Blogs e Colunistas

Livros & Filmes

09/06/2013

às 14:00 \ Livros & Filmes

Livro: o roqueiro-historiador da II Guerra escreveu uma excelente história da FEB na Itália do ponto de vista do soldado raso

Brasileiros em campanha na Itália

Brasileiros em campanha na Itália (Foto: Serv. Fotog. do Exército / Comando Militar do Leste)

Texto de Augusto Nunes, publicada em edição impressa de VEJA

COM A PALAVRA, O SOLDADO RASO

Intrigado com os silêncios do pai ex-pracinha, o baterista João Barone foi fundo na missão de estudar a II Guerra. Em 1942, ele enfim dá voz aos combatentes brasileiros

Mesmo antigos seguidores dos Paralamas do Sucesso reagem com espanto à descoberta de que o baterista João Barone é um especialista em II Guerra Mundial, já escreveu um livro sobre o tema e acaba de publicar outro, agora tratando exclusivamente da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Como é possível encontrar espaço na agitada agenda de roqueiro para pesquisas sobre o maior dos conflitos registrados desde o Dia da Criação? A leitura de 1942 — O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida (Nova Fronteira; 304 páginas; 39,90 reais) ordena que a pergunta seja invertida: como é que Barone consegue atender aos compromissos da banda se aparentemente consome 24 horas por dia no resgate de acontecimentos ocorridos há setenta anos?

Filho de um dos 25 000 combatentes da FEB, o Barone historiador começou a tomar forma embalado não pelo que ouviu do pai, mas pelo que João de Lavor Reis e Silva, um introvertido de nascença, deixou de contar.

Ele se tornava mais retraído ainda quando a conversa enveredava pela experiência vivida entre setembro de 1944 e maio de 1945, período em que participou da ofensiva militar aliada que libertou o norte da Itália, consumou a derrocada dos alemães numa região de alta relevância estratégica e apressou o fim da guerra em território europeu.

Os filhos ansiavam por atos heroicos. Nas raras ocasiões em que se dispôs a falar sobre o assunto, o pracinha de poucas palavras interrompeu o relato no meio ou substituiu revelações por reticências. Barone primeiro recorreu à imaginação para reconstituir as aventuras encobertas pelo silêncio. Depois de herdar o capacete de expedicionário, saiu à caça de testemunhas, documentos e imagens que lhe permitissem ao menos vislumbrar o que o pai viu de perto.

Incursões pelos cenários do drama completaram o curso intensivo que fez de Barone um diplomado em II Guerra, com doutorado em FEB. O destino impediu que o soldado raso do Regimento Sampaio descobrisse que o filho hoje sabe muito mais do que ele sobre a guerra a que sobreviveu.

O velho pracinha gostaria de ouvir a assombrosa história do soldado Dálvaro José de Oliveira, que resistiu num único dia a dois naufrágios provocados por torpedos alemães. Ou o caso do catarinense que encontrou um conterrâneo de ascendência germânica no grupo de prisioneiros e trocou um caloroso abraço com o agora inimigo.

Quantas mulheres se engajaram na FEB? Quem foi o primeiro a tombar em combate, por que a metralhadora inimiga foi apelidada de “Lurdinha”, quantos bombardeios somaram os aviadores brasileiros? Barone sabe tudo isso. E muito mais. Conjugadas a depoimentos e revelações surpreendentes, as informações contidas no livro resultam numa narrativa sem parentesco com a história oficial.

Vista pelas lunetas dos chefes civis e militares, a saga da FEB parece o Brasil Maravilha dos discursos de Lula: se melhorar, estraga. Comandadas por generais que não fariam feio num confronto com Napoleão Bonaparte, as tropas brasileiras, protegidas pelos pilotos do Senta a Pua!, colecionaram vitórias tão espetaculares que nem vale a pena registrar um ou outro revés.

Essa versão edulcorada tem sido retificada por obras que tratam a verdade com o devido respeito. É o caso do essencial As Duas Faces da Glória, do jornalista William Waack. E é o caso de 1942. O entusiasmo de pracinha honorário em nenhum momento deforma o olhar de Barone. É o olhar do pai. Vista pelo filho de João de Lavor Reis e Silva — ou apenas João da Silva, protagonista do episódio fictício que abre o livro —, foi bonita a história da FEB.

HISTORIADOR AUTODIDATA -- Barone: anos visitando os cenários das batalhas e reunindo documentos, imagens e testemunhas para reconstituir a II Guerra da qual os expedicionários tomaram parte — e sobre a qual o pai, o soldado raso João de Lavor Reis e Silva, dava um jeito de jamais falar (Foto: André Valentim / Strana)

HISTORIADOR AUTODIDATA -- Barone: anos visitando os cenários das batalhas e reunindo documentos, imagens e testemunhas para reconstituir a II Guerra da qual os expedicionários tomaram parte — e sobre a qual o pai, o soldado raso João de Lavor Reis e Silva, dava um jeito de jamais falar (Foto: André Valentim / Strana)

Mas bonita de outro jeito. “As lições da participação brasileira vão muito além da velha necessidade de reafirmar a bravura e o heroísmo dos pracinhas no campo de batalha”, escreveu Barone. “Naquela época, foi tão difícil constituir uma força militar para tomar parte na guerra quanto é difícil nos dias de hoje preparar o país para sediar uma Copa do Mundo, uma Olimpíada ou para prevenir as enchentes de verão (vale lembrar que o total de 916 mortes e 345 desaparecimentos com as chuvas de 2011 no Rio por pouco não superou os cerca de 1 500 brasileiros mortos na II Guerra Mundial).”

Refletir sobre o que houve entre 1942 e 1945, insiste Barone, poderia ajudar a desfazer a sensação de que o país nunca aprende com os erros do passado. Não foram poucos os erros que pontuaram a saga da FEB — e que testaram a determinação de milhares de Joões da Silva na frente doméstica nos dois anos que precederam a partida para a Itália.

Criada oficialmente em 1943, a FEB teve de enfrentar as incertezas geradas pelos movimentos pendulares do governo de Getúlio Vargas, que oscilou entre as partes em guerra antes de definir-se pelos aliados. As tropas tiveram também de vencer intrigas políticas, uma estrutura militar envelhecida e, sobretudo, carências inverossímeis. No treinamento no Brasil, faltaram armas para combates simulados. (Para que se aprendesse a lidar com explosivos, latas de goiabada fizeram as vezes de minas terrestres.)

E continuaram faltando armas às tropas já acampadas na frente europeia. O comando americano teve de socorrer os brasileiros com trajes de frio, barracas de campanha, alimentos e outros suprimentos básicos. A FEB já tinha um hino meses antes de existir fisicamente. Como os pilotos do Senta a Pua! descobriram só às vésperas de uma parada militar que faltava um hino à Aeronáutica, resolveram desfilar ao som da marchinha carnavalesca Jardineira.

Esses monumentos ao jeitinho brasileiro comprovam que os nativos destes trêfegos trópicos recorrem a improvisos espertos até no meio de uma guerra. Nem sempre dá certo, ensinam os dramáticos episódios que Barone narra com a leveza que identifica os autores vacinados contra a linguagem pedante dos acadêmicos demais. O músico historiador falou pelo pai. O Brasil enfim pode ouvir como foi a guerra quase desconhecida pela voz de um João da Silva.

19/05/2013

às 18:00 \ Livros & Filmes

Nunca vivemos em era tão pacífica. É o que o psicólogo canadense, com base na ciência, tenta provar

DENTRO DO CÍRCULO ÉTICO -- Mãe e filho atendidos em um posto de saúde durante a interminável crise humanitária do Sudão: apesar de tudo, um mundo mais solidário e menos violento (Foto: Paula Bronstein / AFP)

DENTRO DO CÍRCULO ÉTICO -- Mãe e filho atendidos em um posto de saúde durante a interminável crise humanitária do Sudão: apesar de tudo, um mundo mais solidário e menos violento (Foto: Paula Bronstein / AFP)

Resenha de Gabriela Carelli, publicada em edição impressa de VEJA

O MELHOR MUNDO POSSÍVEL

O psicólogo canadense Steven Pinker busca provar, com instrumentos científicos e matemáticos, que nunca se viveu uma era tão pacífica quanto a atual

Se o estado natural do homem, na ausência de leis e instituições, é mesmo a violência na sua forma mais pura e vil, e a vida sem freios é “repugnante, miserável, brutal e curta”, como escreveu Thomas Hobbes em Leviatã quatro séculos atrás, Darfur, no Sudão, é o pedaço de terra onde os demônios que vivem em cada um de nós decidiram se encontrar – e se sentem livres para fazer o que só a eles convém.

Nesse território africano do tamanho de uma Espanha, há dez anos assolado pela selvageria das disputas tribais, a maldade inata descrita por Hobbes se expressa sem escrúpulo algum.

A não ser pela contribuição de uma legião de voluntários dispostos a doar o seu tempo para ajudar as vítimas dessa barbárie – que bem mais precioso pode haver? -, seria impossível crer, por um minuto sequer, na constatação de que o mundo de hoje é um lugar melhor para viver do que foi em qualquer outro instante do passado. Ou que a humanidade, graças a uma sucessão de eventos civilizatórios, desfruta atualmente um momento único, o período mais pacífico de toda a sua história.

São esses dois argumentos a coluna dorsal de Os Anjos Bons da Nossa Natureza (tradução de Bernardo Joffily e Laura Teixeira Motta; Companhia das Letras; 1 087 páginas; 74,50 reais, ou 39,90 na versão eletrônica), o mais recente e, por certo, controverso livro do psicólogo e neurocientista canadense Steven Pinker.

Desde 1945, afirma o autor já nas primeiras páginas, o número de mortos em guerras, assassinatos e outras circunstâncias violentas é proporcionalmente o menor dos últimos 5 000 anos. O século XX também não foi um dilúvio de sangue, apesar das guerras mundiais, dos conflitos civis, do Holocausto e dos regimes totalitaristas. “O mundo mudou, e está bem melhor”, afirma Pinker.

Não fosse Pinker um respeitado professor da Universidade Harvard que se tornou uma celebridade intelectual planetária com análises pitorescas do comportamento humano à luz da teoria da evolução, a obra seria considerada, sem leitura prévia, uma alucinação obscena de um cientista qualquer entorpecido pela fama. Ou uma afronta ao sofrimento de milhões de pessoas. De que mundo Pinker está falando, afinal?

Só na primeira década deste século, este mundo assistiu aos atentados de 11 de setembro, descobriu que até na pacífica Noruega pode existir um maluco capaz de matar civis inocentes e percebeu que as chacinas escolares, antes vistas como coisa de jovem americano com acesso fácil a armas de fogo, começaram a despontar em todos os cantos do planeta, incluindo o bairro de Realengo, no Rio de Janeiro. O mal parece estar a todo momento em todo lugar – mas Pinker discorda. E prova sua tese com contas de soma, subtração, divisão.

Tudo depende da proporção: “Embora o século XX certamente tenha tido mais mortes violentas do que os anteriores, a população mundial era bem maior”, pondera o autor. “A população do planeta em 1950 era de 2,5 bilhões, duas vezes e meia a de 1800, quatro vezes e meia a de 1600 e sete vezes a de 1300.

As baixas de uma guerra em 1600 teriam de ser multiplicadas por 4,5 para que pudéssemos comparar a sua força destrutiva ao total de mortes registradas em meados do século XX.” Por essa lógica, os 8 milhões de pessoas que morreram durante a queda de Roma, entre os séculos III e V, equivaleriam, na metade do século passado, a 105 milhões de mortes, quase o dobro do total de vítimas fatais durante a II Guerra.

O entusiasmo de Pinker com as ciências exatas se arrasta pelos seis primeiros capítulos. Num deles, o psicólogo invade a hermética seara da física e utiliza o conceito de entropia para considerar as razões da violência. “Uma fração infinitesimal dos estados do universo é ordenada o bastante para sustentar a vida e a felicidade, de modo que é mais fácil destruir e produzir miséria do que cultivar e proporcionar felicidade”, diz.

Se por um lado a numeralha legitima matematicamente o argumento do psicólogo, por outro imprime à obra certa ingenuidade simplista, que enfraquece sua tese. Pois não há nem vai haver cálculo capaz de mensurar algo tão subjetivo quanto o sofrimento humano, ou de precisar quanto o ataque às Torres Gêmeas foi menos violento do que as torturas praticadas na Inquisição.

O SOFRIMENTO EM PROPORÇÃO -- Steven Pinker: com o recurso a cálculos e a conceitos da física como a entropia, ele quantifica o que por definição deveria ser inquantificável - a dor e a violência (Foto: Suki Dhanda / Camera Press / Otherimages)

O SOFRIMENTO EM PROPORÇÃO -- Steven Pinker: com o recurso a cálculos e a conceitos da física como a entropia, ele quantifica o que por definição deveria ser inquantificável - a dor e a violência (Foto: Suki Dhanda / Camera Press / Otherimages)

A despeito disso, a obra tem o mérito inquestionável de ser um mergulho primoroso na história da violência. Equilibrando-se entre as descobertas da neurociência – seu território – e a história, o autor examina como o advento do estado, a institucionalização da Justiça e a difusão e o aprimoramento da cultura aprisionaram a maldade e cederam espaço à ascensão dos anjos bons dentro de nós.

Só não fica claro é como essa tese, que lhe custou quinze anos de empenho, se articula com aquela que antes era a linha mestra da pesquisa de Pinker: chegar mais perto de entender o que pesa mais na formação da personalidade de um indivíduo, se os fatores genéticos ou os elementos ambientais e culturais. Trata-se de uma das discussões mais acirradas da ciência. Um mistério que, a cada nova descoberta sobre o maquinário genético humano, se revela mais complexo do que se pensava.

Com a publicação de Como a Mente Funciona, livro de 1996 que explica o funcionamento do cérebro de uma perspectiva darwinista, Pinker começou a ganhar notoriedade e reputação. Ele se firmaria como estrela da divulgação científica seis anos depois, com Tábula Rasa, com o qual se incluiu na turma que acredita na preponderância da genética no desenvolvimento do caráter, da inteligência e dos temperamentos.

Rebatia com veemência os colegas opositores da ideia, os que acreditam que o ser humano é um papel quase em branco, no qual a personalidade é desenhada primordialmente pelas experiências. Pinker era tão enfático que chegou a ser acusado – injustamente – de fazer uma apologia discreta da eugenia, a eliminação dos indivíduos tidos como geneticamente inferiores. Em Os Anjos Bons…, ele parece ter se desviado de seu rumo. Aqui, a cultura avulta sobre a natureza: se os eventos históricos influenciaram a índole humana para melhor, como Pinker insiste em dizer do início ao fim, que fim levaram os genes?
FORÇAS DO BEM

Fenômenos históricos que, segundo o neurocientista Steven Pinker, ajudaram o lado pacífico da natureza humana a predominar no mundo contemporâneo

A expansão do comércio na Baixa Idade Média fez o índice de mortes violentas despencar (Imagem: Gianni Dagli Orti / AFP)

A expansão do comércio na Baixa Idade Média fez o índice de mortes violentas despencar (Imagem: Gianni Dagli Orti / AFP)

Comércio

A troca de mercadorias é uma estratégia pacificadora poderosa. À luz da biologia moderna, tais intercâmbios explicam a evolução da cooperação fora do parentesco. A expansão do comércio na Baixa Idade Média fez o índice de mortes violentas despencar. Na segunda metade do século XX, o mais longo período de abstenção de guerras entre as grandes potências, o comércio internacional disparou
Expansão do conhecimento

Alfabetização, urbanização, mobilidade e acesso à informação são fatores que permitem aos indivíduos conhecer pessoas de culturas, religiões e pontos de vista diferentes. Expande-se assim o chamado círculo ético – o número de pessoas com cujas dores nós nos solidarizamos

 

Sociedade feminina

Não, Pinker não é dos que acham que mulheres no poder são menos truculentas. Mas há diferenças biológicas entre os sexos e, com a ascensão social e profissional das mulheres, as sociedades ocidentais vêm se distanciando da cultura de honra viril, na qual imperam a retaliação violenta e a veneração à glória marcial

 

O monopólio da força pelo poder legal limita a luta sem fim de todos contra todos - como postulou Thomas Hobbes (Foto: De Agostini / Getti Images)

O monopólio da força pelo poder legal limita a luta sem fim de todos contra todos - como postulou Thomas Hobbes (Foto: De Agostini / Getti Images)

Governo

O monopólio da força pelo poder legal limita a luta sem fim de todos contra todos – como postulou Thomas Hobbes, no século XVII, em Leviatã. O total de mortes violentas diminuiu em um quinto quando, há 5 000 anos, as tribos que sobreviviam da agricultura sucumbiram às primeiras cidades e estados organizados. Quando os feudos da Europa se coligaram em reinos e nações soberanas, a taxa de homicídios foi reduzida a um trigésimo

12/05/2013

às 16:00 \ Livros & Filmes

DICA DE FILME: Você já viu “Argo”? Se não, vá assistir — e diga se mereceu o Oscar de o melhor de 2012

ESPIÕES TAMBÉM SUAM FRIO -- Affleck, como o agente da CIA Tony Mendez, destoa da multidão em um bazar da Teerã recriada em Istambul e Los Angeles

ESPIÕES TAMBÉM SUAM FRIO -- Affleck, como o agente da CIA Tony Mendez, destoa da multidão em um bazar da Teerã recriada em Istambul e Los Angeles

Crítica de Isabela Boscov, publicada em edição impressa de VEJA

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO

Em Argo, seu terceiro e ótimo filme na direção, Ben Affleck trata de um episódio que só não é inacreditável porque aconteceu de fato

Em meados da década passada, Ben Affleck se rendeu às evidências. Percebeu que ficaria eternizado como o ator de queixo duro de Armageddon e Pearl Harbor, e como a figura de troça dos tabloides que circulava por Los Angeles apalpando o derrière da namorada Jennifer Lopez, se não tomasse uma atitude para, como disse ele à revista Time, “alinhar a pessoa que sou com o trabalho que faço”.

O realinhamento foi iniciado em 2007, com Medo da Verdade, prosseguiu de forma muito bem-sucedida em 2010, com Atração Perigosa, e culmina agora com Argo (Estados Unidos, 2012): depois de ganhar um Oscar de roteiro com o amigo Matt Damon em 1998 por Gênio Indomável, e de então descer a paroxismos de ridículo pessoal e profissional, Affleck se casou com outra Jennifer, muito mais discreta e respeitável – a atriz Jennifer Garner -, teve com ela três filhos e reconstruiu em boa medida sua carreira de ator.

E, este o detalhe mais interessante, tornou-se um diretor cada vez mais hábil, e mais respeitado. Com Argo, ganhou o Oscar de melhor filme de 2012. Amparado pelo prestígio e por bilheterias sólidas, é objeto de tanta fé na Warner que tem sido o primeiro a receber os melhores roteiros que o estúdio tem sob sua consideração.

 

UMA OPERAÇÃO DO ARCO-DA-VELHA para retirar do Irã seis americanos que fugiram da embaixada enquanto a multidão a invadia, em 4 de novembro de 1979

UMA OPERAÇÃO DO ARCO-DA-VELHA para retirar do Irã seis americanos que fugiram da embaixada enquanto a multidão a invadia, em 4 de novembro de 1979 (Foto: Corbis / Latinstock)

Como o do próprio Argo, que o roteirista Chris Terrio escreveu a partir de arquivos tornados públicos em 1997 e com base em uma série de conversas com um ex-agente da CIA que esteve no centro de um episódio inacreditável – no sentido básico da palavra.

Em novembro de 1979, quando militantes revolucionários invadiram a Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, após semanas de cerco em protesto ao abrigo que o país dera ao xá deposto Reza Pahlevi, 52 funcionários foram feitos reféns durante 444 dias, numa das mais graves crises diplomáticas da história americana (e numa das mais sensacionais recriações de um episódio verídico no cinema).

Outros seis funcionários, porém, conseguiram escapar sem que ninguém desse por isso, e foram bater à casa do embaixador canadense. Cada dia a mais que permaneciam ali, no entanto, agravava o risco de que fossem todos descobertos e postos diante de um pelotão de fuzilamento.

Entra em cena Antonio, ou Tony, Mendez, desde a década de 60 ligado à CIA e especialista em exfiltrations – a arte de suprimir espiões, colaboradores e dissidentes de áreas fechadas. Nos seus anos de atividade até então, Mendez retirara um sem-número de indivíduos de trás da Cortina de Ferro.

Dada a volatilidade do quadro no Irã, ele propôs aquilo que, no filme, descreve como “a melhor das ideias ruins”.

Mendez posaria de produtor de cinema canadense, em Teerã com sua equipe (os seis fugitivos, devidamente munidos de documentação fornecida pelo Canadá e aprovada na primeira sessão secreta do Parlamento desde a II Guerra) a fim de buscar locações para uma certa ficção científica batizada de Argo – como o navio em que, na mitologia grega, Jasão vai buscar o Velo de Ouro.

(O próprio Mendez conta a história no livro homônimo, que está sendo lançado aqui pela Intrínseca.)

ENTRE OS FATOS E O SUSPENSE -- Em cena de Argo, cinco dos fugitivos da embaixada tentam achar algum abrigo em Teerã

ENTRE OS FATOS E O SUSPENSE -- Em cena de Argo, os seis fugitivos da embaixada (um deles está encoberto pelo homem de capa azul) tentam achar algum abrigo em Teerã

Canadenses são objeto de simpatia mundo afora, o que amenizaria o cerco ao grupo de estrangeiros. E é perfeitamente plausível que em Hollywood haja gente tão alheia ao que se passa no mundo que cogitaria visitar o Irã no auge da revolução islâmica.

A fim de vedar as brechas do plano, Mendez contactou amigos seus em Hollywood para formar uma produtora legítima, a Studio Six, além de comprar um roteiro existente, desenhar storyboards, bolar currículos falsos para os refugiados e dar festas com a cobertura do jornal especializado Variety.

“Se vou fazer um filme de mentira, pode ter certeza de que ele vai ser um sucesso, mesmo que também de mentira”, ironiza o produtor Lester Siegel (na verdade, o especialista em efeitos Bob Sidell), que entra na dança junto com o artista de maquiagem John Chambers, oscarizado por seu trabalho em O Planeta dos Macacos.

Siegel e Chambers, interpretados com humor vívido por Alan Arkin e John Goodman, são figuras típicas de uma década que Affleck, além de recriar, homenageia: no tratamento da película, no desadorno da encenação e no tom mordaz, Argo se inspira naquele cinema dos anos 70 que, a exemplo de filmes como Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas, batia forte, e entretinha muito.

Já o desempenho do próprio Affleck como Tony Mendez é de discrição contumaz.

De talentos menos notáveis como ator que como diretor, ele aqui, da mesma forma que em Atração Perigosa, deixa os papéis mais suculentos para o restante do elenco e, acertadamente, escolhe o personagem cuja habilidade profissional é nunca chamar atenção para si.

“Meu trabalho era ser invisível. Espiões de verdade não usam armas nem explodem prédios, como James Bond, porque depois não poderiam entrar lá e pegar mais informações”, disse a VEJA o verdadeiro Mendez. (Ou seja lá quem ele for: na entrevista ao editor Duda Teixeira, o agente se recusou a sequer confirmar que esse fosse seu nome verdadeiro.)

Essa inescrutabilidade do protagonista serve muito bem à estrutura robusta de Argo: embora Affleck e o roteirista Chris Terrio tenham enfeitado consideravelmente os fatos no último ato do filme em prol do suspense que se acirra até quase o intolerável, nos dias que transcorreram desde a entrada de Mendez em Teerã, em 25 de janeiro de 1980, até o desfecho de sua operação, o agente viveu momentos de medo genuíno.

Quando a fisionomia de Mendez começa a trair sinais de pânico, portanto, a situação em que ele e os seis refugiados se encontram é palpável, em todo o seu risco e precariedade, para a plateia.

Enquanto isso, em Hollywood, os telefones da Studio Six não paravam de tocar: eram diretores e produtores que tentavam vender seus projetos, certos de que uma companhia fundada sobre um sucesso potencial como Argo só poderia ter um futuro próspero.

Até Steven Spielberg mandou um roteiro para a Studio Six. Em nome da plausibilidade da fachada criada pela CIA, os interessados eram todos atendidos ou recebidos no escritório que Michael Douglas deixara vago ao concluir Síndrome da China. E isso, por mais estranho que pareça, não é ficção. Foi fato.

 

“Se a história é boa, ela vende ingressos’

Ben Affleck falou a VEJA sobre as implicações políticas de um filme como Argo e sobre os prós e os contras de dirigir a si mesmo

 

SEGUNDO AFFLECK, filmar no Irã teria sido possível, mas traria repercussões imprevisíveis

SEGUNDO AFFLECK, filmar no Irã teria sido possível, mas traria repercussões imprevisíveis

Atração Perigosa chegou perto dos 100 milhões de dólares nos Estados Unidos, e Argo está no caminho de fazê-lo. Mas diz o senso comum que filmes para maiores de 18, com temas duros ou difíceis, espantam o público. Há uma lição a ser tirada daí?

Tirar conclusões, em Hollywood, é um negócio arriscado. Mas vá lá: como já se sabia, há sim uma audiência que aprecia filmes adultos. Com Argo, pus de lado as considerações comerciais apriorísticas e tentei trabalhar sob a crença, aliás bem antiga, de que, se a história é boa, ela vende ingressos. Ainda que não tantos quanto um filme de ação.

Seus filmes como diretor, porém, têm um elemento forte de ação ou suspense. É uma isca para a plateia?

De certa forma. Se você quer que o público fique com seu filme, tem de sustentar o interesse dele. Mas quero acreditar que a ação e o suspense nos meus filmes não são elementos enxertados na trama, e sim decorrência natural e inevitável dela. Em Argo, no centro de tudo está uma questão elementar: o risco real de vida.

Você cogitou filmar em Teerã?

Eu tinha a ambição de rodar ao menos as cenas mais essenciais em Teerã. E, sim, teria sido possível ir – exceto pelo fato de que eu não teria controle sobre o uso político a que me prestaria. Talvez minha simples presença lá pudesse ser tomada como um endosso do regime.

Tentamos contactar cineastas iranianos para que eles rodassem certos trechos para nós, mas compreensivelmente ninguém se dispôs a arriscar assim o próprio pescoço.

O que fizemos, então, foi tentar nos ater o mais fielmente possível às imagens reais da invasão, por exemplo. Que são mais poderosas do que qualquer coisa que eu poderia inventar. [Parte do filme foi realizado na Turquia.]

Argo tem uma constatação política clara a fazer: apoiar chefes de Estado convenientes do ponto de vista político mas moralmente objetáveis trará, em algum momento, consequências incontroláveis.

Constatação é a palavra certa: não me sinto no direito de dizer à plateia o que ela deve achar certo ou errado, mas creio que é minha incumbência trazer este ou aquele assunto à luz.

No caso, a questão é: vale a pena fazer negócio com ditadores, tiranos ou corruptos simplesmente porque eles estão do nosso lado ou servem aos nossos interesses? Enquanto rodávamos Argo, Hosni Mubarak estava caindo no Egito depois de trinta anos no poder, nos quais, como o xá do Irã, Reza Pahlevi, conduzira uma política de ocidentalização e boas relações.

Ou seja, sinto que a indagação continua tão oportuna quanto no período da Guerra Fria, quando esse modelo de política externa americana se originou.

Você já havia se dirigido em Atração Perigosa, mas aqui seu papel é ainda maior. Isso cria complicações adicionais?

Qualquer ator que dirija a si mesmo vai lhe dizer que às vezes é um desafio concentrar-se na emoção de uma cena quando tem de pensar também na geometria dela e coordenar uma equipe de 200 pessoas.

Mas há vantagens.

Aquelas catorze semanas de preparação do diretor antes do início da filmagem são extremamente úteis também para você como ator; e a urgência de desempenhar duas funções se traduz em mais vibração ou mais naturalidade, conforme o caso, na maneira como a cena resulta. Mas a maior de todas as vantagens, de longe, é que, quando você dirige a si mesmo, o ator e o diretor estão sempre de acordo.

11/05/2013

às 17:00 \ Livros & Filmes

DICA DE FILME: Você ainda não viu “Aventuras de Pi”? Pois vá correndo alugar!

A LUTA PRIMORDIAL -- O menino Pi (Suraj Sharma) e Richard Parker, o tigre, em um de seus 227 dias à deriva: sem o medo, a dúvida e a ameaça, conclui Pi, ele não teria razões nem meios para sobreviver

A LUTA PRIMORDIAL -- O menino Pi (Suraj Sharma) e Richard Parker, o tigre, em um de seus 227 dias à deriva: sem o medo, a dúvida e a ameaça, conclui Pi, ele não teria razões nem meios para sobreviver

Crítica de Isabela Boscov, publicada em edição impressa de VEJA

DECIFRA-ME OU DEVORO-TE

No deslumbrante As Aventuras de Pi, do diretor Ang Lee, um menino tem de dividir um bote com um tigre para se salvar de um naufrágio: o terror é o que faz o homem

 

Arrancado de seu conforto na cidade de Pondicherry, na costa sudeste da Índia, e embarcado para o Canadá junto com o pai, a mãe, o irmão e os muitos animais do zoológico da família, o adolescente Pi Patel (Suraj Sharma) se vê em uma contingência tão extrema que se pode dizer, sem exagero, que toda a condição humana está resumida nela: o navio naufraga; todos morrem; Pi se salva, mas tem de dividir o bote com um tigre-de-bengala (os outros companheiros iniciais de viagem, uma zebra, um orangotango e uma hiena, não demoram a sucumbir à lei da selva).

Pi sabe que não há instante dessa jornada em que não estará na iminência de ser devorado por Richard Parker (é como o tigre se chama, graças a um formulário de alfândega preenchido de forma desatenta). E sabe também que só no instinto de sobrevivência talvez seja páreo para ele.

Durante os 227 dias em que os dois vagam pelo oceano, então, o garoto busca firmar uma trégua territorial e existencial com Richard Parker.

E, se essa pequena sinopse não bastou para demonstrar que se está aqui no domínio da alegoria, o trabalho do cineasta Ang Lee [que ganhou o Oscar deste ano como melhor diretor] em As Aventuras de Pi (Life of Pi, Estados Unidos, 2012) logo dispersa qualquer dúvida: suas imagens arrebatadoras (e rodadas em 3D deslumbrante, a ponto de abocanhar o Oscar) fundem realismo e fantasia, céu e mar, e investigação interior e aventura com o toque seguro porém delicado que o diretor taiwanês costuma imprimir a seus melhores filmes.

(Fundem, também, ação real e computação gráfica com virtuosismo ímpar: para que seu ator principal não acabasse sendo mastigado durante as filmagens, Lee encomendou a uma equipe do tamanho de uma torcida de futebol um tigre feito em computador, mas insanamente felino em todos os pormenores e até na “aura”, por assim dizer. Não por acaso, o filme ganhou mais um Oscar — o de efeitos visuais.)

Lee é um cineasta que não se fixa em gêneros, estilos e nem sequer em temas. Se filmes tão díspares quanto Razão e Sensibilidade, O Tigre e o Dragão e O Segredo de Brokeback Mountain têm um traço em comum, este é o dom de Lee para exprimir a melancolia, o sentido do que se foi e nunca poderá ser recuperado. E é nesse particular que As Aventuras de Pi, embora muito parecido com o romance que lhe deu origem, é também tão diferente dele.

No best-seller lançado aqui como A Vida de Pi (Nova Fronteira), o autor canadense Yann Martel não faz nenhum segredo de que a fé é um ponto central de seu enredo: “Tenho uma história que vai fazer você acreditar em Deus”, diz um personagem ao narrador – um jornalista que irá entrevistar Pi já na meia-idade (interpretado então pelo magistral Irrfan Khan).

ASSIM É MAIS SEGURO -- Seria impraticável obrigar o ator Suraj Sharma a contracenar com um tigre dentro de um bote. O ateliê de efeitos digitais Rhythm & Hues teve então de criar um felino de verossimilhança infalível. A equipe modelou seu animal digital como se fosse um experimento biológico: construiu-o a partir do esqueleto, "estendeu" os músculos sobre os ossos seguindo a anatomia real dos tigres, prendeu a pele aos músculos e por fim despendeu milhares de horas/máquina toenando a pelagem realista

ASSIM É MAIS SEGURO -- Seria impraticável obrigar o ator Suraj Sharma a contracenar com um tigre dentro de um bote. O ateliê de efeitos digitais Rhythm & Hues teve então de criar um felino de verossimilhança infalível. A equipe modelou seu animal digital como se fosse um experimento biológico: construiu-o a partir do esqueleto, "estendeu" os músculos sobre os ossos seguindo a anatomia real dos tigres, prendeu a pele aos músculos e por fim despendeu milhares de horas/máquina toenando a pelagem realista

O protagonista é, desde a infância, um curioso espiritual, que pratica o catolicismo, o islamismo e o hinduísmo, todos ao mesmo tempo. Finalmente, e não menos importante, o apelido que ele escolhe para si (Piscine Molitor é seu prenome verdadeiro) é igual no som e na grafia à constante 3,14, que em certas esferas mais esotéricas da matemática acredita-se ser capaz de expressar não apenas a relação entre o diâmetro e a circunferência de um círculo, mas todos os segredos do universo.

No livro, então, Pi entra em seu bote com Deus, Alá, a multidão de divindades do hinduísmo, a ciência e o grande enigma – o tigre. O diretor Ang Lee, porém, prefere se concentrar nesse último elemento. Embora os momentos de inquirição religiosa estejam lá, tal e qual no livro, o sentimento que sobressai deles é espiritual em outro sentido – o da tentativa de entender o ser, e mais ainda de compreender por que o homem quer sempre continuar sendo, mesmo perante os mais duros testes, em face das mais tristes perdas e entre as mais eternas desesperanças.

O resultado, inesperadamente, é um filme que se eleva sobre sua matéria-prima. Seja por acaso ou não, A Vida de Pi, o livro, exala um certo aroma de autoajuda: o tigre, se assim o leitor o quiser ou precisar, pode simbolizar a doença contra a qual ele lutou, o ente querido que perdeu, a separação que o devastou, e assim por diante.

As Aventuras de Pi, o filme, tem um foco bem mais nítido: o tigre tão prosaicamente chamado Richard Parker é a dúvida – o terror, na verdade – de cuja proximidade a vida depende para ser desafiada e adquirir algum propósito ou contorno.

O tigre é o que o menino mais teme; mas, não tivesse o tigre para enfrentar, o menino nem teria virado homem, nem teria uma história a contar.

E sorte dele que quem a conta, agora, é Ang Lee, capaz de criar beleza em doses espantosas e de ser contemplativo sem aborrecer.
Como foi filmado, Richard Parker, o Tigre-de-Bengala que sobreviveu à deriva com Pi

05/05/2013

às 18:00 \ Livros & Filmes

Depois da explosão de “Cinquenta Tons…”, há muito mais (boa) literatura erótica para ler. Seis escritoras dão seis dicas

O mundo do erotismo não exclui o da boa literatura (Foto:  Bob Carlos Clarke)

O mundo do erotismo não exclui o da boa literatura (Foto: Bob Carlos Clarke)

Texto de Luciana Ackermann, publicado em edição impressa da revista Lola

SEIS TONS DE OUTRA COISA

O mundo do erotismo não exclui o da boa literatura. Seis escritoras brasileiras indicam títulos em que esses encontros acontecem

Em pouco mais de seis meses desde seu lançamento no Brasil, a trilogia formada pelos romances Cinquenta Tons de Cinza, Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade, da britânica E. L. James (Intrínseca), bateu em 3,5 milhões de exemplares vendidos. No mundo, o número está na casa dos 70 milhões – é mais gente, por exemplo, do que toda a população da Grã-Bretanha.

Mas, como se sabe, depois do ápice vem um certo vazio: o que essa multidão ávida por narrativas picantes vai ler agora? Não é preciso esperar outro arrasa-quarteirão: sensualidade e erotismo estão espalhados em bons livros, muitas vezes fora da classificação habitual de literatura erótica.

A pedido de Lola, seis escritoras indicam títulos, clássicos ou não, em que se pode explorar esses universos de desejo secretos – uns até obscuros.

PORNOGRAFIA – Witold Gombrowicz (Companhia das Letras, 2009)

“Um homem de meia-idade passa a observar um jovem casal e a construir, a partir de gestos e insinuações, uma narrativa que, mais do que corresponder à realidade, serve para manter vivo seu próprio desejo. O romance não é exatamente um exemplo do gênero, mesmo assim tem a rara felicidade de desvendar as leis do erotismo e seu mecanismo de funcionamento. Em suma, tudo está na imaginação.”

Adriana Lunardi, autora de Vésperas e A Vendedora de Fósforos, entre outros

 

 

 

DELTA DE VÊNUS — Anaïs Nin (L&PM, 2005)

“A linguagem do sexo ainda está por ser inventada. A linguagem dos sentidos ainda está para ser explorada.”

Isso Anaïs Nin escreveu em fevereiro de 1941, há 72 anos – e a carência permanece.

Há muito tempo não surge alguém como ela, capaz de reunir sexo, força, elegância, música, paixão, curiosidade e poesia em um mesmo estilo.

Em Delta de Vênus, há dois exemplos interessantes de contos em que o protagonista é homem, “Manuel” e “O Aventureiro Húngaro” – delícia de textos. Neles, não há timidez nem apelo à orgia para fingir um erotismo forçado, uma liberdade que poderia parecer falsamente pornográfica ou caricata.

Anaïs fazia do seu jeito: uma junção poética de sentimento, liberdade, sexo e perfume – os textos dela têm cheiro e sabor. E cores, muitos tons diferentes além do cinza aborrecido.”

Claudia Nina, autora do recém-lançado romance Esquecer-te de Mim

 

LOLITA — Vladimir Nabokov (Alfaguara, 2011)

“O romance me fez entender uma faceta do desejo masculino. No caso, um desejo reprovável e terrível, que só a literatura consegue trazer à tona com liberdade.

Como se trata de alta literatura, o autor consegue fazer o leitor torcer pelo ato, acompanhando aquela obsessão convencido de que o personagem precisa daquilo.

É um desejo avassalador, incontornável. Quando acontece o ato, você não tem mais dúvida de que é uma criança. O cinema não teve essa coragem. É evidente que abomino homens que transam com crianças, claro, aqui a questão é que a literatura transforma chumbo em ouro e tem o dom de colocar o leitor onde ele jamais estaria. Ao terminar o livro, só pensei que se tratava de uma obra-prima!”

Andréa del Fuego, autora de Os Malaquias, entre outros

 

PORNOPOPEIA — Reinaldo Moraes (Objetiva, 2009)

“Livros eróticos a gente acha de monte, mas este foi o livro mais incrivelmente erótico que li. Não é um livro quadrado, e muito menos com sexo como tema central. Não é nada romântico, não é pornográfico.

Na verdade, a história é suja, envolve drogas, sexo e, por causa disso, muito humor. Vale muito a pena pela ousadia e pela história, que dão o `incrivelmente’ ao erótico.”

Luisa Geisler, autora de Contos de Mentira e Quiçá

 

 

A CHAVE DE CASA — Tatiana Salem Levy (Record, 2007)

“Uma jovem que viaja para Portugal e para a Turquia (e a Turquia nem existia em novelas) a pedido do avô, levando a chave da casa que o título anuncia. É um misto de relato de aventuras, de exercício de perdas e de sofrimento físico e moral.

Mas, acima de tudo, o livro transpira erotismo: todos os sentidos são convocados e há belas, e fortes, descrições de sexo. Algumas cenas são literalmente arrebatadoras.”

Cíntia Moscovich, autora de Arquitetura do Arco-Íris e Essa Coisa Brilhante Que é a Chuva, entre outros

 

 

O COMPLEXO DE PORTNOY — Philip Roth (Companhia das Letras, 2004)

“Foi o livro que mais mexeu comigo. É muito real, você vê o personagem vivendo tudo aquilo. Você se sente ele.

Eu me senti um homem lendo. Foi incrível. Tem uma riqueza de detalhes íntimos e neuróticos sem nenhuma vergonha, sem pudor.”

Tati Bernardi, autora de livros como A Mulher Que Não Prestava e A Menina Que Pensava Demais

 

-

-

-

-

LEIAM TAMBÉM:

Sexo, sexo, sexo, do começo ao fim, no livro mais falado do momento — e o mais vendido no mundo

Entrevista com E.L. James, autora do livro mais vendido no mundo no momento: “Experimentar coisas diferentes [no sexo] com o parceiro pode ser um bocado divertido”

50 Tons de Cinza é o novo preto

05/05/2013

às 17:00 \ Livros & Filmes

Sonhar pequeno não vale a pena: as histórias dos 3 brasileiros que protagonizaram alguns dos maiores negócios do capitalismo mundial nos últimos tempos

TALENTO PARA EXPORTAÇÃO -- Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, em uma foto rara em que estão juntos, num evento de Harvard: parceria bem-sucedida há mais de 40 anos (Foto: Webb Chappell Photography)

TALENTO PARA EXPORTAÇÃO -- Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, em uma foto rara em que estão juntos, num evento de Harvard: parceria bem-sucedida há mais de 40 anos (Foto: Webb Chappell Photography)

Texto de Marcelo Sakate, publicado em edição impressa de VEJA

SONHAR PEQUENO NÃO VALE A PENA

Livro narra a trajetória do trio de empresários que criou a Ambev e protagonizou alguns dos maiores negócios do capitalismo mundial nos últimos anos. A estratégia deles é estipular metas ousadas – e persegui-las com tenacidade

A aquisição da empresa americana de alimentos Heinz, em fevereiro, pelos empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira não chegou a surpreender a comunidade internacional dos negócios. Em quatro anos e meio, eles já haviam arrematado a dona da Budweiser, a cerveja mais vendida no mundo, e o Burger King, a segunda maior rede de fast-food.

Mais importante, imprimiram a sua marca de eficiência administrativa nas duas empresas, recolocando-as no caminho dos bons resultados. Para quem os conhece há mais tempo, a compra da Heinz só reafirmou a determinação do trio. Tome-se o exemplo do americano Jim Collins, o consultor de negócios mais respeitado da atualidade. Para ele, Lemann, Telles e Sicupira já deixaram a sua marca ao lado de visionários como Walt Disney, Henry Ford, Sam Walton (Walmart), Akio Morita (Sony) e Steve Jobs (Apple).

É o que diz Collins no prefácio de Sonho Grande, da jornalista Cristiane Correa (Primeira Pessoa; 245 páginas; 39,90 reais), que chega às livrarias no próximo dia 9. O livro conta a trajetória de obstinação e competência de Lemann, Telles e Sicupira na perseguição de seus objetivos e, por que não dizer, sonhos.

Afinal, como costumam afirmar: “Sonhar pequeno dá o mesmo trabalho que sonhar grande. Então, por que não sonhar grande?”. O pensamento paira como um mantra sobre todos os negócios administrados pelo trio e sua equipe.

Para escrever o livro, Cristiane Correa conversou com uma centena de pessoas – exceto seus três personagens, historicamente avessos a entrevistas. A ascensão do trio começou em 1971, com a compra da corretora Garantia, por Lemann e outros sócios – ela se transformou no maior banco de investimentos do país. Foi a partir dali que nasceram projetos como a compra da Lojas Americanas, em 1982, e a da Brahma, em 1989.

Depois viria a fusão com a Antarctica, em 1999, que resultou na criação da Ambev. As uniões com os belgas da Interbrew, em 2004, e com os americanos da Anheuser-Busch, em 2008, deram origem à AB InBev, a maior cervejaria do mundo.

O maior mérito deles, porém, foi ter desenvolvido e disseminado um modelo de gestão com base na meritocracia, ou seja, no reconhecimento a quem trabalha duro e traz resultados e na redução de custos. Em outras palavras, na busca incessante pelos lucros e pela expansão dos negócios.

Nessa trajetória, eles formaram alguns dos melhores executivos do país. Trata-se de uma prova de que um dos sonhos do trio já é realidade: a perpetuação de sua cultura empresarial.

Lemann, de 73 anos, é de uma geração anterior à de seus dois parceiros. Filho de um imigrante suíço, fundador da fabricante de laticínios Leco (abreviação para Lemann & Company), ele nunca chegou a trabalhar na empresa do pai, optando por atuar no mercado financeiro.

Telles, hoje com 63 anos, e, depois, Sicupira, 64, foram contratados para trabalhar no Garantia em 1972 e 1973, respectivamente. Começaram por baixo, mas subiram rapidamente na hierarquia e logo conquistaram a confiança do sócio controlador. Lemann inovara ao adotar o sistema de bônus com base em metas, em vez do tempo de casa ou no cargo, e em oferecer sociedade a quem se destacasse.

Pagava salários abaixo dos de mercado, mas compensava agressivamente com a remuneração variável. O banco ganhou fama pelo ambiente competitivo e pelas longas jornadas de trabalho. Quem não se enquadrava saía logo – caso do economista Eduar­do Giannetti da Fonseca, que não durou mais de uma semana nos anos 90.

Na Brahma, uma das inspirações para dar mais produtividade aos negócios foi o modelo 20-70-10, idealizado pelo lendário Jack Welch, ex-presidente da General Electric. A cada ano, os 20% de funcionários com melhor desempenho eram premiados; os 70% seguintes mantinham o emprego; e os 10% com pior resultado eram demitidos.

A trajetória do trio não é isenta de fracassos. A venda do Garantia para o Credit Suisse, em 1998, ocorreu depois de o banco sofrer um prejuízo de 110 milhões de dólares com a crise asiática. Investidores perderam muito dinheiro, e o patrimônio dos fundos administrados caiu pela metade.

Lemann não conseguiu passar o banco para os sócios mais novos e definiu o episódio como uma de suas maiores decepções, porque a sua primeira grande criação não seria perpetuada. Mas assimilar as razões de uma falha é, obviamente, uma das virtudes dos vencedores.

04/05/2013

às 17:00 \ Livros & Filmes

DICA DE FILME, que repito porque é muito bom: A incrível história do homem paralisado que se realiza sexualmente graças a uma terapeuta

INTIMIDADE -- Hawkes, como mark, que se aventurou no sexo com todas as limitações, com Helen, como terapeuta (Foto: Divulgação)

INTIMIDADE -- John Hawkes, como Mark, que se aventurou no sexo com todas as limitações, com Helen Hunt, como terapeuta (Foto: cena de "As Sessões" )

 Resenha de Isabela Boscov, publicada em edição impressa de VEJA

Publicada originalmente no blog a 2 de março de 2013

 UM ATOR ILUMINADO

Helen Hunt foi indicada ao Oscar por As Sessões, mas é John Hawkes quem assombra no filme sobre o sobrevivente de pólio que resolve iniciar a vida sexual

Do momento em que contraiu poliomielite, aos 6 anos, até o dia em que morreu, aos 49, o poeta e jornalista Mark O’Brien nunca pôde passar mais do que três ou quatro horas seguidas fora de seu pulmão de aço – “depende de quanto eu esteja me divertindo”, diz ele a uma de suas cuidadoras, com o senso de humor brincalhão que foi a marca tanto do personagem verídico quanto da estupenda interpretação que faz dele o ator John Hawkes em As Sessões (The Sessions, Estados Unidos, 2012), em cartaz no país.

Católico devotado mas inquieto, Mark, já trintão, pede ao padre que acabou de assumir sua paróquia conselhos sobre um assunto que o vem atormentando: sexo.

Inteiramente paralisado (à exceção de um músculo no pé, outro no pescoço e outro ainda no maxilar), mas não privado de sensação, Mark vem tendo animados diálogos, por assim dizer, com seu pênis. Vez por outra, inclusive, este trava conversas inesperadas com as cuidadoras durante o banho de esponja, para profundo constrangimento do paciente.

O que Mark quer saber do padre, interpretado com medidas iguais de empatia e de perplexidade espiritual por William H. Macy, é se seria pecado ele perder a virgindade fora do casamento. O padre olha para Cristo na cruz, em busca de inspiração, e opina: é quase certo que Deus deixe essa passar.

Quem é arrebatada pela emoção da intimidade é a terapeuta

E assim começa a epopeia de Mark no campo da intimidade física – tanto mais instigante porque, sob a direção do australiano Ben Lewin, ela contém todos os obstáculos específicos a uma pessoa com graves limitações; mas, ao mesmo tempo, é a imagem posta a nu, literalmente, das coisas que se passam com qualquer homem ou mulher quando estes se despem diante de outra pessoa e a enfrentam sem contar com nada além do próprio corpo e daquilo que são.

Sem namorada (não por falta de tentativa), Mark contrata os serviços de uma terapeuta sexual especializada em deficientes físicos.

[Essas terapeutas, chamadas sex surrogates, algo como "parceira sexual substituta", surgidas nos anos 50-60 nos EUA sob enorme incompreensão, treinavam pacientes com sérios problemas sexuais -- houve casos reais de homens que, com 70 anos, ainda eram virgens -- para familiarizá-los com a intimidade e com o corpo feminino, e, não raro, mantinham um número limitado de relações sexuais com eles.]

PELA PRIMEIRA VEZ -- A terapeuta (Helen Hunt) se despe diante do paciente: ele nunca vira antes um corpo nu de mulher

No primeiro encontro, enquanto tira a roupa, Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt) explica que não é uma prostituta; trabalha por um máximo de seis sessões com cada cliente, ou menos, se o objetivo for atingido antes.

O objetivo, no caso, sendo o sexo plenamente realizado – algo que, no decorrer da breve convivência entre Mark e Cheryl, deixará de ter sentido técnico para ganhar uma dimensão que pega a terapeuta de surpresa: é ela, não ele, a pessoa mais poderosamente arrebatada pela emoção da intimidade.

EXPERIÊNCIA -- Um diretor que sobreviveu ao pólio (à esq.), em cena com um padre (Macy) perplexo (Foto: Divulgação)

EXPERIÊNCIA -- Um diretor que sobreviveu ao pólio (à esq.), em cena com um padre (o ator William H. Macy) perplexo (Foto: cena de "As Sessões" )

“O que se costuma esperar dos deficientes nos filmes é que eles sejam quase que super-heróis e façam coisas extraordinárias. Mark, porém, quando o vemos, já domou todos os aspectos necessários à sobrevivência e à superação; o que ele quer fazer, agora, é a coisa mais comum de todas – ter uma vida sexual”, resumiu a VEJA o diretor Ben Lewin, que tem 66 anos e é ele próprio um sobrevivente da poliomielite.

Misto de vergonha e desejo

Ágil com as muletas, Lewin passou um breve período da infância na dependência de um pulmão de aço, durante sua convalescença. Mas acredita que não foi esse o aspecto de sua experiência pessoal que mais o ligou ao personagem: “Esse misto de vergonha e desejo – isso é algo que um portador de deficiência provavelmente conhecerá bem. E um sentimento com o qual, feitas as contas, qualquer indivíduo tem boas chances de se identificar”.

Diz a máxima que metade do trabalho de um diretor é escolher seu elenco; se cumprir bem essa tarefa, o resto virá fácil. “Metade é uma estimativa conservadora. Eu colocaria essa fração em pelo menos 80%”, brinca Lewin, que, como boa parte do público, aliás, tinha noções não mais do que vagas sobre quem era John Hawkes quando a diretora de elenco sugeriu seu nome.

Apavorante como o caipira Teardrop de Inverno da Alma (pelo qual foi indicado ao Oscar há dois anos), enternecedoramente tímido como o comerciante Sol da série Deadwood ou apaixonante como um vendedor de sapatos (por estranho que isso soe) em Eu, Você e Todos Nós, Hawkes faz meia dúzia ou mais filmes por ano e é um ator cuja versatilidade trabalha a favor de sua reputação – mas contra sua fama.

Em As Sessões, tudo que o filme quer ser, e é, se assenta sobre seu desempenho (muito embora o ator inexplicavelmente não tenha sido indicado ao Oscar; esse privilégio ficou só com Helen Hunt). Irretocável nas minúcias físicas, o trabalho de Hawkes é grandioso, entretanto, porque faz com que, a certa altura, as restrições de seu corpo percam o peso que têm de início: é só Mark O’Brien, com seu humor, seu dom para o flerte e sua inteligência, quem conta.

Eis, enfim, um filme em que a doença determina a vida do personagem – mas não define quem ele é.

27/04/2013

às 18:00 \ Livros & Filmes

Do nudismo na Praia do Pinho à Guerrilha do Araguaia, um livro de reportagens que vale a pena ler

O jornalista Ivan Marsiglia: "talento em buscar uma apuração em regra, capricho no texto, originalidade na abordagem" (Foto: Kiko Ferrite)

VALE O QUE ESTÁ ESCRITO

Resenha de Luiz Zanin Oricchio, publicada no jornal O Estado de S.Paulo

De celebridade mesmo, só João Gilberto comparece na coletânea de textos jornalísticos A Poeira dos Outros, de Ivan Marsiglia, editor-assistente do caderno Aliás, do Estado. Os outros 19 referem-se a pessoas comuns, que seriam anônimas não estivessem de alguma forma envolvidas em fatos excepcionais.

Bem, nem todos os perfis são de pessoas, mas isso veremos depois. Dos 20 textos, 17 foram publicados no Estado, dois na revista Trip e um em Playboy.

Comecemos por João, mesmo porque o perfil que Ivan lhe dedica serve como exemplo de sua proposta jornalística. Quem lê o título adivinha em que fonte o repórter vai beber. “João Gilberto Está Resfriado” remete ao texto famoso de Gay Talese sobre o cantor Frank Sinatra, que era avesso, como nosso João, ao contato com a imprensa ou com outros seres humanos.

Talese, impossibilitado de entrevistar o genioso (e genial) artista, fez o que pôde. Ouviu gente que convivia com Sinatra e, juntando depoimentos às suas observações, escreveu o perfil que se tornou clássico do chamado jornalismo literário, “Frank Sinatra Está Resfriado”. Como acontecia que João, às vésperas de completar 80 anos, estivesse também atacado pelo banal porém incômodo vírus influenza, Ivan toma o título de Talese emprestado e o adapta aos trópicos.

O resultado é um delicioso perfil, pincelado a partir de histórias sugestivas e pitorescas.

O texto de “João Gilberto Está Resfriado” é leve, inspirado, divertido. Há outros assim, como “Carnaval na Praia dos Pelados”, escrito originalmente para Playboy, que relata a incursão do repórter à famosa Praia do Pinho, santuário nudista situado no litoral catarinense. Nesse texto, a reportagem observacional é, naturalmente, obrigatória, embora o jornalista tenha também conversado com muita gente no local.

Como ele diz, “observar, de todo modo, é o esporte predileto do Pinho”, constatação feita ao assistir a uma partida de vôlei que os jogadores, rapazes e moças, disputavam, digamos, in natura.

O tom suave e divertido deve ceder espaço ao sério e ao grave quando outros temas se apresentam, como é o caso do texto que abre o livro, “A Memória das Paredes”, que tem por centro uma casa muito especial no bairro de Caxambu, em Petrópolis (RJ). Comprada por uma família nos anos 70, ela se revelou ser a mal-afamada Casa da Morte de que falavam ex-presos políticos.

Era um tenebroso centro de tortura na época da repressão. Seguindo a indicação de uma antiga “moradora”, a presa política Inês Etienne Romeu, a casa foi identificada. Havia sido adquirida por um engenheiro e reformada. Lá, ele criou a família. Hoje, a casa foi desapropriada para futura transformação em museu sobre os anos de chumbo.

Essa reportagem, publicada sob o título “E o Direito à Memória Bateu à Porta” recebeu o 12.º Prêmio Estadão de Jornalismo na categoria Perfil. A pegada é política e discute uma questão delicada. O que vale mais: o direito de propriedade ou os interesses da memória do País?

Desse mesmo teor – e tom – é o doloroso relato que fecha o volume, “A Longa Viagem de X2″, sobre a luta de uma senhora de Fortaleza pela recuperação dos restos mortais do filho, Bergson Gurjão Farias, assassinado na Guerrilha do Araguaia. Em 1969, Bergson entrou para a clandestinidade e seus pais nunca mais o viram. Apenas em 2009, restos mortais encontrados na região do Araguaia foram reconhecidos como sendo seus.

“Passados 24 anos da redemocratização (o texto é de 2009), ainda existem cerca de 140 desaparecidos políticos no Brasil”, constata o jornalista. Nenhuma das famílias tem esperança de voltar a vê-los vivos. Mas lutam para lhes dar sepultura digna. Enterrar os mortos é a maneira simbólica de fazer o luto e voltar a viver. Recusar esse direito é punir, mais uma vez, as famílias dos desaparecidos.

O ponto de vista de uma onça, ou de um canhão da Guerra do Paraguai

A pauta do livro é bastante variada, assim como o tom adotado. O escritor pode optar pelo ponto de vista de uma onça em “Sou Suçuarana”. Ou, em “Pobre Cristiano”, traçar o “perfil” de um obus do século XIX, relíquia da Guerra do Paraguai, para discutir a questão da memória histórica na América Latina. Ou falar pelo ponto de vista da faixa presidencial, em “Com a Palavra, a Faixa”, ao evocar nossos hábitos republicanos.

O que não varia é o talento em buscar uma apuração em regra, o capricho no texto, a originalidade na abordagem e o uso de técnicas ficcionais para fins de reportagem, traços que definem o jornalismo literário. São matérias extensas para os padrões atuais do jornalismo impresso, mas que se leem com rapidez e prazer.

Quando o jornalismo tradicional se encontra na encruzilhada da internet, parece interessante apostar cada vez mais em textos desse tipo, que não apenas informam, mas interpretam e iluminam fatos sob ângulos originais. Sem o diferencial do texto, o jornalismo impresso condena-se à obsolescência.

A POEIRA DOS OUTROS (Arquipélago Editorial. 168 págs., R$38)

15/04/2013

às 2:06 \ Livros & Filmes

VENEZUELA: Apertadíssima vitória eleitoral do herdeiro de Chávez torna ainda mais oportuno e interessante este extraordinário livro sobre o “comandante” e o chavismo. Além do mais, é ótimo de ler

Maduro, agora presidente eleito: se com Chávez o chavismo já era complicado, com ele o desafio é ainda maior (Foto: Palácio de Miraflores / Reuters)

Nicolás Maduro, o presidente interino indicado pelo falecido caudilho Hugo Chávez, está eleito, como se sabe, para um mandato presidencial de seis anos — mas o que surpreendeu a opinião pública internacional foi a mínima diferença que o separou do oposicionista Henrique Capriles (50,66% dos votos para Maduro, 49,07% para Capriles), uma diferença espantosamente pequena, diante da colossal vantagem de que dispunha o candidato oficial, onipresente nos 8 canais estatais de TV e em virtual campanha eleitoral há pelo menos quatro meses.

Capriles teve míseros 10 dias para se dirigir ao eleitorado. Não por acaso, está contestando os resultados e exigindo uma recontagem de votos – tarefa inglória, uma vez que o Conselho Nacional Eleitoral, órgão responsável pelas eleições, é independente apenas no papel.

O resultado parece indicar uma complicada trajetória para Maduro — como conduzir e manter no poder o chavismo sem Chávez?

Para os muitos leitores que, constato, se interessam pelo fenômeno, acaba de ser lançado, com enorme oportunidade, um livro vital para entender a Venezuela e o chavismo, e para ajudar a imaginar como será o futuro sem o caudilho: Comandante – A Venezuela de Hugo Chávez (Editora Intrínseca, 304 páginas, 29,90 reais). É um livro raro, a começar pela isenção de quem o escreveu — o jornalista irlandês Rory Carroll, correspondente durante seis anos do jornal britânico de tom progressista The Guardian para a América do Sul, sempre baseado em Caracas.

Menos interessado em tomar partido entre chavistas e antichavistas, Carroll, jovem (40 anos) mas experiente jornalista que já viu quase de tudo na vida profissional — incluindo um sequestro sofrido no Iraque –, partiu para centenas de entrevistas com ideólogos do regime, ministros, estudiosos de todos os matizes, figurões caídos em desgraça, generais destronados, sindicalistas, integrantes de “conselhos populares” criados por Chávez, políticos de oposição e gente comum do povo.

Além das entrevistas, consultou centenas de cadernos de anotações que acumulara em caixas durante seus seis anos no país. Em vez de escrever um manifesto, contra ou a favor, alinhavou fatos e sempre indicou as fontes.

O resultado é, a meu ver, um retrato riquíssimo do Chávez caudilho (que inclui preciosidades inéditas sobre o Chávez pessoa), do chavismo e de como ficou a Venezuela após 14 anos de reinado do ex-coronel golpista.

Publico, a seguir, resenha desse grande, imperdível livro escrita pelo repórter David Blair, do tradicional jornal britânico The Daily Telegraph:

* * * * * * * * * * * * *

Nem um heroico aliado dos pobres, nem um déspota demente

Existirá palavra que traga em si mais poder de intoxicação do que “revolução”? Quando um ativista carismático proclama o advento de uma “revolução socialista” num recanto apropriadamente exótico da América Latina, a tendência de não poucos analista do Ocidente é deixar de lado a racionalidade.

Assim foi com Fidel Castro e, talvez inevitavelmente, com Hugo Chávez, o autodefinido presidente “revolucionário” da Venezuela, que morreu de câncer no dia 5 de março passado. Para muita gente, Chávez foi de duas, uma: ou um heroico aliado dos pobres ou um déspota demente, com poucos conseguindo ficar no meio desses dois extremos.Comandante

A possiblidade de que Chávez possa ter sido uma figura complexa, um ser humano real capaz do praticar o bem e de fazer o mal perdeu-se entre personalidades como o ex-prefeito socialista de Londres Ken Livingstone, que o saudou certa vez como “amigo e camarada”, ou John Bolton, o rei dos neocons norte-americanos, que chegou a denunciar Chávez como uma “ameaça global”.

Na verdade, o ex-prefeito de Londres e o fiel escudeiro de George W. Bush tinham mais em comum do que qualquer dos dois quisessem admitir. Ambos julgaram Chávez com seus próprios preconceitos ideológicos e com a insustentável leveza de quem vive a milhares de quilômetros da Venezuela.

Rory Carroll, correspondente para a América do Sul do jornal britânico The Guardian baseado em Caracas, entre 2006 e 2012, realmente viveu o dia-a-dia venezuelano e tenta demolir a figura caricatural de Chávez como modelo de perfeição como vilão no livro Comandante – A Venezuela de Hugo Chávez. Carroll, irlandês, 40 anos de idade, consegue oferecer uma visão equilibrada e repleta das necessárias nuances de Chávez e sua “Revolução Bolivariana”.

Paralalamente a isso, porém, o autor consegue ir mais longe. Além de traçar um raro e detalhado retrato pessoal e político de Chávez, este livro extremamente bem escrito e dotado de fina percepção equivale a uma meditação sobre a natureza do poder, e os extremos de absurdo e corrupção que ele pode encerrar.

Na TV, Chávez anuncia: foi o “imperialismo” que destruiu a civilização que havia em Marte

No livro, o leitor vai se deparar com batalhões de subalternos de todos os matizes às voltas com os incontáveis dilemas que significam servir a um homem que se comportava como um monarca absoluto.

Para sobreviver na corte do Rei Chávez, os ministros precisavam “transformar as expressões faciais em máscaras, arranjar os traços em expressões apropriadas quando diante de uma câmera ou na linha de visão do comandante”, escreve Carroll. “Isto”, acrescenta, “era traiçoeiro quando o comandante fazia algo bobo ou bizarro porque a resposta requerida poderia contrariar o instinto”.

E ele, efetivamente, fazia coisas bobas ou bizarras. Chávez conduzia um programa semanal de TV intitulado Alô, Presidente, que tinha hora para começar mas nunca para terminar. Seu recorde foi permanecer nove horas e meia consecutivas no ar, ao vivo. Certa vez, num dos programas, ele anunciou que uma próspera civilização havia existido em Marte até que “o imperialismo chegou e destruiu o planeta”.

Chávez ao vivo pela TV: seu recorde foi permanecer 9 horas e meia no ar, sem interrupções. E ali chegou a demitir altos funcionários expulsando-os de campo com um apito, como juiz de futebol (Foto: Palácio de Miraflores)

Como deveriam seus ministros reagir ao histrionismo do comandante? “Mesmo para veteranos na audiência, muitas vezes não ficava claro se se tratava ou não de uma piada”, escreve Carroll. “Então eles faziam cara de paisagem, à espera de que a situação se esclarecesse. Mas isso nunca acontecia: o comandante mudava de um assunto para outro sem parar”.

Esse tipo de dificuldade certamente contribuiu para que, durante seu reinado, Chávez tenha tido 180 ministros.

Com apito de juiz de futebol, e ao vivo, ele demitia ministros

Chávez lançava mão de seu programa de TV para anunciar demissões ou promoções, abolir ministérios inteiros, expropriar empresas e, em uma ocasião pelo menos, mobilizar as Forças Armadas contra a Colômbia.

[De outra feita, Chávez demitiu ao vivo, perante todo o país, figurões do governo, executivos graúdos da gigante petrolífera estatal PDVSA, sem avisá-los previamente. “Eddy Ramírez, diretor geral, até hoje, da divisão Palmaven [energia elétrica] (…), muito obrigado. O senhor está dispensado!” E soprou um apito, como se fosse um juiz de futebol mandando um jogador para o vestiário. O público ovacionou, e o ‘comandante’ continuou seguindo a lista: (…) “Carmen Elisa Hernández. Muito, muito obrigado, señora Hernández, pelo seu trabalho e serviço”. A voz destilava sarcasmo, e ele soprou o apito de novo: “Impedimento!“]

Carroll foi convidado do presidente no capítulo 291 do programa de TV. Ele teve a ousadia de perguntar a Chávez por que ele estava propondo ao Legislativo uma emenda à Constituição permitindo sua reeleição por um número indeterminado de vezes, sem contudo estender a mesma possibilidade a governadores e prefeitos.

“Ele lançou a pergunta para o mar, para além do horizonte [o programa se realizava numa pequena cidade do litoral], e a transformou numa arenga contra os males da mídia tendenciosa, da hipocrisia europeia, da monarquia, da rainha da Inglaterra, da Marinha Real, da escravidão, do genocídio e do colonialismo”, conta o jornalista.

Chávez e sua multidão de seguidores: o "socialismo bolivariano" foi conduzido por um "autocrata eleito", diz o autor do livro (Foto: patriagrande.com.ve)

A roubalheira, uma marca corrosiva

Enquanto isso, os ministros que trabalhavam para um homem que mandava gravar seus telefonemas e não raro os demitia por mero capricho tornaram-se figuras risíveis e dignas de pena. “O sucesso – conseguir uma posição cobiçada – acabava se tornando um inferno”, escreve Carroll.

Não é de admirar que tanta gente tenha optado por rechear seus bolsos com a renda do petróleo da Venezuela, juntando-se a um festival de corrupção que se tornou a marca mais corrosiva do reinado de Chávez. [O que o livro descreve em matéria de roubalheira, inclusive por parte de generais das Forças Armadas, faz o Brasil parecer um país de conto de fadas.]

Ainda assim, em meio a absurdos e excessos, o comandante continuou sendo um líder eleito, sujeito a constante crítica por parte de uma barulhenta imprensa de oposição. Carroll isenta Chávez de ser um ditador: ele, na verdade, apesar de tudo — sustenta o jornalista –, ganhou quatro eleições e não havia gulags ou câmaras de tortura na Venezuela.

Expurgo no Judiciário e lista negra

Mas Carroll descreve detalhadamente como Chávez feriu seus críticos, expurgou o Judiciário e utilizou uma lista negra com as 3 milhões de pessoas que assinaram um manifesto em 2003 pedindo um plebiscito revogatório — medida prevista na Constituição e que significa votar pela saíde de um político eleito.

Funcionários públicos que puseram seus nomes no fatídico documento foram demitidos, muitas outras pessoas foram caluniadas e perseguidas. Carroll acaba fazendo a Chávez a concessão de descrevê-lo como “um autocrata eleito”.

Um flerte com o suicídio

Ao longo de seu trabalho, o jornalista oferece uma memorável série de passagens. Como Chávez encurralado no subterrâneo do Palácio Miraflores durante um levante popular que acabou, via golpe de Estado, sacando-o do poder por efêmeras 48 horas. Durante um breve momento, ele fixou o olhar numa pistola e pensou em suicídio, voltando à razão após um telefonema de Fidel Castro.

Também ficamos sabendo como o general Raúl Baduel, o oficial que resgatou Chavez naquele momento de crise, congregando as Forças Armadas para restaurar o poder do comandante, foi mais tarde demitido de seu cargo de ministro da Defesa e jogado numa cela de prisão, por suposta acusação de corrupção.

O amigável âncora do programa de TV que construiu clínicas nas favelas, recheando-as de médicos importados de Cuba, acabou sendo moldado pelo poder em um dirigente cruel e vingativo.

Agora que o comandante morreu, Carroll terá que atualizar seu relato. Quando ele o fizer, este livro merecerá ser o trabalho definitivo sobre Chávez.

(Nota do colunista: tecnicamente, o jornalista Rory Carroll — hoje correspondente do jornal em Los Angeles, nos EUA — atualizou o livro nas páginas finais, descrevendo algo brevemente a doença e a lenta agonia de Chávez até  sua morte. O autor desta resenha, porém, se refere a como o chavismo sobreviverá à morte do caudilho, o que com certeza demandará algum tempo e merecerá alguns capítulos a mais na provável reedição da obra).

06/04/2013

às 18:00 \ Livros & Filmes

LIVRO QUE ESTÁ EXPLODINDO DE VENDER: ‘Garota Exemplar’ leva às ultimas consequências os perigos do casamento

A escritora Gillian Flynn (foto: Heidi Jo Brady)

A escritora Gillian Flynn (Foto: Heidi Jo Brady)

Resenha de Raquel Carneiro publicada no blog Veja Meus Livros

“GAROTA EXEMPLAR” LEVA ÀS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS OS PERIGOS DO CASAMENTO

O novo livro da jornalista americana Gillian Flynn, Garota Exemplar (Intrínseca), segue a linha de mistério de suas duas obras anteriores, Sharp Objects e Dark Places, e apresenta um thriller intrigante sobre uma esposa desaparecida, um marido suspeito e um complicado caso a ser resolvido.

A obra ganhou notoriedade ao anotar no currículo a proeza de desbancar Cinquenta Tons de Cinza do primeiro lugar dos mais vendidos do site da Amazon e entrar para o topo da lista de bestsellers do New York Times.

3 milhões de exemplares em 37 semanas

Lançado em junho de 2012 nos Estados Unidos, o livro vendeu em 37 semanas três milhões de exemplares.O feito rendeu à sua autora um contrato para adaptar a história para o cinema pela produtora da atriz Reese Witherspoon, que se encaixaria com perfeição no papel principal, mas ainda não confirmou se atuará ou não no longa. David Fincher (A Rede Social, Os Homens que Não Amavam as Mulheres) está em negociação para assumir a direção.

Lançado em março no Brasil, a história foca em Nick e Amy Dunne, casal que vive à risca o papel de um conto de fadas moderno, com seus hábitos de estilo cult e metropolitanos na cidade de Nova York. Ambos gostam de se destacar dos demais casais comuns, aparentando uma relação tranquila, despreocupada e que parece não exigir esforços.

O rumo da história muda quando Nick, um jornalista cultural, enfrenta a crise que atinge a profissão e é demitido da revista em que trabalha. Amy, que é psicóloga, mas também trabalhava escrevendo para uma publicação feminina, passa pelo mesmo destino e perde o emprego.

Ao contrário do marido, Amy é uma garota rica e por isso não se preocupa tanto com a situação. Seus pais construíram um império ao escrever uma série de livros infantis chamados Amy Exemplar, claramente inspirados na filha.

De repente, sem dinheiro e sem perspectiva

As obras renderam uma fortuna à família e Amy poderia viver tranquilamente com o marido por um longo período por causa desse dinheiro. O que eles não imaginavam é que os pais da jovem eram péssimos administradores e acabaram gastando quase todas as economias para saldar dívidas.

Diante das circunstâncias, soma-se o fato de a mãe de Nick estar com câncer e precisar de ajuda em uma cidade no interior de Missouri. Sem dinheiro e sem perspectiva, o perfeito casal nova-iorquino precisa abandonar toda a vida construída até então para se mudar para um lugar provinciano e altamente afetado pela crise financeira nos Estados Unidos, que se arrasta desde 2008, e gerou um elevado índice de desemprego na região.

Os problemas minam o amor do casal, que se entrega ao marasmo e a uma vida distante do que sonhou para si.

Um desaparecimento e um suspeito: o marido

Insatisfeita com o relacionamento, Amy decide preparar uma surpresa para o marido no aniversário de cinco anos do casamento. Porém, ao chegar em casa, Nick encontra uma sala revirada, sinais de luta e sua esposa desaparecida. No desenrolar da história, o caso ganha notoriedade nacional, e a polícia, a mídia e toda a população do país apontam o marido como o principal suspeito do desaparecimento e possível morte de Amy.

Este é o quadro inicial do livro Garota Exemplar. Assim como os personagens principais, Gillian Flynn também escrevia para uma revista cultural sediada em Nova York, a Entertainment Weekly, e passou dez anos como crítica de cinema e TV na publicação. Mais tarde, decidiu se dedicar totalmente à carreira de escritora de ficção e demonstrou uma queda por histórias com assassinatos e personagens psicologicamente instáveis.

A obra é organizada em capítulos intercalados com Amy e Nick como narradores.

O primeiro a expressar seu ponto de vista sob a história é Nick, que já está enfadado com o casamento e infeliz pela situação de abandonar a cidade grande e perder o emprego.

Felicidade no início, frieza no fim

No capítulo seguinte, a voz passa para Amy e suas memórias em um diário, retratando como foi conhecer Nick e como nasceu o romance entre eles. A dinâmica interposta se mantém até o final, e enquanto Amy relata a felicidade do início, Nick mostra a frieza da relação no presente.

O jovem amor de Amy vai amadurecendo, enquanto Nick, após perder a esposa, revive o passado na mente e renova seus sentimentos. Isso cria um gráfico, de um lado crescente e do outro decrescente – em certo ponto, os lados se encontram para caminhar juntos e lineares em emoção e também em cronologia até o final.

Gillian brinca com o leitor, que se vê constantemente enganado pelos personagens, ambos mentirosos e cheios de segredos que se revelam ao longo da história.

A leitura prende

Personalidades ora admiráveis, ora maquiavélicas, em um jogo de manipulação constante que tenta convencer o leitor — e os outros personagens do livro — a torcer por um deles e separar qual é o vilão e qual é o mocinho.

A leitura prende e a cada fim de capítulo o instinto é continuar lendo para descobrir o que vem em seguida. Sem gorduras desnecessárias na construção, a história é repleta de acontecimentos surpreendentes, porém peca no final, que destoa do restante do enredo para cair no lugar comum.

Mas isso não desqualifica o livro como bom entretenimento. E seus personagens, bem construídos e envolventes, garantem o ritmo da obra e plantam a dúvida sobre os perigos de viver e dormir com alguém que te conhece tão bem – e que, ao mesmo tempo, pode se tornar seu pior inimigo.

“Querido marido, é agora que aproveito o momento para dizer que o conheço melhor do que você jamais poderia imaginar. Sei que algumas vezes você acha que desliza por este mundo sozinho, sem ser visto, sem ser percebido. Mas não acredite nisso nem por um segundo. Eu analisei você. Sei o que vai fazer antes que faça.”

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados