

Pior para os jovens, que poderiam tê-lo encontrado mais cedo. As mais de setenta colunas reunidas no livro resistiram incólumes à passagem do tempo. Muitos textos parecem ter saído ontem da mente brilhante, e continuam de tal forma contemporâneos que poderiam ser publicados na edição de amanhã sem retoques ou atualizações. A leitura de Diário da Corte mostra com dolorosa nitidez a falta que um Francis faz.

“Se dei uma contribuição ao jornalismo brasileiro, foi a de desmistificar os Estados Unidos”, disse em 1983. Tal contribuição é confirmada por artigos sobre o império atarantado com os desdobramentos do caso Watergate e outras aulas de jornalismo analítico.

Mas ele fez muito mais que isso. Antes ou depois do correspondente internacional cinco-estrelas, existiram o crítico de teatro que achava Paulo Francis “nome de bailarino de teatro de revista”, o crítico de cinema que amava as ousadias de Glauber Rocha enquanto desancava unanimidades internacionais, o devorador de livros que se gabava de ter lido Guerra e Paz aos 15 anos de idade e parecia carregar na cabeça três bibliotecas.

Houve o resistente entrincheirado numa página do Pasquim. E houve, sobretudo, o jornalista político que, ao se livrar de cautelas e amarras impostas por patrulhas ideológicas, se tornou, como Nelson Rodrigues, um “ex-covarde”.

A coragem de ser estigmatizado como “reacionário”

É preciso coragem para arriscar-se a ser estigmatizado como “direitista”, “reacionário” ou “conservador”. Mas só quem não teme tal perigo conseguirá enxergar o Brasil como efetivamente é.

Diário da Corte permite a contemplação de um largo trecho dessa caminhada em direção à liberdade que Francis definia com uma citação de Rosa Luxemburgo: “A liberdade é quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem discorda de nós”. Ele exercitou plenamente o direito de discordar de meio mundo — e de manifestar a discordância sem ambiguidades. Duelou furiosamente com José Guilherme Merquior e Antonio Candido, brigou feio com Chico Buarque e Caetano Veloso.

OUVIDOS MOUCOS -- Francis lamentou a rejeição da esquerda aos acenos feitos pelo general Golbery (à esquerda, conversando com o senador Luiz Viana Filho e o deputado Flávio Marcílio), defensor de algum tipo de entendimento com a oposição democrática

Não poupou sequer parceiros dos tempos do Pasquim. “Jaguar é um idiota de gênio”, resumiu ao comentar a subordinação do jornal aos interesses eleitorais de Leonel Brizola — a quem se aliara no início dos anos 60.

Foi uma das incontáveis mudanças de opinião embutidas na metamorfose maior. Numa delas, lamentou a rejeição sistemática dos acenos feitos a grupos de esquerda pelo general Golbery do Couto e Silva, ideólogo dos militares moderados e defensor de algum tipo de entendimento com a oposição democrática.

Roberto Campos, ex-embaixador de João Goulart e ex-ministro do regime autoritário, foi redimido depois de figurar por dez anos entre os alvos preferenciais da ferocidade de Francis. “Escrevi coisas brutais sobre Campos”, penitenciou-se. “São erradas. Retiro-as.” Em 1993, num jantar em Porto Alegre, dividiu uma mesa com o ex-inimigo. Depois de cumprimentar o homem à sua esquerda, virou-se para o amigo ao lado e murmurou: “Quem diria, hein? Agora estou à direita até do Roberto Campos”.

 

ASSIM TAMBÉM NÃO -- A disposição de mudar de ideia de Paulo Francis tinha limites, e não incluiu Sarney (Foto: Agência Senado)

A disposição para mudar de ideia tinha limites. José Sarney, por exemplo, nunca deixou de ser o símbolo da jequice brasileira, filha da esperteza dos que mandam e da ignorância dos que obedecem.

“Um amigo me disse que tubarões andaram à caça de Sarney”, escreveu em 2 de janeiro de 1988. “Já comecei a babar diante dessa possibilidade. Aí está uma solução.”

A argúcia excepcional e o pessimismo crônico somaram-se para apressar a decepção com Luiz Inácio Lula da Silva, justificada na coluna de 16 de agosto de 1985. “Admirei Lula quando apareceu. Enfim, um líder sindical que cuidava do pão e manteiga dos trabalhadores, o que é essencial à modernização capitalista do Brasil. Durou pouco. Lula me parece ter sido envolvido pela grã-finagem esquerdista do Morumbi e adjacências (…) Hoje, repete as mesmas sandices populistas que ouvimos desde os tempos de Jango Goulart.”

Francis antecipou em mais de vinte anos o cenário deste 2012

Nas eleições de 1989, apoiou Fernando Collor — que reduziria a pó depois das bandalheiras que resultaram no impeachment — para exorcizar dois fantasmas muito apreciados pelo PT: a interferência excessiva do estado e o aparelhamento da máquina pública.

Francis antecipou em mais de vinte anos o cenário deste 2012. O que diria o polemista sem medos se sobrevivesse para saber a que ponto pode chegar um país em adiantada decomposição moral? Como trataria os ministros que perderam o emprego por safadeza explícita mas seguem impunes?

O que faria depois de confrontado com o primeiro presidente da República que nunca leu um livro? A tensão provocada pela ação indenizatória movida pela Petrobras precipitou o amargo desfecho, e as perguntas ficarão sem resposta.

Pena. A jornalista Sonia Nolasco, mulher de Francis, decidiu que o marido seria enterrado com o par de óculos de lentes grossas sobre a testa. Ele partiu com cara de quem continuaria enxergando as coisas como as coisas são.

27/03/2012

às 12:00 \ Música no Blog

Chico Anysio deixa saboroso legado musical

Chico-Anysio-Baiano-Novos-Caetanos

Chico, com o não menos saudoso Arnaud Rodrigues, na capa do primeiro álbum de Baiano e os Novos Caetanos

Por Daniel Setti

Como só os grandes humoristas sabem ser, Chico Anysio, que morreu na última sexta-feira aos 80 anos, era de uma polivalência assustadora. De ator capaz de dar verossimilhança cômica a 1001 tipos a escritor, não faltavam dotes no currículo do cearense morto na sexta-feira passada aos 80 anos.

Compositor prolífico – e de música “séria”

Evidentemente, a música era também um dos tópicos desta lista interminável de talentos. Um dois mais importantes, aliás. Só entre as catalogadas pelo bom site Discos do Brasil, há 25 canções de autoria ou coautoria de Chico Anysio, sendo nenhuma delas humorística.

E,como fazia um de seus célebres personagens, Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro, ele parecia viajar no tempo, criando letras para divas de diferentes eras da música brasileira, de Dalva de Oliveira (1917-1972) e Dolores Duran (1930-1959) a ElisRegina(1945-1982).

Entre elas, escreveu com Hianto de Almeida “Qualquer Madrugada”, para a mítica Maysa (1936-1977), que a gravou em 1960:

Baiano e os Novos Caetanos: paródia genial e drible na censura

Chico Anysio não seria Chico Anysio, porém, se sua habilidade musical também não fosse usada em favor do humor. E esta combinação sem dúvida atingiu seu auge com o grupo Baiano e os Novos Caetanos, criado com Arnaud Rodrigues (1942-2010), mais conhecido como “Paulinho”, e Renato Piau.

Se tivesse parado no título – o melhor nome-paródia de banda da história – já estava bom. Mas havia ainda a cabeleira de “Baiano”, o músico-hippie criado por Chico (um mix capilar do Caetano fase Londres e Moraes Moreira), e as canções dos dois discos que o trio lançou, em 1974 e 1975.

O clássico definitivo do trio é o samba-rock “Vô Batê Pa Tu”, que abre o primeiro álbum. Pelo título e por versos como “O caso é esse/ Dizem que falam que não sei o que/ Tá pá pintá ou tá pá acontecer/ É papo de altas Transações”, poderia até parecer algo sem o menor sentido.

Porém, se contextualizado com o que vem depois (“Deduração um cara louco/ Que dançou com tudo/ Entregação com dedo de veludo/ Com quem não tenho grandes ligações”) ficava claro o contexto político da música, escrita em plena ditadura militar. Genialidade ímpar para driblar a censura.

(Texto originalmente publicado no blog Lá Vem o Mala da Lista. Para ler mais sobre a relação entre Chico Anysio e a música, clique aqui)

 

20/03/2012

às 12:01 \ Música no Blog

Recém-convertida em disco, parceria de Caetano Veloso e David Byrne vem de longe

Caetano-Byrne

A capa do disco: velhos amigos

 

Por Daniel Setti

Lançado na semana passada, Live at Carnegie Hall, CD que registra show de Caetano Veloso e David Byrne na célebre casa de shows novaiorquina Carnegie Hall em 2004, é o primeiro disco oficial assinado pelos dois músicos. Abaixo, eles dividem os vocais – com a ajuda do violoncelista Jaques Morelenbaum e do percussionista Mauro Refosco – em duas composições de Byrne de seus tempos de Talking Heads, “(Nothing But) Flowers” (em coautoria dos outros integrantes da célebre banda, extinta em 1991) e “Heaven”:

No entanto, o flerte musical e a admiração mútua entre o baiano e o escocês vem desde os anos 1980. A primeira tabelinha foi a versão de “Nothing…” que Caetano cantou em edição do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, pouco depois do lançamento do último álbum dos Talking Heads, Naked (1988), que trazia a canção:

Antigo entusiasta da música brasileira – foi um dos responsáveis pela “descoberta” de Tom Zé pelo público americano ao lançar disco do cantor por eu selo Luaka Bop, em 1992 -, Byrne gravou com Caetano pela primeira vez em 1998.

A música era “Dreamworld: Marco de Canaveses”, composta pela dupla especialmente para Red Hot + Lisbon, uma das coletâneas do projeto Red Hot Benefit, que visava conscientizar sobre a Aids por meio da música:

Seis anos depois, se reencontraram para dividir o palco do Anhembi, em São Paulo, em edição do VMB da MTV, em outubro de 2004. No repertório, ela, sempre ela, “Nothing But Flowers”, que Caetano acabara de incluir em seu álbum A Foreign Sound, dedicado a clássicos compostos em inglês.

Na ocasião, Caetano protagonizou um achaque espontâneo e engraçado. Após duas tentativas frustradas de iniciar a canção em virtude de problemas no som, ele ser irritou com a produção da emissora e mandou o recado (no tempo 1’14” do vídeo): “olha, pessoal da ‘Emetevê’, vergonha na cara! Nós vamos começar de novo, e bota essa p* pra funcionar direito pra gente cantar certo… nessa p*! Respeito!”.

E não é que funcionou? Confiram:

(Leia mais sobre música neste link)

23/02/2012

às 12:00 \ Música no Blog

Os 70 anos de Jorge Ben (Jor), um dos grandes gênios musicais brasileiros

O gênio Jorge: 70 anos e nova volta ao amigo que nunca deveria ter abandonado, o violão

Por Daniel Setti

Mesmo que o nível da produção musical de Jorge Ben Jor nas últimas três décadas tenha deixado a desejar em comparação com as duas anteriores – quando atendia apenas por Jorge Ben -, ele continua sendo um dos grandes gênios de nossa música. E que, ao completar 70 anos no próximo dia 22 de março, precisa ser reverenciado como tal.

Para isso revisito texto publicado há dez anos em minha finada coluna Massa Sonora, hospedada pelo site da MTV, batizado “Que mestre Jorge saiba o que está fazendo”.  Na ocasião, o nosso aniversariante se preparava para desempoeirar o violão e gravar um acústico da emissora após 25 anos de altos e baixos – mais baixos do que altos – empunhando guitarra elétrica.

O tal especial Unplugged até que rendeu momentos bonitos, e ele inclusive topou voltar ao formato para o 70º aniversário, e acaba de gravar uma edição do “Luau MTV” em Paraty. Esperamos que não soe morno como o disco de 2002, que não denotava, nem de longe, uma vontade especial de Jorge em retomar os seus anos de ouro, 1963-1975, durante os quais lançou álbuns espetaculares como Samba Esquema Novo (1963), Ben (1972) e A Tábua de Esmeralda (1974).

As palavras daquele texto sobre a importância do músico de Madureira, porém, continuam valendo. Reproduzo trechos abaixo, seguidos por divertido vídeo extraído de edição do Fantástico de 1974, apresentada por um então jovem Fulvio Stefanini, com interpretações as clássicas “Cadê Teresa” e “Bebete Vãobora” (ambas do disco Jorge Ben, de 1969):

Jorge Ben é um artista único na música brasileira. Compulsivamente reverenciado e imitado, serviu de inspiração para figurões do quilate de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O primeiro regravou vários de seus sucessos, como “Charles, Anjo 45”, “Jorge de Capadócia” e  “Olha o Menino”, e o último chegou a dar a seguinte declaração: “depois que vi Jorge tocar, quis parar. Ele já tinha feito tudo o que eu havia imaginado”.

Intuição

Gil se referia tanto às inacreditáveis letras criadas intuitivamente por Jorge, capaz de transformar a  mais estapafúrdia bula de remédio em uma estrofe suingada ou até mesmo um refrão irresistível (“O Homem da Gravata Florida”, “O Circo Chegou” e “Xica da Silva,  por exemplo), como à sua capacidade de criar ritmos inspirados em fontes diversas. Da bossa de João Gilberto à jovem guarda de Erasmo, do funk de James Brown à psicodelia setentista.

Algo intimamente relacionado ao enfoque que deu ao violão. A maneira de tocar que Jorge inventou para o instrumento se eternizou pela simplicidade e capacidade de síntese musical. O filho de etíope que gostava de samba e rock quebrou o punho, “desceu a mão” nas seis cordas, trocando os dedos pela palheta e desrespeitando as firulas jazzísticas da bossa nova. Quase sem querer, criou a batida definitiva (às vezes samba-rock, às vezes, samba-funk, dependendo do contexto) e deixou todo mundo babando.

Talento anti-patrulhas

Mesmo inovando e “profanando” a bossa, ganhou a simpatia dos adeptos do gênero. Ao mesmo tempo, era amigo da turma suburbana carioca da pesada, liderada por jovens roqueiros como Tim Maia e Erasmo Carlos. Mais tarde, por andar com os tropicalistas, tornou-se alvo da patrulha político-purista, que implicava com uma letra aparentemente ufanista como a de “País Tropical”, em tempos de ditadura militar e repressão.
No entanto, Jorge minaria a intolerância intelectualóide com a arrepiante “Charles, Anjo 45″, até hoje um dos mais fortes relatos musicais a respeito do crime organizado nos morros cariocas (impossível se esquecer  de versos como “Muitas queima de fogos/ E saraivada de balas pro ar/ Pra quando nosso Charles voltar”).

Resistir à sua música era, definitivamente, algo típico das “pessoas de temperamento sórdido” descritas por ele na letra do clássico “Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas”, de 1974.

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16/02/2012

às 12:03 \ Música no Blog

Encontro de gigantes: Jorge Ben e Tim Maia, há 30 anos

Uma das (misteriosamente) poucas fotografias dos dois juntos, em 1993

Daniel Setti

No retorno da série “Encontro de Gigantes” ao Música no Blog, celebramos os 30 anos do possível melhor dueto já registrado entre amigos de adolescência geniais: Jorge Ben (ainda sem o Jor como segundo apelido artístico) e Tim Maia.

A canja histórica ocorreu em especial de Jorge produzido pela TV Globo em 1982 no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro, 25 anos mais tarde lançado em DVD com o nome Energia, em parceira com a gravadora especializada em MPB Biscoito Fino. Caetano Veloso, Gal Costa, Baby Consuelo, Fábio Jr. e até o craque flamenguista Zico também participaram do programa.

“Estacionei minha asa-delta na árvore da esquina”, brinca Tim, trajando uma impagável combinação de camisão azul com cachecol de lantejoulas, ao ser anunciado pelo velho parceiro. O dono do então vozeirão mais poderoso do Brasil, que já roubara a cena na passagem de som infernizando Jorge e Fabio Jr. ao tocar bateria e timbales na hora errada, chegava para brilhar outra vez.

Sobre uma levada cheia de soul típica daquele período da carreira de Ben, quando trocara o violão pela guitarra elétrica, a dupla interpreta “Lorraine”, composição presente no álbum Bem Vinda Amizade, lançado pelo “Babulina” no ano anterior. Embora não esteja entre os grandes sucessos de Jorge, é uma de suas clássicas canções, reconhecíveis de cara em versos como “com aquele corpo sadio e gratificante”.

Após uma década oscilante, ambos mestres do suíngue nacional experimentariam um intenso revival comercial no início dos anos 1990. Pena que para Tim, falecido em 1998, a retomada da glória não duraria tanto.

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10/12/2011

às 12:03 \ Música no Blog

O que acontece quando um clássico dos Beatles é transformado em ópera

Cathy Berberian BBC

Cathy Berberian (Foto: BBC)

Por Daniel Setti

De tão “redondas”, as melhores canções dos Beatles tendem a manter sua capacidade de agradar mesmo quando relidas por artistas de estilos completamente diferente do quarteto de Liverpool, ou em arranjos que pouco lembram os originais.

O jazzista experimental americano Pat Metheny, por exemplo, encerra os shows de sua atual turnê com uma versão instrumental de “And I Love Her” ao violão; a grande diva americana Nina Simone (1933-2003) quase conseguiu, ao longo de sua vasta carreira, transformar em seus hinos beatlemaníacos como “Here Comes the Sun” e “Revolution”, cantando-os com um feeling impressionante; já Caetano Veloso fez bonito ao desconstruir “For No One”, “Eleanor Rigby” e “Lady Madonna” com sotaque sambista no álbum Qualquer Coisa (1975).

Mas e a ópera? É um gênero musical compatível com as canções diretas e – em geral – descomplicadas da dupla Lennon & McCartney ou de George Harrison?

Pois Cathy Berberian, meio soprano de Attleboro, Massachusetts, EUA, falecida em 1983 aos 54 anos, foi uma das poucas artistas a tentarem este cruzamento de linguagens aparentemente tão opostas. Acostumada a emprestar sua poderosa garganta a compositores eruditos como Igor Stravinski e John Cage e aberta a gêneros não necessariamente operísticos, Berberian lançou em 1967 o álbum Beatles Arias, inteiramente dedicado ao repertório da banda, com arranjos do músico holandês Louis Andriessen.

O resultado é, no mínimo, curioso. Em baladas como “Yesterday” e “Michelle”, choca menos (prova da tendência melodiosa clássica de seu verdadeiro autor, Paul McCartney). Mas em rocks como “Ticket to Ride”, na opinião de Música no Blog, a releitura se destaca mais por ser engraçada e bizarra do que qualquer outra coisa. E é justamente este clássico o único disponível em vídeo, registrado em programa televisivo holandês de 1977. Confiram e opinem:

 

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