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Livros & Filmes

13/05/2012

às 12:05 \ Livros & Filmes

Livro: os dilemas de uma família americana aos pedaços

“Uma Providência Especial”

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Uma Providência Especialde Richard Yates (tradução de Cássio de Arantes Leite; Alfaguara; 301 páginas; 39,90 reais)

Na linha de Ernest Hemingway e Norman Mailer, o americano Richard Yates (1926-1992) sempre apresentava como protagonista um homem viril e, ao mesmo tempo, debilitado por alguma circunstância além de seu controle.

Foi Apenas um Sonho, seu primeiro romance, publicado em 1961 (e levado ao cinema em 2008, numa adaptação com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), abordava o cotidiano de um homem que, sufocado no trabalho, faz planos – os quais nunca pretende cumprir – de se mudar com a mulher igualmente insatisfeita para Paris.

Uma Providência Especial, o segundo livro de Yates, de 1969, evidencia outra constante do autor: o retrato dos subúrbios americanos. Pela primeira vez traduzida no Brasil, a história é protagonizada por dois personagens – Robert Prentice, jovem soldado que adora arranjar problemas com seus companheiros, e sua mãe, Alice, artista plástica que só amarga fracassos na carreira.

A junção de ambos ilustra os dilemas de uma família americana aos pedaços.

(Resenha publicada na seção VEJA Recomanda da versão impressa da revista)

12/05/2012

às 17:43 \ Livros & Filmes

Livro: “Shantaram”, uma visão pulsante e vigorosa da Índia vista do submundo — e escrita por um ex-criminoso

(Resenha publicada na seção VEJA Recomenda da revista impressa)

Shantaram, de Gregory David Roberts (tradução de Livia de Almeida; Intrínseca; 912 páginas; 59,90 reais)

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capa: Shantaram

O australiano Gregory David Roberts começou a praticar assaltos para sustentar seu vício em heroína. Acabou preso e condenado a dezenove anos de prisão – mas conseguiu escapar de um presídio de segurança máxima, em 1980.

Tornou-se um refugiado internacional: foi morar em Bombaim (hoje Mumbai), na Índia, onde se envolveu com a máfia local. Roberts acabaria preso na Alemanha e extraditado de volta à Austrália, onde cumpriu afinal sua pena.

Versão romanceada das aventuras do criminoso viajante (que aqui se chama Lin), Shantaram vendeu mais de 3 milhões de exemplares no mundo. Foi lançado no Brasil há alguns anos, sem grande repercussão, e agora volta em uma nova (e melhorada) tradução.

O livro ganharia com alguns cortes e uma edição radical dos clichês. Mas é, ainda assim, uma descrição pulsante e vigorosa da Índia, com toda sua exuberância e pobreza, vista do submundo – cuja violência, aliás, espanta até o protagonista bandido.

O linchamento de um motorista que causou um acidente de trânsito em Bombaim e o mercado de crianças escravas são cenas especialmente impactantes.

12/05/2012

às 15:00 \ Livros & Filmes

Livro: com a leveza de um romance, a história do triângulo amoroso de D. Pedro I com a mulher e a amante

A Carne e o Sangue

TRIÂNGULO HISTÓRICO

(Resenha de Jerônimo Teixeira publicada na edição impressa de VEJA)

A relação de dom Pedro I com Leopoldina, a imperatriz, e com a marquesa de Santos, sua amante, é reconstituída com detalhes pela historiadora Mary Del Priore

 

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"A Carne e o Sangue"

O triângulo amoroso que teve como vértices o primeiro imperador do Brasil, sua consorte e sua amante foi um desses eventos privados que acabaram influindo sobre os destinos coletivos de uma nação.

A ligação de dom Pedro I com Domitila de Castro, a determinada senhora paulista que ele elevaria a marquesa de Santos, causou escândalo na corte brasileira, com repercussões negativas para a imagem internacional do soberano que declarara a independência do Brasil.

E as imposições da política e da moral daquele início de século XIX revelaram-se particularmente devastadoras para a arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina, agrilhoada pelo casamento nobiliárquico a um país com o qual nunca se identificou e humilhada pelas aventuras sexuais do marido folgazão.

É esse enredo ao mesmo tempo político e familiar que a historiadora Mary Del Priore desvenda no envolvente A Carne e o Sangue (Rocco; 272 páginas; 34,50 reais).

“A história do país por meio de uma história de amor”

Autora de Histórias Íntimas, abrangente e saborosa revisão da sexualidade ao longo da história brasileira, Mary pesquisou extensa documentação, em grande parte inédita, sobretudo no arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, para compor uma narrativa rigorosamente amparada nos documentos, mas também dotada da leveza de um bom romance.

Há várias citações da correspondência dos três protagonistas e um vasto elenco de testemunhas privilegiadas – nobres, diplomatas, políticos, cortesãos, viajantes estrangeiros. “Busquei contar a história do país por meio de uma história de amor. E deixei que os atores históricos falassem”, disse a autora a VEJA.

GRAVURA DE LEOPOLDINA ARQUIDUQUESA D'AUSTRIA DE JEAN FRANCOIS BADOUREAU

Gravura de Leopoldina, arquiduquesa D'Áustria, imperatriz do Brasil, por Jean François Badoureau (Imagem: Coleção)

O título faz referência às funções específicas da amante e da esposa no clássico arranjo das cortes reais: a primeira deleita o soberano com os prazeres da carne, enquanto a segunda se dedica ao sexo somente para dar continuidade à linhagem do sangue – ou seja, para fins reprodutivos.

Pertencente à ancestral casa dos Habsburgo e filha do imperador Francisco I da Áustria, um bastião do absolutismo em um continente sacudido por ventos liberais, Leopoldina chegou ao Brasil de dom João VI em 1817. Sua expectativa era conhecer seu jovem e impetuoso príncipe em terras americanas para mais tarde retornar à Europa, onde no devido tempo seria rainha em Portugal.

Os temores da sobrinha-neta de Maria Antonieta

Acabou se vendo envolvida no tumultuado nascimento do Brasil como nação – e no novo país morreria, em 1826, aos 29 anos. Fiel a um ideal religioso de submissão às vontades do marido, ela o apoiou ao longo das delicadas manobras que conduziram à Independência, em 1822.

Mas as cartas que mandava a pessoas queridas na Europa revelam que ela via com reticência o ímpeto liberal que despontava entre alguns partidários da Independência, incluindo-se aí o próprio imperador dom Pedro I. Com algum alarmismo, via em cada conflito entre os nativos brasileiros e os portugueses ainda fiéis à antiga metrópole colonial uma possível reedição dos sangrentos eventos revolucionários da França no século anterior.

Leopoldina, afinal, era sobrinha-neta de Maria Antonieta, a rainha decapitada.

 

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PODER, SEXO E MELANCOLIA -- Dom Pedro I, a imperatriz Leopoldina (acima) e a marquesa de Santos (abaixo), vulgo "Titília": escândalos de alcova e humilhações na corte da jovem nação brasileira (Imagem: Museu Paulista)

Cartas com detalhes sórdidos

Solitária, isolada, devotada apenas a parir um herdeiro para o trono – o futuro dom Pedro II nasceria em 1825 -, Leopoldina tornou-se cada vez mais depressiva. A ligação escandalosa do marido com Domitila (ou “Titília”, como ele a chamava na intimidade) contribuiu para esse quadro.

A sedução da marquesa de Santos parecia ter o efeito de um sortilégio sexual sobre o imperador. As cartas que os dois trocam são cheias de alusões eróticas, desenhos pornográficos e até detalhes sórdidos – dom Pedro relata à amante os sofrimentos que padeceu por causa de uma gonorreia.

Não satisfeito em tê-la como amante em um ninho de amor próximo ao paço real, dom Pedro I quis oficializar a ligação com Titília, impondo sua presença à corte – e à miserável imperatriz. Inspirava-se anacronicamente em monarcas franceses como Luís XIV, que incorporaram suas “favoritas” à corte. “Ele não percebia que as favoritas já estavam fora de moda nas cortes europeias”, diz Mary.

A opinião pública brasileira, nascente mas vigorosa na forma de pasquins e panfletos, não perdoou as indiscrições do monarca. Depois da morte de Leopoldina, a muito custo, dom Pedro I acabou determinando o retorno da marquesa do Rio para São Paulo. Foi a condição para o casamento com a princesa Amélia, que seria a nova imperatriz.

 

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A marquesa de Santos (Imagem: Museu Imperial)

O soberano voluntarioso, sua consorte melancólica e sua amante audaciosa não são exatamente personagens simpáticos. A Carne e o Sangue, porém, reveste-os de irresistível fascínio. É com essa matéria pobre, vulgar mas sempre humana, que a história é feita.

07/05/2012

às 12:03 \ Livros & Filmes

Reportagem imperdível da revista BRAVO!: FHC fala de sua longa relação com Dona Ruth — “ela me ensinou muito” –, de seu valor intelectual, de sua obra, do papel da mulher em sua vida. E não deixa de abordar nem infidelidade conjugal

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Fernando Henrique e Ruth Cardoso em 1982, na cidade norte-americana de Berkeley. A professora dizia, brincando, que a imagem é falsa porque FHC nunca lavou louça (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livro

(Reportagem de Armando Antenore publicada pela revista Bravo!, da Editora Abril)

As cenas ainda se espalham pela internet, em resquícios de telejornais e inúmeras fotografias: na Sala São Paulo, a grandiosa casa paulistana de concertos, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aproximou de um prostrado Fernando Henrique Cardoso, que olhava o corpo inerte da mulher.

A antropóloga Ruth Cardoso, de 77 anos, morrera um dia antes. Portadora de doença coronariana, sofreu uma arritmia cardíaca grave e desmaiou na cozinha do apartamento que dividia com o marido. Quando o socorro chegou, já não havia o que fazer. Eram 20h40 de uma terça-feira bastante fria.

Na quarta, 25 de junho de 2008, ao longo do velório, Fernando Henrique não se cansava de acariciar a fronte de Ruth e tirou os óculos diversas vezes para enxugar as lágrimas. Mal avistou Lula, permitiu que o sucessor lhe desse um abraço prolongado. O petista ficou na cerimônia por uns 30 minutos.

Ao partir, consolou novamente o tucano e lhe disse: “Se precisar de mim, peça. Estou à disposição”. Durante aquele breve período, os dois principais líderes políticos do Brasil contemporâneo baixaram armas e abdicaram das farpas que costumam trocar.

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A pesquisadora na década de 1940, em Araraquara (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

O velório atraiu, igualmente, acadêmicos de múltiplas tendências e variados espécimes do Distrito Federal, alguns até mais antagônicos do que Lula e FHC. Navegantes das redes sociais, blogueiros e a mídia convencional enxergaram na comunhão temporária de adversários um símbolo daquilo que Ruth despertou enquanto viveu: a unanimidade.

Conforme tais interpretações, a ex-primeira-dama e uma das fundadoras do PSDB se notabilizou por conquistar, dentro e fora da universidade, o respeito e a admiração de gregos e troianos, seja sob a faceta de professora e orientadora, seja à frente do Comunidade Solidária.

O programa do governo Fernando Henrique, engendrado pela antropóloga, estimulou as ações conjuntas entre ONGs, empresários, movimentos populares e o Estado com o objetivo de erradicar a pobreza.

Como poetas, romancistas, músicos e pintores, os intelectuais – e os políticos – sobrevivem à morte não apenas em razão do que produziram mas também graças à imagem póstuma que se constroi deles. A da pesquisadora ganhou os contornos iniciais justamente na Sala São Paulo.

Em setembro de 2009, o desenho adquiriu maior nitidez com a criação do Centro Ruth Cardoso, que se impôs a meta de preservar e disseminar o legado da homenageada. Um ano depois, apareceu Fragmentos de uma Vida, perfil da docente que a editora Globo encomendou para o escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Depois, chegou às livrarias Ruth Cardoso – Obra Reunida. A coletânea de 567 páginas, lançada pela Mameluco, agrupa todos os artigos acadêmicos da ex-primeira-dama. São 41 textos – o mais velho, de 1959; o mais recente, de 2004. A antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira, amiga e discípula de Ruth que leciona na Universidade da Califórnia, em Berkeley, se encarregou de organizar e apresentar o volume.

Um time de quatro renomadas pensadoras a ajudou: Céline Sachs-Jeantet, Esther Império Hambúrguer, Eunice Ribeiro Durham e Helena Sampaio.

 

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Fernando Henrique e Ruth na década de 1950. À época, os dois estavam noivos (Foto: Acervo Particular)

Quem vasculha o site do Centro, atravessa o perfil assinado por Loyola ou destrincha o prefácio da coletânea sai com uma impressão francamente positiva da professora. Sobram aprovações, faltam pontos de vista menos parciais.

Espirituosa, discreta, sempre atenta às novidades, educadora nata, cosmopolita, vocacionada para a atuação em equipe, interlocutora brilhante, exímia dona de casa, mãe e avó carinhosas são as qualificações que vêm à cabeça de internautas e leitores. Uma boutade, cunhada pela própria Ruth, resumiria à perfeição o seu caráter, segundo Loyola. “Isto não está de acordo com nossos padrões araraquarenses”, proclamava, irônica, quando se flagrava diante de circunstâncias em que o recato e a ética despencavam ladeira abaixo.

O gracejo, claro, se refere à cidade do interior paulista onde a acadêmica nasceu e se criou. Ela só trocaria Araraquara pela capital do estado em 1946, aos 15 anos, para ingressar num tradicional colégio católico, o extinto Des Oiseaux.

 

Cozinhas comunitárias

Filha única de um guarda-livros com uma farmacêutica que dava aulas de botânica, química e biologia, Ruth Corrêa Leite Cardoso estudou ciências sociais entre 1949 e 1952. À época, as turmas que frequentavam o curso da Universidade de São Paulo somavam uma dúzia de alunos, se tanto.

Foi também na USP que, em 1957, a jovem socióloga virou assistente do lendário Egon Schaden, catedrático de antropologia. Começou, assim, uma duradoura carreira no ensino superior. Perto de intelectuais da mesma geração, escreveu pouco e publicou menos ainda. Divulgou o grosso de seus ensaios nos círculos restritos da “alta cultura”: mesas de reuniões científicas, jornais e revistas de pequena tiragem, seminários e debates. Sobressaiu-se bem mais como orientadora de pós-graduandos e como agente política em contínuo diálogo com a sociedade civil.

 

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Em 1954, com o primeiro filho, Paulo Henrique. Depois nasceriam Luciana e Beatriz (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

Pioneira da antropologia urbana

Muitos lhe conferem o mérito de introduzir no país a antropologia urbana – pioneirismo que assumiu junto de Eunice Durhan, Gilberto Velho e outros. Investigando as cidades, se interessou por detectar e analisar processos socioculturais emergentes, capazes de transformar o cotidiano, em especial o das áreas pobres.

Não à toa, se debruçou sobre a rotina das favelas, a integração dos migrantes japoneses no Brasil, as novas configurações da juventude, o feminismo, os meios de comunicação, o terceiro setor, as cozinhas comunitárias e a adoção de crianças pelas classes baixas.

Em fevereiro de 1953, se casou com FHC, que mais tarde despontaria como sociólogo. Os dois geraram Paulo Henrique, Luciana e Beatriz.

Não raro, a trajetória do marido exigiu renúncias da antropóloga. De 1964 a 1968, por exemplo, Ruth morou no Chile e na França, já que a ditadura militar empurrou Fernando Henrique para o exílio. O afastamento compulsório da USP fez a pesquisadora adiar o doutorado, só concluído em 1972.

Na década de 1990, voltou a abandonar as pesquisas, agora premida pela eleição do cônjuge à Presidência da República, de que tomaria posse em 1º de janeiro de 1995. Tornou-se primeira-dama a contragosto, mas acabou revitalizando a função, que exerceu durante oito anos (1995-2003). Até então, nenhuma intelectual alcançara aquele status no país. De modo idêntico, nunca a mulher de um presidente concebera e dirigira um programa social tão intrincado e abrangente quanto o Comunidade Solidária.

 

O panegírico desumaniza a pessoa morta

Semanas atrás, o jornalista e curador Marcelo Rezende, colaborador de BRAVO!, redigiu um artigo em que comenta o abrupto e prematuro falecimento de outro jornalista: Daniel Piza. A reflexão se encontra no blog do Instituto Moreira Salles. Ali, Rezende analisa o substantivo “panegírico”: “Trata-se de um discurso, de uma louvação (…). É geralmente aquilo que os vivos decidem realizar quando estão diante da evidência concreta da morte”.

Tributos do gênero, pondera o autor, transcendem o mero elogio, uma vez que se escoram apenas no superlativo. O panegírico desumaniza o morto. Santifica-o, lhe esculpe feições de herói. Já o elogio “permite a contradição, o contraponto infeliz na existência de alguém e do personagem desse mesmo alguém”. Certamente, Ruth Cardoso merece vários dos adjetivos risonhos que lhe imputam. Mas será que fazia jus aos exageros? Como ela própria avaliaria a mitificação latente nos panegíricos que inspirou?

Para discutir a questão e relembrar a professora, BRAVO! entrevistou Fernando Henrique durante três horas, em São Paulo. Uma parte da conversa ocorreu no instituto que leva o nome do sociólogo, no centro da cidade. A outra, no apartamento no bairro de Higienópolis onde o ex-presidente, 80 anos, viveu com a antropóloga.

 

O legado intelectual

Está em curso um movimento para consolidar a imagem de dona Ruth Cardoso como a de uma figura exemplar…

[Interrompendo o repórter] Sim, mas nenhuma iniciativa partiu da família. As homenagens nasceram de maneira espontânea. São os amigos, os alunos e os colaboradores de Ruth que se atribuem a tarefa de reverenciá-la. Eu e meus filhos não pedimos nada a ninguém.

 

De que modo a ex-primeira-dama reagiria diante de tantos aplausos? O senhor já pensou no assunto?

Já. Imagino que reagiria bem, ainda que timidamente. Ruth não almejava os holofotes. Nunca sonhou, por exemplo, que implantariam uma cátedra com o nome dela na Universidade Columbia, em Nova York, como aconteceu há uns três anos. Aquela antropóloga toda aplicada, na verdade, não se preocupava nem sequer em arquivar o que escrevia. Não ficava lambendo a cria. Era mais desleixada do que eu nesse sentido – e menos autoconfiante. Padecia de insegurança.

 

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A antropóloga e o sociólogo em 1965, no Chile, onde moravam. Eles haviam deixado o Brasil por causa da ditadura (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Insegurança? Não dava a menor impressão.

De fato: os inseguros costumam parecer afirmativos. No fundo, Ruth ignorava o próprio valor. Não possuía uma autoestima muito elevada. A minha sempre se revelou maior.

Tanto que, em casa, meus filhos brincam: “Pai, você precisa fazer uma lipoaspiração no ego!” [risos] É engraçado… As pessoas me chamam de vaidoso, de ambicioso, de sei lá o quê. Falam que, desde criancinha, eu queria ocupar a Presidência. Bobagem! Pura fantasia! Quando jovem – e mesmo na maturidade -, jamais cogitei me eleger presidente.

As coisas foram se desenrolando. Tampouco me considero vaidoso. Ou, pelo menos, não do jeito que o senso comum define a palavra. Tenho vaidade intelectual. Sob outros ângulos, porém, sou mais descuidado do que cuidadoso. Não cultivo vaidade física, pessoal. Nunca liguei além da conta para esse negócio de roupa, de elegância.

 

Dona Ruth se sentia insegura em que aspectos?

Apenas intelectualmente. No papel de mulher, de mãe ou de professora, não. Desempenhava-os com tranquilidade e confiança. Só nutria dúvidas sobre sua competência como pensadora.

 

Por isso escreveu pouco?

É provável. Ela adorava lecionar. Preparava as aulas demoradamente, expressava-se bem em classe, zelava pelos alunos. Entretanto, sofria para escrever. Talvez até desconhecesse o prazer da escrita. Era muito crítica. E quem é muito crítico acaba se descobrindo autocrítico demais.

Não por acaso, Ruth normalmente rejeitava o que produzia – rabiscava o texto, mexia e remexia nas frases, torturava-se. Também não ambicionava publicar. Tinha ideias relevantes, mas nem sempre julgava necessário estruturá-las num ensaio, construir teorias. Preferia ensinar, fazer observações de campo e agir socialmente.

 

O senhor, em contrapartida, escreveu bastante e publicou trabalhos de grande repercussão. Conviver com um intelectual tão fértil inibiu dona Ruth?

Não acredito. Tratava-se mais de uma exigência dela em relação a si própria. Mesmo porque nós não competíamos. Pelo contrário: nos ajudávamos, um apoiava o outro. Encontro tanto casal disputando espaço… Nós, não.

Eu, inclusive, mostrava a Ruth tudo o que escrevia: livros, ensaios e artigos de jornal. Ela os lia antes da publicação. E opinava, corrigia, discordava.

 

Não há o risco de se estar supervalorizando o legado acadêmico de dona Ruth por razões políticas?

De maneira nenhuma. Os que resgatam a contribuição de Ruth não têm relações diretas com o jogo partidário. Pegue a série de artigos recém-lançada. As organizadoras da coletânea são pesquisadoras de alto nível, que se conservam longe da política.

Ninguém de bom senso negará a importância de Ruth para a modernização da antropologia no Brasil. Ela e a Eunice (Durham) constituíram o time de antropólogos que primeiro se interessaram pelo urbano. Tradicionalmente, a disciplina se dedica à análise dos povos ágrafos, que não dispõem da escrita.

Ruth, no entanto, sempre achou mais pertinente esmiuçar o universo das cidades, talvez por ser de uma geração que viu o país se urbanizar.

 

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Ruth e FHC desembarcam no Chile com as filhas, em 1973. A família, desta vez, viajou à passeio (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

A ex-primeira-dama influenciou o senhor como intelectual?

Sim. Vou lhe citar alguns exemplos. Eu estudei as teses de Claude Lévi-Strauss [antropólogo] superficialmente. Mas a Ruth as conhecia muito. Em 1962 e 63, frequentou seminários dele na França. Ela, então, me ensinava o que sabia.

Conversávamos sobre Lévi-Strauss e outros autores que me são menos familiares: o Manuel Castells [sociólogo], o Michel Foucault [filósofo] e o próprio Alain Touraine [sociólogo], com quem tive aulas. Ruth ainda me alertou para a força dos movimentos sociais.

Recordo que, lá pela década de 1970, grupos da periferia de São Paulo reivindicavam do governo avanços na área da saúde pública. Eu olhava aquilo e previa: “Não vai resultar em nada”. Sob o meu prisma, os grupos pressionavam o Estado à toa porque as exigências populares se perderiam no gabinete do burocrata.

Ruth não raciocinava desse jeito. Ela já notava que existia a chance de aquelas ações causarem – como realmente causaram – mudanças mais profundas, mais políticas na estrutura do Estado. Ou melhor: que daqueles grupos surgiriam vereadores, deputados e outras lideranças capazes de agir efetivamente dentro da máquina estatal.

Influenciado pelo marxismo, eu acreditava que as transformações só iriam decorrer da luta de classes – do choque entre o proletariado e a burguesia. Ruth me corrigia: “Não, a luta não precisa ser apenas de classes. A luta também pode ser do povo contra o Estado”.

 

Quer dizer que ela se opunha à predominância das interpretações marxistas na USP da época?

Exato. Eu, Ruth, Paul Singer [economista], José Arthur Gianotti, Bento Prado Júnior [ambos filósofos], Octavio Ianni [sociólogo] e outros participamos do famoso seminário sobre O Capital, de Karl Marx, que se iniciou em 1958. Ao longo de seis anos, nossa turma se reunia periodicamente para debater os diversos volumes do livro. Ruth, portanto, tinha intimidade com as teorias de Marx.

Acontece que nunca adotou uma visão estritamente marxista. Ela ia na contramão de todos nós e não enxergava a luta de classes como o único motor da história. Daí se interessar tanto pelo conceito de sociedade civil – uma ideia extramarxista, digamos.

 

A atuação como primeira-dama

 

Dona Ruth não desejava que o senhor virasse político. Por quê?

Na década de 1950, quando a gente se formou, havia o consenso de que a carreira acadêmica é uma espécie de sacerdócio. Deveríamos viver para o ensino e a pesquisa. Eu próprio considerava pecado receber dinheiro por qualquer atividade que não a de professor.

Embora descenda de uma família com larga trajetória política (meu bisavô governou Goiás, meu tio-avô ocupou o cargo de ministro da Guerra, meu pai se elegeu deputado), procurei evitar tal caminho na juventude. Não participei nem mesmo do movimento estudantil enquanto cursava ciências sociais. Os militares só me mandaram para o exílio após o golpe de 1964 porque eu defendia reformas na universidade – mudanças que os conservadores taxavam de subversivas.

Não me expulsaram do país em razão de militância partidária ou algo do gênero. Logo depois que voltei, resisti à ditadura intelectualmente, fazendo pesquisas, escrevendo artigos em jornais de oposição e promovendo conferências. Ruth também se comportava desse modo. Queríamos protestar, mas continuávamos sem a intenção de ingressar na política propriamente dita.

Ocorre que, com o passar dos anos, as circunstâncias me levaram para o Senado e, depois, para o Executivo. Ruth, sobretudo no início, discordava de minha resolução. Temia perder a privacidade. Arrepiava-se diante da ideia de nossa vida se tornar mais pública, mais institucional, repleta de pompa. Mesmo assim, nunca deixou de se engajar em minhas campanhas eleitorais. E, quando cheguei à Presidência, desempenhou brilhantemente as funções que atribuiu para si.

 

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Em 1985, num comício durante as eleições para prefeito de São Paulo. FHC acabou derrotado (Foto: Andrés Otero / Ary Brandi / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Entretanto, não gostava que a chamassem de primeira-dama.

Ruth, na verdade, refutava o conceito muito norte-americano de que a primeira-dama ocupa um cargo. “Não, quem ocupa um cargo é o presidente da República”, argumentava. “Ele, sim, tem obrigações previstas pela lei. A primeira-dama precisa apenas se manter autônoma e desempenhar os papéis que julgar adequados. Cada uma deve agir como achar melhor, sem tarefas definidas.”

Tanto que Ruth sempre defendeu a Marisa [Letícia, mulher de Lula]. As duas se portaram de forma bem diferente em Brasília. Marisa, todos sabemos, abdicou de qualquer protagonismo. E Ruth a apoiava: “Ela está se respeitando. Não trai a própria personalidade, não é exibida, não interfere no governo. Por que vou criticá-la?”

 

Como dona Ruth lidava com o gigantesco cerimonial da Presidência?

Não apreciava nada daquilo, lógico, mas se conformava. Curiosamente, no final de meu segundo mandato, já demonstrava grande apreço pelas seguranças que a acompanhavam. Professora em tempo integral, quando resolvia ver um espetáculo, fazia questão de que as moças assistissem à peça também. Não deixava que a esperassem na porta do teatro.

Depois, lhes indagava sobre a montagem e dava explicações sobre o dramaturgo, o diretor e o elenco. Às vezes, havia atores nus em cena – e as seguranças se horrorizavam. No enterro de Ruth, algumas viajaram para São Paulo e quiseram carregar o caixão. Criou-se uma relação de afeto.

 

O senhor dividia com dona Ruth os problemas do governo?

Não sei se o verbo correto é dividir, porque Ruth evitava se meter diretamente na minha administração. Ela observava à distância. Não bancava o pistolão em área nenhuma. Dirigia o Comunidade Solidária e ponto.

Agora, nós conversávamos intensamente sobre quase tudo. Certos temas a seduziam menos. Economia, por exemplo – o câmbio, as estratégias do Banco Central. As atenções de Ruth se voltavam mais para a educação, a saúde e a cultura.

 

Ela discordava muito do senhor?

Ô! E abertamente! Em inúmeras ocasiões.

 

Mencione uma, pelo menos.

Ruth detestava os partidos clientelistas – aqueles que não abraçam propriamente uma ideologia, um programa, e só almejam mamar nas tetas do Estado. Os adesistas, né? Em virtude disso, ela jamais suportou determinados setores do extinto PFL e não aceitava o acordo que firmei com os pefelistas.

Na teoria, Ruth tinha consciência de que apenas os ditadores governam sem alianças. Só que na prática… Ela reclamava: “Como assim?! Você precisa dizer tal coisa para fulano!” Eu respondia: “Um político não deve ir tão direto ao ponto. Se disser tal coisa, me derrubarão!”

Quem está fora da disputa partidária analisa as situações e as pessoas sob a ótica dos estereótipos. No entanto, quando se aproxima delas, termina reformulando o julgamento. Vai soar estranho, mas em qualquer partido existem canalhas do bem e canalhas do mal, canalhas que traem e canalhas que não traem, canalhas inteligentes e canalhas obtusos, canalhas competentes e canalhas incompetentes. Para distinguir uns dos outros, é preciso estrada. Ruth, no começo, não dispunha de tanta vivência. Depois, foi aprendendo.

 

Em 1994, a futura primeira-dama criticou publicamente o senador Antônio Carlos Magalhães, um dos caciques do PFL. Associou-o à ditadura e às oligarquias.

Pois é… Ruth não se permitia intimidades com o ACM. Conhecedor das restrições dela, Antônio Carlos tratava de agradá-la. Ele podia ser uma serpente ou um encantador de serpentes. Dependia dos ventos.

Com a Ruth, costumava exibir os melhores modos.

Mas não adiantava. Certa vez, o convidei para tomar um café em casa. Tasso Jereissati [um dos líderes do PSDB] nos acompanhou. Ruth, que se encontrava no apartamento, resolveu preparar o café e se dirigiu à cozinha. Pronto: o Antônio Carlos subiu na tribuna do Senado e proferiu um discurso sobre o episódio. “A mulher do presidente abre mão de empregados e tem o desprendimento de fazer o próprio café.”

 

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O casal presidencial, em viagem ao Pantanal, na década de 1990 (Foto: Evandro Teixeira / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Como dona Ruth encarava as privatizações que o governo do senhor incentivou? O processo sempre recebeu pesadas críticas. Agora, inclusive, um livro-reportagem que aborda o assunto se transformou em best-seller: A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Ela concordava com as privatizações. À época, todo mundo concordava. Somente um pequeno grupo de ultranacionalistas, não apenas do PT, se posicionava contra. Preconizava que iríamos sucatear as indústrias brasileiras. Imagine! Sobre o livro do rapaz…

 

O senhor o leu?

Não.

 

Pretende lê-lo?

Não. Vou ler livro de malandro? O autor trabalhava para os petistas [durante as eleições presidenciais de 2010, a Polícia Federal indiciou Ribeiro Jr. sob a acusação de que ele quebrou o sigilo fiscal de tucanos com o intuito de produzir dossiês; o jornalista nega]. O propósito da reportagem é criar uma cortina de fumaça, tirar o foco da herança deixada por Lula: as corrupções que pipocam no governo federal. Você leu o livro? Conte-me algo que aparece lá.

 

O repórter procura demonstrar que o ex-governador José Serra, do PSDB, e alguns parentes se beneficiaram financeiramente das privatizações.

O Serra? Impossível! Coloco minha mão no fogo. Serra não teve nenhuma relação com as privatizações. Nada! Zero! Zero! E outra coisa: quem rouba uma hora se entrega. Nunca vi ladrão que, cedo ou tarde, não transpareça. Vamos verificar se algo mudará no padrão do Serra. Vamos verificar se a família dele ostentará riqueza…

 

A vida doméstica

Dona Ruth apoiava com veemência as causas feministas. Como tal engajamento reverberava dentro de casa?

Desde o namoro, e até antes, nós transitávamos num círculo ilustrado, culto, que preconizava a equivalência entre homens e mulheres. Compartilhávamos, portanto, de ideias similares sobre o tema. Mas existia uma diferença importante em nossas posturas – a mesma que distingue o liberal do igualitário. O liberal aceita, tolera. O igualitário bota em prática.

Eu, liberal, concordava teoricamente com as reivindicações do feminismo. Ruth, igualitária, tratava de fazê-las acontecer. Ela sempre quis, por exemplo, que todos da família ajudassem no trabalho doméstico. Para um homem da minha geração, assumir atribuições dessa natureza beira o absurdo. Mesmo assim, às vezes, eu tirava a louça da mesa após as refeições. Foi o máximo de concessão que me permiti.

Ainda hoje, recolho a louça no meu apartamento ou no de amigos. À época da Presidência, também recolhia. Já lavar os pratos me custa mais. Se necessário, lavo – só que me desagrada. Na década de 1980, passamos uma temporada em Berkeley [na Califórnia, Estados Unidos]. Há uma foto do período que me flagra lavando louça. Ruth garantia que a imagem é falsa, que aquele milagre jamais ocorreu. [risos]

 

Os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram o Brasil em 1960. Na ocasião, o senhor os recebeu para um jantar. O que dona Ruth sentiu quando travou contato com uma lenda do feminismo?

Decepcionou-se. Simone nos pareceu tão bonita quanto distante, fria e dura. Antipática, enfim. Para piorar, tratava o Sartre – um tipo sorridente, carismático – como criança: “Não faça isso, não faça aquilo!” E titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou.

Na hora da sobremesa, nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combinação que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educação.

Apesar de feminista e intelectual, Ruth prezava as tarefas de casa. Cozinhava bem, tricotava, costurava e adorava jardinagem. Só não entendia direito de contas. Não gastava excessivamente, mas se atrapalhava com cheques e números. Não tinha noção de preço.

 

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Na Muralha da China, na década de 1990 (Foto: Evandro Teixeira / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Na contramão de Lula e dona Marisa, que costumam demonstrar carinho em público, o senhor e dona Ruth se comportavam de maneira sóbria. Faltava romantismo entre vocês?

Não. Na intimidade, nos mostrávamos calorosos. A discrição se manifestava apenas publicamente – um recato que cultivamos desde a juventude.

Além do mais, em casamentos longos como o nosso, cria-se uma base afetiva que é estável, independentemente das aparências, dos altos e baixos, das oscilações pontuais.

 

Em 2009, o senhor reconheceu como filho o adolescente Tomás, que teria nascido de uma relação extraconjugal. O rapaz já fez 20 anos. Recentemente, porém, testes de DNA demonstraram que o senhor não é o pai dele. Em que momento dona Ruth soube da história?

No momento em que o filho surgiu.

 

E qual a reação dela?

Ruim, né? Mas também compreensiva. Ruth conhecia a vida. Estava ciente de que o ser humano passa por períodos de variação.

 

O senhor cogitou se separar?

Não. Nunca me enxerguei sem a Ruth. Desculpe… Não gostaria de alongar o assunto, em nome da reserva que pautava meu casamento.

Acrescento apenas que, a despeito do DNA, sigo mantendo um relacionamento muito bom com Tomás, tanto em termos afetivos quanto cíveis. Posso afirmar igualmente que Ruth morreu numa ótima fase de nossa união. À semelhança de qualquer casal, atravessamos etapas de maior e menor cumplicidade. Até criar nossos filhos, nos conservamos bem próximos. Depois, houve certo distanciamento.

E, nos últimos 15 anos, uma reaproximação intensa – de tal maneira que a morte dela me afetou como um raio em dia de sol.

 

O livro

Ruth Cardoso – Obra Reunida. Organização e apresentação de Teresa Pires do Rio Caldeira. Editora Mameluco, 567 págs., R$ 78.

06/05/2012

às 14:00 \ Livros & Filmes

DVD: dica curtinha de um clássico “noir”, “O Segredo da Porta Fechada”

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Filme "noir": esposa morta, uma secretária desfigurada e uma estranha série de quartos barrocamente decorados nos quais assassinatos foram cometidos

(Publicado na seção VEJA Recomenda da edição impressa da revista)

 

O Segredo da Porta Fechada (Secret Beyond the Door, Estados Unidos, 1947. Versátil)

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Joan Bennett: sensual e elegante

Considerado o pai do filme noir por duas obras-primas feitas na Alemanha dos anos 20 e 30 (Metrópolis e M, o Vampiro de Düsseldorf), o austríaco Fritz Lang (1890-1976) realizou este suspense psicológico no auge de seu prestígio em Hollywood.

A história trata de uma sofisticada herdeira nova-iorquina (Joan Bennett) que, em férias no México, conhece um charmoso arquiteto (Michael Redgrave) e casa-se com ele depois de apenas três dias.

Claro que nada é o que parece ser, e o clima sombrio inclui uma esposa morta, uma secretária desfigurada e uma estranha série de quartos barrocamente decorados nos quais assassinatos foram cometidos. Lembra Rebeca, de Alfred Hitchcock (que se dizia um seguidor de Lang), mas apimentado com  A Lenda do Barba Azul e tintas freudianas ousadas para a época.

A atuação de Joan Bennett é sensual e elegante, justificando a atração fatal entre a dupla romântica, magnificamente fotografada por Stanley Cortez, também conhecido por O Mensageiro do Diabo.

Mesmo o desfecho, hollywoodiano demais, não apaga o brilho dessa diversão à moda antiga com a assinatura de um mestre.

06/05/2012

às 12:05 \ Livros & Filmes

Hoje é domingo, dia sossegado. Aceite um convite: conheça a seção “Filmes & Livros” do blog, com várias dezenas de boas dicas

Meryl Streep

Leonardo DiCaprio, Meryl Streep, Mario Vargas Lhosa, Francis Ford Coppola, Pedro Almodóvar, Gore Vidal: na nova seção, o leitor encontrará personagens como essas e muitas dicas, resenhas, entrevistas e reportagens

Amigos, já há algum tempo está no ar, de forma discreta, a seção “Livros & Filmes” do blog. Digo de forma discreta porque boa parte do que se pode encontrar lá não chegou a ser postado na home page.

Então, hoje, que é um dia mais sossegado, você está convidado a visitar e conhecer uma seção que, a esta altura, está riquíssima, com dezenas e dezenas de posts interessantes: há ali reportagens sobre cinema e literatura, entrevistas com escritores (como Mario Vargas Llosa ou Gore Vidal), atores (Leonardo DiCaprio, por exemplo) e diretores (que tal Pedro Almodóvar ou Francis Ford Coppola?), resenhas e dicas de bons livros e bons filmes.

A maior parte dos posts não foi produzida por mim — embora haja vários textos de minha autoria. A riqueza da seção está no farto material de qualidade elaborado por diferentes colegas de VEJA que, aos poucos, eu vinha injetando em “Livros & Filmes” para, finalmente, declarar inaugurada — digamos assim — a seção e convidá-los a percorrê-la.

É só olhar na barra de navegação da home do blog, onde estão as seções como “Política & Cia”, “Vasto Mundo”, “Bytes de Memória” e as demais para encontrar “Filmes & Livros”.

Sigam em frente. Acredito que irão gostar.

05/05/2012

às 19:03 \ Livros & Filmes

Livro terrível, mas indispensável: a não-vida do norte-coreano que nasceu num campo de concentração e, até os 23 anos, nem sabia que existia um mundo lá fora

SOFRIMENTO E CULPA um de seus desenhos sobre a vida do Campo 14: passados seis anos, a vergonha de tudo o que fez para sobreviver persiste de forma debilitante

SOFRIMENTO E CULPA -- Um dos desenhos de Shin sobre a vida no campo de concentração: passados seis anos, a vergonha de tudo o que fez para sobreviver persiste de forma debilitante

Fuga do Campo 14

A NÃO VIDA

 

A história do norte-coreano que aos 23 anos conseguiu fugir do tenebroso campo de concentração onde nascera

 

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"Fuga do Campo 14"

Shin Dong-hyuk tinha 23 anos quando transpôs pela primeira vez os limites do Campo 14. Nascera lá, no “campo de categoria controle total”. Comera, em quase todas as refeições da vida – as que não lhe foram suprimidas -, mingau ralo de milho e sopa de repolho.

A única carne que conhecia era a de rato: tornou-se exímio caçador dos roedores que infestavam o local, onde nem latrinas havia. Como as outras crianças, às vezes procurava grãos de milho dentro das fezes de animais. Vestiu sempre trapos.

Obedecia em tudo aos guardas. Delatou não apenas colegas de escola e, mais tarde, de trabalho, pelas mais insignificantes transgressões, como também denunciou, aos 13 anos, a mãe e o irmão mais velho, que entreouviu planejando uma fuga.

Ele próprio foi torturado – pendurado sobre uma fogueira e queimado – e ficou meses numa cela subterrânea. A mãe e o irmão foram executados. Shin teve de assistir da primeira fila. Nunca ocorreu a ele que esse não era o curso normal de uma vida.

Dentro do Campo 14, ignorava haver China, Estados Unidos e até Pyongyang, a capital norte-coreana, de onde um dos regimes mais brutais de que se tem notícia na história ordena o encarceramento de centenas de milhares de prisioneiros nesses campos de concentração pavorosos cuja existência nega.

Aos 23 anos, Shin passou quatro semanas trabalhando junto com Park, um prisioneiro mais velho e instruído, que viera “de fora”. Aí, tudo mudou: ele começou a desejar desesperadamente sair dali. Não para alcançar a liberdade, mas para provar carne de porco.

Numa aventura cujos detalhes nem a ficção mais melodramática seria capaz de conceber, conseguiu. É o único indivíduo de que se tem notícia a tê-lo feito. (Outros escaparam, mas de campos menos controlados, e mediante suborno.)

É essa a vida inacreditável que o jornalista americano Blaine Harden narra em Fuga do Campo 14 (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; Intrínseca; 232 páginas; 24,90 reais, ou 14,90 em e-book).

Shin Dong-hyuk

Shin Dong-hyuk

Que Shin tenha se maravilhado com o que julgou ser a fartura e a liberdade da província chinesa na qual primeiro se refugiou após cruzar a fronteira (na verdade, uma das mais pobres do país), dá uma pequena ideia das privações que suportou no campo.

Harden, que foi correspondente do jornal The Washington Post, coloca sempre em contexto essa penúria e essa opressão bárbara: em maior ou menor medida, todos os norte-coreanos as suportam.

Shin, hoje, vive entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, mas continua sem se encontrar. Como a maioria esmagadora dos refugiados da Coreia do Norte, tem dificuldade em confiar nas pessoas, em achar um rumo e em entender um mundo que lhe parece situado em outra galáxia.

É ainda atormentado por uma culpa e uma vergonha debilitantes, pelo que fez para sobreviver e, talvez, por ter sobrevivido. Mais de duas décadas depois de o bloco comunista ter ruído, como pode a tirania norte-coreana persistir?

À custa de uma repressão e um medo que nem nos gulags soviéticos encontrariam paralelo, é o que demonstra Harden.

(Resenha de Isabela Boscov publicada na edição impressa de VEJA

05/05/2012

às 16:04 \ Livros & Filmes

Livro: filósofo ataca o politicamente correto e diz que “o mundo virou um grande churrasco na laje”

com ácido e rigor Pondé: dominado pelos pobres de espírito, o mundo hoje virou um grande churrasco na laje

COM ÁCIDO E RIGOR -- Pondé: crítica ferina a um mondo dominado pelos pobres de espírito, ainda que tenham dinheiro (Foto: Luiz Maximiano)

 E NÃO ADIANTA XINGAR

Podem-se prever vitupérios ressentidos contra a crítica devastadora que Luiz Felipe Pondé faz da cultura “politicamente correta”. Bem mais difícil será responder a ela

Capa: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

Capa: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

“O mundo virou um churrasco na laje.” A blague aparece como subtítulo do capítulo intitulado Viajar Jamais, diatribe contra a devastação cultural promovida pelas “hordas de turistas” que invadem catedrais com suas câmeras. A referência a um hábito festivo comum dos subúrbios brasileiros vai eriçar aquelas almas sensíveis que costumam oferecer sua abstrata solidariedade aos oprimidos.

Podem-se prever os xingamentos que se erguerão contra o autor: “elitista, conservador”. Professor da Faap e da PUC de São Paulo, filósofo com formação nas universidades de Paris e de Tel-Aviv, Luiz Felipe Pondé é talvez o mais sardônico crítico dos clichês da intelectualidade esquerdista contemporânea.

Para esclarecer que sua referência nada lisonjeira a hábitos suburbanos não se deve confundir com discriminação social, ele atiça ainda mais os ânimos: diz que se refere apenas aos “pobres de espírito”, porque “você pode ter dinheiro e ainda assim ter espírito de churrasco na laje” (já se ouve a grita: “preconceituoso, direitista”).

Um dos prazeres de seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Leya; 224 páginas; 39,90 reais) está nesta verve ácida, despida do jargão que se costuma ouvir dos filósofos, digamos, profissionais.

Mas não se confunda estilo claro e direto com leviandade. Enquanto seus inimigos vociferam adjetivos cada vez mais esvaziados de sentido (“reacionário, fascista”), Pondé constrói seus argumentos com rigor.

O título pode sugerir uma revisão da história da filosofia pautada pela “incorreção”. Mas, na verdade, este é um devastador exame filosófico do próprio politicamente correto, de suas origens e vícios. Pondé recorre a um eclético elenco de filósofos — Maquiavel, Burke, Hume, Nietzsche — para desmontar as ilusões queridas da tribo PC.

Também busca instrumentos fora da tradição filosófica, em escritores como Nelson Rodrigues e Philip Roth e até na teoria evolucionista de Charles Darwin (o que desconcertará os inimigos que tentam grudar em Pondé, conhecedor profundo do pensamento religioso, a pecha de carola).

O Guia denuncia a vacuidade conceitual do receituário PC, contestando, por exemplo, a noção romântica de que índios são moralmente superiores aos civilizados, ou o contrassenso segundo o qual as diferenças entre homens e mulheres são “construções sociais” sem base biológica.

Mas, sobretudo, este é um ataque moral à santimônia hipócrita da correção política, à falsidade de todos que se julgam paladinos da justiça social. Poderia ser um convite à autocrítica, se esta fosse possível ao politicamente correto. Seus cultores preferem sempre vituperar contra a inteligência.

(Publicado em VEJA de 25 de abril de 2012, por Jerônimo Teixeira)

30/04/2012

às 16:00 \ Livros & Filmes

Dica de um bom filme: “Diário de um Jornalista Bêbado”, com Johnny Depp

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"Diário de um Jornalista Bêbado": homenagem terna e deliciosa de Johnny Depp ao amigo que se suicidou em 2005

Em Diário de um Jornalista Bêbado, Johnny Depp faz uma homenagem terna e deliciosa ao doidão Hunter Thompson

 

Doido por bebida, drogas, armas e aventuras – ou simplesmente doido – o americano Hunier S. Thompson (1937-2005), inven­tor do chamado jornalismo “gonzo”, nunca se apresentou como o tipo de pes­soa que inspira sentimentos temos.

E, no entanto, é com imensas ternura e afeição que Johnny Depp envolve Paul Kemp, o alter ego de Thompson, em Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary, Es­tados Unidos, 2011), em cartaz desde a sexta-feira, 20. O ator conheceu Thompson em 1994, num bar, o qual o jornalista adentrou munido por um bastão de tocar gado que brandia para abrir ca­minho.

Depois, conforme relatou Depp à revista Newsweek, seguiram para a casa de Thompson, onde celebraram a afini­dade imediata fazendo uma bomba de propano e nitroglicerina (note-se que os ingredientes estavam à mão) e explodin­do-a a distância com uma espingarda calibre 12.

Até o suicídio de Thompson em 2005, ao 67 anos foram inseparáveis. Depp já encarnava o amigo uma vez antes – na adaptação de 1998 do livro Medo e Delírio em Las Vegas, em que o autor relata uma temporada alucinógena. Dirigido por Terry Gilliam, o filme era ele próprio uma experiência psicodélica algo extrema, além de mais recomendável a iniciados que a iniciantes: esse Thompson era já o pontificante do jornalismo “gonzo” que defende trocar a pretensão à objetividade pela vivência em primeira mão e pela narração livre em primeira pessoa

(Segundo algumas fontes, “gonzo” é gíria irlandesa para o último sujeito a permanecer de pé após uma maratona etílica.) E era já também o Thompson dos experimentos sem fronteiras com substâncias alteradoras da consciência.

Diz Depp que, ao contrário do que as aparências sugeriam, seu amigo era um homem de sensibilidade incomum e facílima de ferir. “Daí a ‘automedicação’”, opinou.

UM ESTRANHO PARAÍSO Ribisi, Depp e Rispoli como os irmãos de encrenca: jovens, duros e bêbados em San Juan (Foto: Divulgação)

UM ESTRANHO PARAÍSO -- Ribisi, Depp e Rispoli como os irmãos de encrenca: jovens, duros e bêbados em San Juan (Foto: Divulgação)

Por contraste, o Paul Kemp que pro­tagoniza Diário é o Thompson da juven­tude, inseguro sobre qual sua missão no mundo e, embora já bem instruído no ál­cool, ainda um noviço em relação às dro­gas. Paul segue para San Juan, em Porto Rico, nos anos 50, para trabalhar num jornaleco à beira da falência.

Dada a ab­soluta falta de rumo da publicação, pode fazer o que bem entende. E, junto ao fo­tógrafo Sala (Michael Rispoli) e ao com­panheiro de letras Moberg (Giovanni Ribisi), mete-se em confusões esclarece­doras sobre a venalidade humana.

Esse era o tempo em que os americanos exportavam o mau comportamento e a es­peculação predatória para paraísos tropi­cais como San Juan, e Kemp se farta de tomar contato com tal hábito por meio de figuras como o caviloso Sanderson (Aaron Eckhart). Mas, no processo, encontra sua contundente e inconfun­dível voz narrativa, e rouba do especu­lador sua estonteante namorada (Am­ber Heard).

Amoroso e cheio de cor tan­to na reconstituição de seu cenário quan­to na recriação de seu protagonista, Diá­rio deixa entrever o Thompson que Depp conheceu – não o tresloucado, mas o homem gentil, bem-humorado e surpreendentemente cavalheiresco.

(Publicado em VEJA de 25 de abril de 2012, por Isabela Boscov)

29/04/2012

às 18:02 \ Livros & Filmes

A falta que faz um Paulo Francis

exoneração temporária Francis: o homem amável e de maneiras gentis dava lugar, na hora de lidar com as palavras, ao crítico implacável e ao homem sem medos que assinava colunas como a Diário da Corte, da Folha de S.Paulo

EXONERAÇÃO TEMPORÁRIA -- Francis: o homem amável e de maneiras gentis no trato com amigos, beligerante e implacável quando escrevia (Foto: Fernando Pimentel)

 

O livro Diário da Corte, que reúne colunas do mais beligerante e hábil polemista brasileiro, comprova que não há o que substitua alguém capaz de ver as coisas como as coisas são

(Publicado na edição de VEJA de 25 de abril de 2012 por Augusto Nunes)

Capa: Diário da Corte

Capa: Diário da Corte

O ator principiante não teria ido além da primeira peça caso houvesse recusado a sugestão do agitador teatral Paschoal Carlos Magno: que tal trocar o Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn da certidão de nascimento por um nome artístico menos tonitruante?

E o sofrível coadjuvante seguiria vivendo papéis secundários se não tivesse criado um personagem condenado ao êxito no mundo real: o jornalista Paulo Francis, em tudo diferente do intérprete. O homem amável, de gestos suaves e maneiras gentis, era temporariamente exonerado entre um texto e outro.

Ironia desmoralizante, sarcasmo impiedoso

Na hora de lidar com palavras, materializava-se a entidade agressiva, de temperamento beligerante, extraordinariamente hábil no ataque frontal, na ironia desmoralizante, no humor ferino, no sarcasmo impiedoso.

O estilo claro e contundente na forma e no conteúdo, a abrangência temática, a independência intelectual e a disposição para a correção da rota fizeram desse Paulo Francis o maior polemista do jornalismo brasileiro moderno. Ele continua no topo do ranking, comprova a leitura de Diário da Corte (Três Estrelas; 408 páginas; 59,90 reais), coletânea de 76 colunas publicadas pela Folha de S.Paulo entre 1975 e 1990 que chega agora às livrarias.

na hora de lidar com as palavras, ao crítico implacável e ao homem sem medos que assinava colunas como a Diário da Corte, da Folha de S.Paulo

Estilo claro e contundente, abrangência temática e independência intelectual na coluna "Diário da Corte" (Foto: Reprodução)

O país da amnésia endêmica, que esquece a cada quinze anos o que aconteceu nos quinze anteriores, também condena os melhores e mais brilhantes a quinze anos de esquecimento — contados a partir da morte física. Francis não escapou dessa temporada no limbo.

Em 4 de fevereiro de 1997, quando um infarto o surpreendeu no apartamento em Nova York, milhares de leitores do colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo e milhões de espectadores do comentarista dos telejornais da Rede Globo e do programa Manhattan Connection haviam transformado o carioca de 66 anos em celebridade nacional. Pois mesmo o mais conhecido jornalista brasileiro teve de esperar até agora pela exumação parcial da obra escrita.

Textos que poderiam ser publicados agora, sem retoques

Pior para os jovens, que poderiam tê-lo encontrado mais cedo. As mais de setenta colunas reunidas no livro resistiram incólumes à passagem do tempo. Muitos textos parecem ter saído ontem da mente brilhante, e continuam de tal forma contemporâneos que poderiam ser publicados na edição de amanhã sem retoques ou atualizações. A leitura de Diário da Corte mostra com dolorosa nitidez a falta que um Francis faz.

“Se dei uma contribuição ao jornalismo brasileiro, foi a de desmistificar os Estados Unidos”, disse em 1983. Tal contribuição é confirmada por artigos sobre o império atarantado com os desdobramentos do caso Watergate e outras aulas de jornalismo analítico.

Mas ele fez muito mais que isso. Antes ou depois do correspondente internacional cinco-estrelas, existiram o crítico de teatro que achava Paulo Francis “nome de bailarino de teatro de revista”, o crítico de cinema que amava as ousadias de Glauber Rocha enquanto desancava unanimidades internacionais, o devorador de livros que se gabava de ter lido Guerra e Paz aos 15 anos de idade e parecia carregar na cabeça três bibliotecas.

Houve o resistente entrincheirado numa página do Pasquim. E houve, sobretudo, o jornalista político que, ao se livrar de cautelas e amarras impostas por patrulhas ideológicas, se tornou, como Nelson Rodrigues, um “ex-covarde”.

A coragem de ser estigmatizado como “reacionário”

É preciso coragem para arriscar-se a ser estigmatizado como “direitista”, “reacionário” ou “conservador”. Mas só quem não teme tal perigo conseguirá enxergar o Brasil como efetivamente é.

Diário da Corte permite a contemplação de um largo trecho dessa caminhada em direção à liberdade que Francis definia com uma citação de Rosa Luxemburgo: “A liberdade é quase sempre, exclusivamente, a liberdade de quem discorda de nós”. Ele exercitou plenamente o direito de discordar de meio mundo — e de manifestar a discordância sem ambiguidades. Duelou furiosamente com José Guilherme Merquior e Antonio Candido, brigou feio com Chico Buarque e Caetano Veloso.

OUVIDOS MOUCOS -- Francis lamentou a rejeição da esquerda aos acenos feitos pelo general Golbery (à esquerda, conversando com o senador Luiz Viana Filho e o deputado Flávio Marcílio), defensor de algum tipo de entendimento com a oposição democrática

Não poupou sequer parceiros dos tempos do Pasquim. “Jaguar é um idiota de gênio”, resumiu ao comentar a subordinação do jornal aos interesses eleitorais de Leonel Brizola — a quem se aliara no início dos anos 60.

Foi uma das incontáveis mudanças de opinião embutidas na metamorfose maior. Numa delas, lamentou a rejeição sistemática dos acenos feitos a grupos de esquerda pelo general Golbery do Couto e Silva, ideólogo dos militares moderados e defensor de algum tipo de entendimento com a oposição democrática.

Roberto Campos, ex-embaixador de João Goulart e ex-ministro do regime autoritário, foi redimido depois de figurar por dez anos entre os alvos preferenciais da ferocidade de Francis. “Escrevi coisas brutais sobre Campos”, penitenciou-se. “São erradas. Retiro-as.” Em 1993, num jantar em Porto Alegre, dividiu uma mesa com o ex-inimigo. Depois de cumprimentar o homem à sua esquerda, virou-se para o amigo ao lado e murmurou: “Quem diria, hein? Agora estou à direita até do Roberto Campos”.

 

ASSIM TAMBÉM NÃO -- A disposição de mudar de ideia de Paulo Francis tinha limites, e não incluiu Sarney (Foto: Agência Senado)

A disposição para mudar de ideia tinha limites. José Sarney, por exemplo, nunca deixou de ser o símbolo da jequice brasileira, filha da esperteza dos que mandam e da ignorância dos que obedecem.

“Um amigo me disse que tubarões andaram à caça de Sarney”, escreveu em 2 de janeiro de 1988. “Já comecei a babar diante dessa possibilidade. Aí está uma solução.”

A argúcia excepcional e o pessimismo crônico somaram-se para apressar a decepção com Luiz Inácio Lula da Silva, justificada na coluna de 16 de agosto de 1985. “Admirei Lula quando apareceu. Enfim, um líder sindical que cuidava do pão e manteiga dos trabalhadores, o que é essencial à modernização capitalista do Brasil. Durou pouco. Lula me parece ter sido envolvido pela grã-finagem esquerdista do Morumbi e adjacências (…) Hoje, repete as mesmas sandices populistas que ouvimos desde os tempos de Jango Goulart.”

Francis antecipou em mais de vinte anos o cenário deste 2012

Nas eleições de 1989, apoiou Fernando Collor — que reduziria a pó depois das bandalheiras que resultaram no impeachment — para exorcizar dois fantasmas muito apreciados pelo PT: a interferência excessiva do estado e o aparelhamento da máquina pública.

Francis antecipou em mais de vinte anos o cenário deste 2012. O que diria o polemista sem medos se sobrevivesse para saber a que ponto pode chegar um país em adiantada decomposição moral? Como trataria os ministros que perderam o emprego por safadeza explícita mas seguem impunes?

O que faria depois de confrontado com o primeiro presidente da República que nunca leu um livro? A tensão provocada pela ação indenizatória movida pela Petrobras precipitou o amargo desfecho, e as perguntas ficarão sem resposta.

Pena. A jornalista Sonia Nolasco, mulher de Francis, decidiu que o marido seria enterrado com o par de óculos de lentes grossas sobre a testa. Ele partiu com cara de quem continuaria enxergando as coisas como as coisas são.


 

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