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23/11/2012

às 14:00 \ Política & Cia

Caso da garota que vendeu a virgindade leva à indagação sobre freios éticos: pode-se comprar qualquer coisa? Órgãos humanos? Apoios políticos?

À LUZ DA ÉTICA UNIVERSAL -- Usar dinheiro para comprar apoio político, como Dirceu, Genoino e Delúbio fizeram, é tão condenável quanto a atitude de Catarina Migliorini, que pôs à venda sua virgindade. No primeiro caso, houve abuso do poder sobre a sociedade; no outro, sobre o corpo (Foto: Telegraph.co.uk)

À LUZ DA ÉTICA UNIVERSAL -- Usar dinheiro para comprar apoio político, como Dirceu, Genoino e Delúbio fizeram, é tão condenável quanto a atitude de Catarina Migliorini, que pôs à venda sua virgindade. No primeiro caso, houve abuso do poder sobre a sociedade; no outro, sobre o corpo (Foto: Telegraph.co.uk)

Reportagem de Jonas Rossi e Guilherme Rosa, capa da edição de VEJA desta semana

 

NEM TUDO SE COMPRA

“Vender a virgindade e comprar o apoio de partidos políticos são duas atitudes que revelam em seus autores a mesma concepção utilitarista e rasa da vida. Uma deprecia a intimidade. A outra ultraja a democracia”, diz a Carta ao leitor desta edição impressa de VEJA.

São questões tão fundamentais quanto antigas. A espécie humana só começou a construir a civilização quando, conquistados o fogo, a agricultura e, posteriormente a escrita, aprendeu a conter o poder dos indivíduos. Foram esses freios que permitiram a constituição de famílias e clãs, que evoluíram para os estágios de tribo, cidade e estado na longa caminhada humana.

Portanto, quando se discute hoje se tudo pode ser vendido e comprado, se a tudo é possível atribuir um preço, o que está em jogo são os freios éticos.

No século IV antes de Cristo, o grego Aristóteles, refletindo a sabedoria de filósofos que o precederam, assentou a pedra fundamental da catedral de valores éticos e políticos que nos permite hoje condenar a compra de votos pelos mensaleiros do PT. Quase 2000 anos depois de Aristóteles, o alemão Immanuel Kant reagiria ao utilitarismo de Jeremy Benthan e afetaria seu discípulo Stuart Mill com a noção de que, para distinguirem o certo do errado, as pessoas têm a razão, que conecta cada uma delas ao conjunto da humanidade.

Nesse contexto, o certo é o ato individual que, se repetido por toda a humanidade, a tornaria melhor. Kant, portanto, condenaria Catarina Migliorini.

 

Crítica da razão econômica

O mercado é a melhor ferramenta para criar e distribuir riquezas, mas há um enorme perigo em acreditar que se possa pôr um preço em tudo. Valores familiares, ideais e senso cívico são inegociáveis

O LEILÃO DA VIRGINDADE -- do ponto de vista econômico, vender a virgindade não é grande coisa. Se quem vende e quem compra são adultos e agem de livre e espontânea vontade, e nenhum terceiro foi prejudicado, não há por que proibir uma "transação" desse tipo. Um pensador moral como Kant discorda. Trocar sexo por dinheiro é degradante para ambos os parceiros, pois fere a dignidade humana. "O homem não pode dispor de si próprio como se fosse uma coisa; ele não é sua propriedade", disse o filósofo alemão. (Foto: Rex Features / Glow Images)

O LEILÃO DA VIRGINDADE -- Do ponto de vista econômico, vender a virgindade não é grande coisa. Se quem vende e quem compra são adultos e agem de livre e espontânea vontade, e nenhum terceiro foi prejudicado, não há por que proibir uma "transação" desse tipo. Um pensador moral como Kant discorda. Trocar sexo por dinheiro é degradante para ambos os parceiros, pois fere a dignidade humana. "O homem não pode dispor de si próprio como se fosse uma coisa; ele não é sua propriedade", disse o filósofo alemão (Foto: Rex Features / Glow Images)

Nesta terça-feira, 20, em algum ponto entre a Austrália e os Estados Unidos, a catarinense Catarina Migliorini, de 20 anos, deveria perder sua virgindade. Seguranças ficariam a postos para garantir que certas regras fossem cumpridas. O evento foi adiado, mas, de todo modo, será realizado no mesmo formato. Não haverá troca de carinhos ou beijos na boca nessa “primeira vez”. O encontro terá a duração mínima de uma hora, mas poderá ser prolongado conforme a vontade de Catarina.

Tudo se passará a bordo de um avião, sobre águas internacionais, para escapar do alcance das leis dos países. Catarina leiloou sua virgindade. O vencedor do leilão, um cidadão japonês identificado apenas como Natsu, deu o lance mais alto — 780000 dólares, o equivalente a 1,6 milhão de reais.

A saga, digamos assim, de Catarina está sendo documentada pela rede de televisão australiana que criou o Virgins Wanted (Procuram-se Virgens). Além dela, o russo Alexander Stepanov também participou, mas só conseguiu 2600 dólares por sua virgindade.

A ousadia de Catarina não pode ser entendida apenas como um ato de compra e venda. É mais do que isso. “É um exemplo perfeito para retratar uma era em que todas as relações, sejam emocionais, sejam cívicas, estão tendendo a ser tratadas pela lógica da economia de mercado”, diz Michael Sandel, o filósofo-celebridade da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Sandel diz que passa da hora de abrir um debate amplo sobre o processo que, nas palavras dele, “sem que percebamos, sem que tenhamos decidido que é para ser assim, nos faz mudar de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado”. A economia de mercado é o corolário da democracia no campo das atividades produtivas. Não é um regime perfeito, apenas é melhor que todos os outros.

Mas o que seria uma “sociedade de mercado”? É uma sociedade qual as adolescentes podem pôr em leilão sua virgindade sem que isso produza mais do que uma simples discussão sobre o preço e as reais condições de inviolabilidade em que o produto será entregue ganhador.

É uma sociedade em que valores sociais, a vida em família, a natureza , a educação, a saúde, até os direitos cívicos podem ser comprados e vendidos. Em resumo, uma sociedade em que todas as relações humanas tendem a ser mediadas apenas pelo seu aspecto econômico. Já chegamos a ela? Segundo Michael Sandel, felizmente ainda não, mas estamos a caminho.

 

ÓRGÃOS À VENDA -- um mercado organizado de venda de órgãos teria apenas vantagens, defendem economistas como Gary Backer, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1992. Ele acabaria com o mercado negro, reduziria a espera por transplantes, evitaria a morte de muitos e não teria impacto considerável nos custos médicos globais dos transplantes. Além de isso fomentar uma visão corrompida das pessoas - que passariam a ser vistas como uma "coleção de partes" -, os mais pobres não tenderiam a se tornar os fornecedores nesse mercado, ferindo o princípio da igualdade? (Foto: Getty Images)

ÓRGÃOS À VENDA -- Um mercado organizado de venda de órgãos teria apenas vantagens, defendem economistas como Gary Backer, ganhador do Nobel de Economia de 1992. Ele acabaria com o mercado negro, reduziria a espera por transplantes, evitaria a morte de muitos e não teria impacto considerável nos custos médicos globais dos transplantes. Mas além de isso fomentar uma visão corrompida das pessoas - que passariam a ser vistas como uma "coleção de partes" -, os mais pobres não tenderiam a se tornar os fornecedores nesse mercado, ferindo o princípio da igualdade? (Foto: Getty Images)

Gente a favor de tornar normal um mercado de órgãos humanos

A visão prioritariamente econômica dos fenômenos sociais tem seus méritos. Gary Backer, o famoso professor da Universidade de Chicago, ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1992 por suas pesquisas a respeito do fundamento econômico de certas decisões humanas importantes — entre elas o casamento e o divórcio.

Outro expoente acadêmico dessa maneira de ver o mundo é o jurista americano Richard Posner. Os dois colaboram em um blog na internet em que, invariavelmente, sustentam que é certíssimo que as pessoas decidam o que fazer pensando apenas nos custos e benefícios de suas opções.

A dupla é a favor de que seja posto a funcionar um mercado de órgãos. Eles argumentam que o altruísmo de doadores e suas famílias é insuficiente para satisfazer a demanda.

Na visão de Becker e Posner, o mercado viria em socorro dos necessitados de órgãos — seja um rim, seja um pedaço do fígado, que podem ser extraídos ao custo de expor a própria vida a um risco que chega a 50%. A conta deles, do ponto de vista aritmético, é irrefutável. Se existisse um mercado de órgãos, as filas nos serviços de transplante acabariam e milhares de mortes seriam evitadas.

Venda de bebês?

O jurista da dupla, Richard Posner, advoga também a venda de bebês recém-nascidos pelas mães que não se sintam capazes de lhes dar um lar e uma educação decente. A lógica é a mesma aplicada ao transplante de órgãos.

Um mercado de bebês acabaria com as filas para adoção, e isso ainda teria um impacto social altamente positivo, pois aumentaria em muito a chance de um maior número de crianças crescer em meio a famílias abastadas, equilibradas socialmente e que valorizam a educação de qualidade.

 

BEBÊS À VENDA -- Para o jurista americano Richard Posner, a venda de bebês eliminaria a burocracia envolvida no processo de adoção e reduziria filas de espera em orfanatos. As crianças também sairiam ganhando, por serem criadas em lares com melhores condições econômicas. Regras claras impediriam eventuais abusos - pessoas com ficha criminal, por exemplo, ficariam alijadas do processo. Mas esse sistema não transforma uma criança em um produto - e assim retira o valor intrínseco da vida humana? (Foto: Veja.com)

BEBÊS À VENDA -- Para o jurista americano Richard Posner, a venda de bebês eliminaria a burocracia envolvida no processo de adoção e reduziria filas de espera em orfanatos. As crianças também sairiam ganhando, por serem criadas em lares com melhores condições econômicas. Regras claras impediriam eventuais abusos - pessoas com ficha criminal, por exemplo, ficariam alijadas do processo. Mas esse sistema não transforma uma criança em um produto - e assim retira o valor intrínseco da vida humana? (Foto: Veja.com)

A ideia de um mercado de órgãos e de bebês pode até ser perfeitamente defensável quando se analisa apenas o aspecto econômico das proposições. Mas, em se tratando de relações humanas, existem muitas e outras variáveis que não podem ser desprezadas. Entre elas, é claro, o poder do dinheiro.

Em pouco tempo, sustentam os adversários de Becker e Posner, os miseráveis seriam fatalmente doadores de órgãos e vendedores de crianças e os ricos, os beneficiados pela solução de mercado. Os dilemas individuais também seriam atrozes. Um deles, muito amargo, seria produzido, por exemplo, por uma mãe que se arrependesse de ter vendido o bebê. Ou, pior ainda, uma mãe que tenha sido obrigada por um marido cruel a vender o filho contra sua vontade.

Portanto, o mercado funciona na economia, mas nem todas as relações sociais podem ou devem ser mediadas por sua lógica de compra e venda. Muitos se esquecem, por exemplo, de que os bancos de sangue americanos experimentaram sua maior escassez quando, em 1970, a venda de sangue foi legalizada nos Estados Unidos. Quem doava por altruísmo deixou de doar e não apareceram vendedores de sangue em número suficiente para compensar essa perda.

 

DERIVATIVOS DA MORTE -- um setor do mercado americano de seguros ganha dinheiro - quase 30 bilhões de dólares por ano - apostando na morte dos outros. São empresas que se especializaram em comprar, por uma fração do valor das apólices, o seguro de vida de pessoas com doenças terminais. O negócio traz benefícios para ambos os lados. O segurado recebe dinheiro que pode proporcionar conforto no tempo que lhe resta. A empresa lucra ao coletar o seguro - e lucra mais se a pessoa morrer logo. O filósofo americano Michael Sandel questiona se essa prática não corrompe, em alguma medida, o caráter do investidor: "Você gostaria de ganhar a vida apostando que as pessoas vão morrer em breve?" (Foto: AFP)

DERIVATIVOS DA MORTE -- um setor do mercado americano de seguros ganha dinheiro - quase 30 bilhões de dólares por ano - apostando na morte dos outros. São empresas que se especializaram em comprar, por uma fração do valor das apólices, o seguro de vida de pessoas com doenças terminais. O negócio traz benefícios para ambos os lados. O segurado recebe dinheiro que pode proporcionar conforto no tempo que lhe resta. A empresa lucra ao coletar o seguro - e lucra mais se a pessoa morrer logo. O filósofo americano Michael Sandel questiona se essa prática não corrompe, em alguma medida, o caráter do investidor: "Você gostaria de ganhar a vida apostando que as pessoas vão morrer em breve?" (Foto: AFP)

A lógica econômica está invadindo todos os outros domínios da vida em sociedade

O grande adversário dessa linha de pensamento, o filósofo Michael Sandel, está a anos-luz de distância de propor que o mercado é um mal em si. Ele reafirma sempre que, com todos os seus defeitos, o mercado ainda é a forma mais eficiente de organizar a produção e distribuir bens.

Reconhece que a adoção de economias de mercado levou a prosperidade a regiões do globo que nunca a haviam conhecido. Sandel enfatiza também que, junto com a adoção da economia de mercado, vem quase sempre o desenvolvimento de instituições democráticas, ambas baseadas na liberdade.

Os riscos apontados por Sandel, portanto, são de outra natureza. Ele alerta para o fato de que, por ser tão eficiente na economia, a lógica econômica está invadindo todos os outros domínios da vida em sociedade.

Sandel se assusta com o fato de, em certas cidades americanas, carros de polícia circularem com placas de publicidade, penitenciárias permitirem que escritórios de advocacia anunciem seus serviços aos detentos logo após a prisão ou, ainda nessa mesma área, cadeias municipais oferecerem, em troca de dinheiro, celas vips confortáveis a quem possa pagar por elas.

PRIVILÉGIOS NA PRISÃO -- Pelo menos uma dúzia de cadeias da Califórnia, nos Estados Unidos, cobra diárias de até 175 dólares por melhores acomodações para quem cumpre penas curtas. Além de evitar que pessoas presas por infrações menores se misturem a criminosos perigosos, esse procedimento ajudaria a cobrir os custos do sistema penitenciário. São ganhos pequenos, dizem os opositores da ideia, diante da ofensa ao princípio de igualdade. As diárias introduzem uma diferenciação entre os presos, baseada não no crime que eles cometeram, mas na sua capacidade econômica. Quem não tem dinheiro vai para as celas comuns.

PRIVILÉGIOS NA PRISÃO -- Pelo menos uma dúzia de cadeias da Califórnia, nos Estados Unidos, cobra diárias de até 175 dólares por melhores acomodações para quem cumpre penas curtas. Além de evitar que pessoas presas por infrações menores se misturem a criminosos perigosos, esse procedimento ajudaria a cobrir os custos do sistema penitenciário. São ganhos pequenos, dizem os opositores da ideia, diante da ofensa ao princípio de igualdade. As diárias introduzem uma diferenciação entre os presos, baseada não no crime que eles cometeram, mas na sua capacidade econômica. Quem não tem dinheiro vai para as celas comuns. (Foto: Alamy)

É evidentemente doentia uma sociedade em que seja natural vender crianças, órgãos, a vingindade ou comprar políticos

Ele se assusta também com o fato de que, por 500.000 dólares qualquer estrangeiro pode se tomar americano, comprando sob certas condições a cidadania. Diz Sandel: “Não acho que colocar no mercado serviços públicos e valores cívicos possa trazer qualquer benefício para as sociedades”.

Ele tem toda a razão. É evidentemente doentia uma sociedade em que seja natural vender o filho recém-nascido, anunciar o próprio rim nos classificados dos jornais, leiloar a virgindade ou comprar votos ou a cumplicidade de partidos políticos e parlamentares. Que pensariam os fundadores dos Estados Unidos, que conquistaram no campo de batalha a independência do país, se soubessem que a cidadania americana está à venda?

Podem ter preço, mas não têm valor

Colocar certas coisas no mercado sinaliza que elas podem ter preço, mas não têm valor. Nações são erguidas sobre valores. Se o mercado de órgãos e bebês é ainda hipotético, há exemplos mais concretos da adoção da lógica econômica em esferas que antes eram impermeáveis a ela.

É o caso das empresas especializadas na compra de apólices de seguro de vida de pessoas com doenças graves nos Estados Unidos.

Pacientes que não esperam viver muito vendem seu seguro por uma fração do prêmio estipulado e usam o dinheiro para custear seu tratamento ou apenas obter conforto nos último meses de vida. Quanto mais rápido vier a morte, maior será o lucro de quem comprou a apólice.

Esses “derivativos da morte” têm até um índice nacional com suas cotações diárias. Se as duas partes envolvidas lucram com os “derivativos da morte” e não há danos a terceiros, por que razão eles seriam antiéticos? Diz Sandel: “Quem sabe o problema moral não esteja nos danos tangíveis, mas no efeito corrosivo sobre o caráter dos investidores”.

Prêmio em dinheiro para aluno que estuda

Colega de Sandel em Harvard, o economista Roland Fryer Jr. tomou-se célebre por defender o uso de incentivos e o dinheiro para que alunos façam o dever de casa.

Para Fryer, boas notas, é comparecimento em aula e a leitura de livros deveriam ser recompensados com dinheiro.

Funcionou por um tempo em algumas escolas. Mas logo os professores começaram a notar que aquilo que deveria ser feito por orgulho de melhorar as notas ou pelo fato de o aluno e sua família darem valor ao estudo passou a ser feito só por dinheiro. Quando a mesada de incentivo cessava, os alunos regrediam ao estágio anterior sem ter aprendido nenhuma lição para o resto da vida.

Vão ter de aprender mais tarde que dignidade, autonomia e valores éticos não podem ser medidos pelo seu preço.

 

O FILÓSOFO QUE LIGOU O ALARME

 

O filósofo Michael Sandel é uma estrela em Harvard. Seu curso Justiça, que virou livro em 2009, já foi frequentado por mais de 150.00 alunos, formou-se um fenômeno na internet. Sua primeira aula teve 4 milhões de visualizações no YouTube.

No livro O que o Dinheiro Não Compra, ele discute os limites éticos do mercado. Sandel disse ao jornalista de VEJA Guilherme Rosa que os casos de Ingrid Migliorini e do mensalão são exemplos da aplicação da lógica de mercado em domínios em que ela deveria ficar ausente.

 

Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre economia de mercado ema sociedade de mercado. Qual a diferença?

 

A economia de mercado é uma ferramenta valiosa e efetiva para organizar a atividade produtíva. Trouxe prosperidade e riqueza para diversas sociedades ao redor do mundo. Uma sociedade de mercado, no entanto, é diferente. Nela tudo está à venda. É um modo de vida no qual o pensamento econômico invade esferas a que ele não pertence.

 

O senhor acha que já vivemos nesse tipo de sociedade em que tudo se vende e tudo se compra, sem limites éticos?

 

Acho que é uma tendência que vem se desenvolvendo desde o começo da década de 80 do século passado. Hoje, muita gente tem no pensamento econômico como o único instrumento para atingir o bem público. O Freakonomics (livro lançado em 2005, de Steven Levitt e Stephen Dubner) é um símbolo da tentativa de explicar qualquer comportamento humano em termos puramente econômicos. Essa visão isoladamente é limitada e desconsidera os valores morais, as atitudes e as complexidades das relações humanas. Precisamos desafiar essa ideia. 0 mercado produz riquezas materiais, mas sua lógica não pode dominar todas as demais relações entre as pessoas, isso é empobrecedor.

 

Em que situações a lógica da economia de mercado pode se tornar perigosa para a sociedade?

 

Sempre que os mecanismos de mercado são introduzidos em esferas novas da vida, precisamos fazer duas perguntas. A primeira é se a escolha dos indivíduos envolvidos nas transações é realmente voluntária ou se existe um elemento de coerção. No caso da prostituição, precisamos questionar se a pessoa que vende seu corpo é desesperadamente pobre. Sua escolha pode não ser livre de verdade. A segunda pergunta deve ser sobre a degradação e a corrupção de certos valores. Alguém pode se opôr à prostituição dizendo que ela é intrinsecamente degradante. E a tira o valor da sexualidade e torna a pessoa humana em um objeto, um instrumento de uso e lucro.

 

Por que o ato de estabelecer o preço de estabelecer o preço de algo altera o seu valor?

 

Bem, esse é o ponto central de meu argumento. Muitos economistas acreditam que o mercado não altera a qualidade ou o caráter dos bens. Acho absurdo que um estrangeiro possa se tornar cidadão americano apenas por ser rico o bastante para comprar a cidadania. Essa é uma realidade em nosso país.

 

Isso ajuda a explicar a repulsa ao leilão de virgindade realizado pela brasileira Ingrid Migliorini?

 

Sim, isso joga luz sobre a degradação envolvida nesse leilão. Essa história é uma ilustração chocante da nossa tendência de colocar uma etiqueta de preço em tudo. Outro exemplo dessa tendência é a compra de votos, Do ponto de vista da lógica do mercado, faz sentido alguém que não se importa com seu voto vendê-lo ao melhor comprador. Mas nós não deixamos isso acontecer, porque não encaramos o voto com propriedade privada, mas como um dever cívico que não deveria estar à venda.

 

Enquanto falamos, a mais alta corte do Brasil está julgando políticos governistas que compraram o apoio de partidos e parlamentares para aprovar projetos de interesse do governo no primeiro mandato do presidente Lula…

 

Você está falando do mensalão. Eu sei. Fiquei sabendo do caso quando visitei o Brasil em agosto. O fato de ele ter mobilizado tanto a opinião pública mostra que a população quer impor certos limites morais à influência que o dinheiro tem na política e na vida cívica. O mensalão é um exemplo dramático do dano causado quando o mercado é introduzido em áreas às quais não pertence. A reação à venda da virgindade e do voto ilustra a importância de termos um debate público sobre os limites morais do mercado. Precisamos discutir as circunstâncias em que a lógica de mercado efetivamente serve ao interesse público e os domínios dos quais ela deveria permanecer de fora.

 

Como podemos saber em quais áreas a lógica de mercado pode atuar por ser útil à sociedade?

 

É uma questão muito difícil, e eu acho que uma das razões para isso é que nas últimas décadas nós fomos muito relutantes em debater esse tema publicamente. Não podemos mais evitar a discussão sobre o significado dos valores morais e das circunstâncias nas quais eles se degradam. Todas as visões; sejam elas religiosas ou seculares, deveriam ser convocadas para um debate democrático e amplo sobre esse assunto. Sem dúvida, as respostas serão diferentes para a educação e para a saúde, para a vida privada e para a pública.

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20 Comentários

  • camila

    -

    20/11/2013 às 10:56

    acho que a venda de bebes é orivel,mas seria mais orivel ainda se os bebes fossem tirados de suas próprias mães…
    a venda de órgãos já ouvi disser que assacinam pessoas e a tiram seus órgãos para vende….com isso não concordo…só concordo com a doação de órgãos que já há no brasil…

  • FATIMA

    -

    7/1/2013 às 5:26

    NO MUNDO DE HOJE,NADA É IMPOCIVEL.EU NÃO ASSUSTO MAIS
    COM NADA.

  • FATIMA

    -

    7/1/2013 às 5:17

    ACHEI ESSA MOÇA MUITO CORAJOSA,ESTA CERTA.
    QUANTAS PERDE A VIRGINDADE POR AMOR,E NÃO É LEMBRADA,
    ISSO É ESCOLHA,E PERSONALIDADE.

  • beatriz33

    -

    18/12/2012 às 16:11

    Meu deus vender a virgindade exite até isso é? a pessoa pensa que já viu de tudo mais tá enganada.Onde já se viu vender a virgindade? Esse mundo ta perdido

  • ADRIANO JACKSON

    -

    17/12/2012 às 4:07

    Que papo é esse? tem milhares de puteiros aqui em são paulo !!! Vão fechar todos?

  • wilson

    -

    27/11/2012 às 22:34

    Virgem ? E o signo? bem tenho perspectiva se achar
    Uma mulher rica, virgem e rica vou ganhar o Nobel
    de biologia.

  • FM

    -

    25/11/2012 às 23:07

    Não li o longo texto todo, mas a venda de bebê choca sob todos os aspectos.

  • MARIA

    -

    25/11/2012 às 19:31

    Em que mundo estamos e a que ponto chegamos?É o cúmulo do absurdo,onde já se viu promover-se dessa forma tão baixa?O pior de tudo é que os pais dela são a favor,que família é essa que não guarda os bons costumes e os valores? Meu Deus, perdoai-nos, não sabemos o que estamos fazendo, as pessoas estão cada dia mais ambiciosas e menos cristãs, que perda de valores ao extremo e quem concorda com isso se iguala a ela, será que esse dinheiro todo vai trazer-lhe a verdadeira felicidade?Será? Tenho é dó dela, coitada!As mulheres, não estou aqui generalizando, mas as que se acham mais privilegiadas de beleza, são poucas as que preservam a moral e os bons costumes, fato é que basta aparecerem no tal de BIG BROTHER, recebem convites para pousarem nua nas *** *** *** *** *** e quase todas aceitam,para promoverem-se e por causa da grana, uma grana suja,uma sem-vergonhice descabida!!!

  • Alehandro

    -

    24/11/2012 às 23:57

    Virgidade? Virgem sou eu…. essa aí é uma p… que está cobrando por sexo….. Se for liberar o comércio de órgãos, libera a maconha primeiro…

  • Sarah

    -

    24/11/2012 às 20:42

    Que leilão?Que virgindade?Tudo golpe pra conseguir fama e dinheio.Até parece que alguém que paga um valor surreal desses por um hímem vai aceitar esses adiametos na entrega do “produto adquirido” por motivos que so beneficiam a moça”?Tem algo de pôdre no Reino da Dinamarca.

  • Eduardo

    -

    24/11/2012 às 19:54

    Não tenho resposta para as inúmeras questões apropriadamente feitas no artigo. Aliás, excelente artigo.
    .
    Evidentemente que parece não haver limites para a venda de tudo, imaginável (virgindade) e inimaginável.
    .
    Se alguém oferecer um de seus rins mediante oferta pública, a Lei impede que ele faça isso. É crime. A condição moral que justifica a impossibilidade parece-me clara na Lei que expressamente condena e proíbe.
    .
    A Lei não impede, porém, que alguém venda por um preço que julgar a ofertante justo, a sua virgindade (se ocorrer imoralidade Legal nisso, quem ‘come’ também age imoralmente e deve sucumbir às penalidades da Lei).
    .
    Pode-se discutir o quanto quiser, e eu mesmo já assisti mais de 9 horas de palestras pelo Dr. Sandel que eu recomendaria a todos aqueles que dominam o inglês e os fundamentos da filosofia.
    .
    Mas enquanto a sociedade (refiro-me especificamente aquilo que a constitui e forma seu tecido: leis, instituições, etc.) não definir em Lei e estabelecer o que pode ou não pode, o que deve ou não deve, é possível sim a venda, a meu juízo, até de um bebê (estabelecida as condições mínimas ainda que superficialmente expostas aqui no artigo) tanto quanto a virgindade e o próprio voto.
    .
    Pode-se discutir, como faz Sandel, que uma coisa tem preço (dólares) mas não tem valor (no caso, a venda da virgindade da moça), mas enquanto uma pessoa puder fazer de seu corpo aquilo que bem entender, sem ofensa a Lei que estabelece como uma sociedade deve existir, tudo será possível.
    .
    Estou dizendo que, ao fim e ao cabo, será a Norma ou as Leis que regem uma sociedade o critério (ainda que não último, a religião poderia ser uma outra)para se decidir (moralmente) o que se pode e se deve fazer.
    .
    São essas discussões muito boas e proveitosas de um Sandel e de um Richard Posner (leiam o livro dele “Sex and Reason”) que as Leis (o único caminho pela via democrática que nos sustenta todos. Ética e moral cada um terá sempre e formulará a sua) que permitirá a convivência e a permanente existência do ser humano.

  • Oliveira

    -

    24/11/2012 às 19:25

    A questão, na verdade, é simples.
    1. A menina é uma prostituta. Só, ou tudo, isso.
    2.Já os petralhas…bem…são ladrões. E como todos esquerdistas justificam seus crimes em nome da “causa”.

  • aristoteles drummond

    -

    24/11/2012 às 13:36

    Não sejamos hipócritas , muito menos moralistas . A moça vende o que é dela , assume a responsabilidade e ponto final. Sendo ” de maior” , sem problema . Naõ recomendaria ninguém a fazer isto, mas acho que ninguém tem o direito de patrulhar. Liberalismo na economia, na politica e na vida de cada um .

  • rod

    -

    24/11/2012 às 12:23

    Essas ideias deles são muito nojentas, espero que nunca cheguemos a esse ponto.

  • CLARA FOX

    -

    23/11/2012 às 19:17

    Como dizia meu pai: comprar uma pessoa é sempre um péssimo negócio. Por menos que se pague, paga-se necessariamente mais do que a criatura vale.

  • Tuco

    -

    23/11/2012 às 18:01

    .

    A ética, em que pese as opiniões em
    contrário – e devem ser muitas! -, se
    presta muito bem a tema de piadas…
    É desprezível a comercialização de
    bebês (interessante os aspectos expostos
    pelo jurista RPosner…), não é mesmo?
    E o que dizer dos cães e gatos? Serão
    eles objetos de comércio? E os pássaros
    e peixinhos? E árvores e plantas? O que
    falta à Sociedade é vergonha na cara –
    e tratar de assuntos com verdadeira e
    inescondível relevância!
    O “leilão da virgem” (bem feia a mocinha,
    né?) entendo como pitoresco. Não merece
    tanto verniz – e é uma sacanagem não terem
    abusado do fotochópi: ela precisa! Não me
    estupefacia, nem me horroriza. Mais uma
    prova que existem otários que consomem
    quaisquer produtos! É como aquela máxima:
    “se se colocar merda numa embalagem bonita,
    vende!” E a moçoila até está longe, muito
    longe, de ser bonita.
    A intangível Lei da Oferta e da Procura
    mais uma vez prosperou!
    Triste é passar pelo Centro de São Paulo
    e vislumbrar o escárnio de seres humanos
    transmudados em zumbis. Jovens-crianças,
    adultos, velhos… Nichos de sofrimento e
    abandono. Ninguém dará um lance nesse
    leilão macabro.
    Todo o resto é pura bobagem ética.


    .

  • Ixe

    -

    23/11/2012 às 15:15

    Prezado Setti, dessa vez vou discordar. Aliás, nem sei se é discordância de fato, pois você apenas expõs a questão. De todo modo, lá vai.
    Antes, digo que sou pai e avô de meninas. Tenho filhas adultas e adolescentes e, até por esse forte motivo, fiquei horrorizado com o leilão da virgem. Mas ainda assim, acho que se trata de uma questão de foro íntimo, pessoal, intransferível e como defensor intransigente da liberdade individual, respeitando-se o limite do próximo, não acho que caiba ao Estado interferir nesse tipo de decisão. É uma questão de (falta de) educação e de princípios, mas no âmbito individual. Pelas mesmas razões sou visceralmente contra o voto obrigatório, mesmo conhecendo os antecedentes históricos, de currais e coronéis. Mesmo assim, se tivesse vivido no início da República, seria contra a obrigatoriedade eleitoral. Até a eutanásia, se partir de uma manifestação de vontade lúcida e livre, não acho que deva ser vedada pelo Estado, entendo. No caso dessa pobre-coitada desesperada, se é emancipada e está lúcida, não cabe a mais ninguém decidir sobre o seu corpo. Por mais imoral que eu ache a decisão dela. Mais até do que no caso de abortos, pois ela decidiu apenas sobre o próprio corpo, enquanto que ao abortar , a mãe decide por duas pessoas (ou uma pessoa e mais uma “semente”).
    Ao contrário da compra e venda de votos ! Aí estamos no terreno da coisa pública que é coletiva.
    Um parlamentar recebe um mandato da coletividade a quem deve satisfações e respeito, ao contrário do que pensam mensaleiros e o lulopetismo de modo geral. Vender o mandato é desrespeitar a regra do jogo democrático e trair a coletividade que o elegeu. São casos muito distintos, o da moça e o de parlamentares venais.
    Penso que são casos muito distintos, sem comparações possíveis.

  • Mairalur

    -

    23/11/2012 às 15:10

    Todas as vezes que se vão pervertendo valores tradicionais, surgem os exageros. Já se ouviu um doente dizer que ” a sociedade ainda não aceita a pedofilia”, vaticinando que um dia a aceitará. É preciso entender que se valores, quando abandonados, só se restringem àquele que os abandonou, vá lá. É um direito que lhe cabe. Comunicar geral, aí, não.

  • Jayme Guedes

    -

    23/11/2012 às 15:09

    Sexo por dinheiro é prostituição, pouco importando se a primeira ou a milésima vez da prostituta. A novidade no caso foi trazer a competição através do leilão. Faz parte da nossa natureza competitiva querer ganhar. O vencedor sabe que com aquela grana ele teria umas 150 virgens aqui mesmo. Mas no leilão ele tinha dois objetivos, a virgem e a derrota dos demais competidores.

  • danir

    -

    23/11/2012 às 14:25

    Francamente não vejo muita diferença entre prostituição e este leilão. Se por um lado não podemos cercear o direito de um indivíduo se valer da prostituição, tambem não podemos concordar que estes valores sejam alardeados como coisa comum e recomendáveis. Na verdade, preconceituosamente ou não, eu não gostaria que esta moça fosse amiga de minhas filhas ou de minha neta. Penso que ela não tem nada a oferecer a não ser algo que logo será de segunda mão. É muito pouco realmente.

 

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