Blogs e Colunistas

10/06/2012

às 19:39 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: Se Carlinhos Cachoeira não é o fornecedor único dos recursos, nem o principal, quem paga a corrupção?

CACHOEIRAS E CASCATAS

Vamos fazer as contas?

Então vá lá: de acordo com o Conselho de Controle das Atividades Financeiras, Coaf, do Ministério da Fazenda, o empresário zoológico Carlinhos Cachoeira lucrou 3 milhões de reais em 2011.

Dá para viver bem, muito bem; mas não dá para montar uma teia de distribuição de recursos ilegais estendida por boa parte do país. É como achar que aquele carequinha do Mensalão brincava de política com seus próprios recursos. Para isso, o dinheiro é curto.

A pergunta surge naturalmente: se Carlinhos Cachoeira não é o fornecedor único dos recursos, nem o principal (e talvez nem o seja, limitando-se a operar e a ficar com uma parte), quem paga a corrupa?

A outra pergunta é óbvia: quem tem interesse em montar uma caríssima rede de corrupção, que envolve altos funcionários de vários Estados?

Só pode ser gente interessada em obter favores que lhes garantam lucros muito maiores do que as propinas que distribuíram.

A esposa de Cabral e de a Sérgio Cortês, na "farra de Paris", no hotel Ritz, na famigerada viagem, expondo seus modelitos Christian Louboutin, de sola vermelha, que custam R$ 10.000 o par (Foto: Reprodução)

As mulheres de SérgioCabral e de Sérgio Cortês, na "farra de Paris", no hotel Ritz, durante a famigerada viagem, expondo seus modelitos Christian Louboutin, de sola vermelha, que custam 10 mil reais o par

A foto de cidadãos inebriados pelo sucesso dançando com guardanapos na cabeça, de esposas felizes exibindo caríssimos sapatos de sola vermelha, não sai da cabeça deste colunista. Um dos integrantes da Turma do Guardanapo era governador; outro, empreiteiro.

Sua empreiteira recebeu, só em 2012, só da União, 238,8 milhões de reais (em maio, com o escândalo já devidamente divulgado, o governo federal pagou-lhe 55,2 milhões).

Só?

Não: o mais generoso dos bancos estatais, o BNDES, de juros mais bonzinhos, deu-lhe também 139 milhões.

Cachoeira não gera água. Só exibe, lindamente, as águas que vêm de cima.

 

Inverno quente

Se o caro leitor encontrar homens de terno e gravata apertados às paredes, de costas, estará na CPI do Cachoeira. Não que todos se abracem com o punhal buscando espaço entre as costelas dos colegas: há também abraços sem punhal, conhecidos como “abraço de urso” e “abraço de tamanduá”.

Mas, enfim, o PMDB combinou com o PT que quebraria os sigilos do governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, para descobrir como é que se vende uma casa recebendo mais de uma vez por ela e sempre sem saber de quem.

Em troca, seria poupado o peemedebista Sérgio Cabral, governador do Rio e sócio-atleta da Turma do Guardanapo, e o petista Agnelo Queiroz, governador de Brasília.

Em uma CPI, quem está descontente é que conta as melhores histórias (Foto: Geraldo Magela / Agência Senado)

Em uma CPI, quem está descontente é que conta as melhores histórias (Foto: Geraldo Magela / Agência Senado)

Nos bastidores, o PMDB combinou com o PSDB que, em troca da proteção tucana a Cabral, protegeria Perillo e pegaria Agnelo (aí com apoio de PP e PR, aliás aliados do PT). Amanhã o PT decide o que fazer. Perillo fala na terça, Agnelo na quarta. Vai sobrar gente descontente.

Em CPIs, são os descontentes que contam boas histórias.

 

Guerra aos professores

Abra os jornais, ligue a TV, vá à Internet, ouça o rádio: a notícia mais difícil de encontrar é uma das mais importantes que ocorrem no país.

As universidades federais estão em greve, com adesão superior a 70%.

É problema de salários, mas também é problema de desleixo.

Em Guarulhos, SP, o então ministro Fernando Haddad inaugurou unidades sem salas: tudo algum dia vai ser construído. As fotos de estudantes universitários entre ruínas e entulho são terríveis.

Alunos colocam faixas durante ocupação na Unifesp de Guarulhos; situação é precária (Foto: Joel Silva/Folhapress)

Alunos colocam faixas durante ocupação na Unifesp de Guarulhos; recém-inaugurada, e já em situação precária (Foto: Joel Silva/Folhapress)

As instalações são tão ruins que a taxa de evasão de estudantes atingiu 42%. No Vale do Jequitinhonha, a universidade federal criada há cinco anos só tem 20% das instalações construídas.

Falar bem de professores todo mundo fala, lançar ministros da Educação a cargos públicos é moda, mas gastar com ensino, que é bom, e pagar direito a quem ensina nossos filhos, parece que é tabu.

Na rede universitária federal, há professores com salário inicial de 1.500 reais. É menos do que o salário pago pela Prefeitura de São Paulo para um professor de educação infantil, também em início de carreira. E que já não é um salarião.

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

14 Comentários

  1. jefff

    -

    12/06/2012 às 11:10

    Guarulhos não fica na abc. A UFABC fica em santo andré e são bernardo.

  2. Luiz Carlos

    -

    11/06/2012 às 17:51

    O Coitado do Cachoeira é o MAIS INOCENTE nesta história toda…

  3. Renato

    -

    11/06/2012 às 17:51

    Prezado Setti:
    Posso dizer que o articulista não teve o cuidado necessário para afirmar o que gostaria de provar. Mesmo os professores assistentes não ganham o valor que ele informa. Mas, diferente do que outro comentarista diz aqui, não existe, nas universidades, salários de R$ 20.000,00. Um professor titular, em final de carreira, ganha por volta de R$ 14.000,00 e não tem, desde FHC, aposentadoria especial de 25 ou 30 anos. Essa aposentadoria vale apenas para professores de ensino básico ou médio.

  4. Marco

    -

    11/06/2012 às 16:49

    Dom Setti: Ainda com férias de 4 meses e mais greves, no fim à cabo trabalham apenas 6 meses por ano. Fora todos os privilégios turísticos d eventos e etc…
    Abs.

  5. Marco

    -

    11/06/2012 às 16:45

    Dom Setti: Aqui na Ufrgs, o inicial é R$ 7.550,00 e depois de 4 anos passa para R$ 12.000,00 e termina em R$ 20.000,00. Na aposentadoria! Lula é adorado por eles pq concedeu mais de 1.000% de aumento desde q assumiu até o final do mandato. Aposentadoria especial de 25 anos.
    Abs.

    Essa de 25 anos bem que eu gostaria de ter, hahahaha. Eu, que trabalho há 47 anos…

    Abração

  6. Think tank

    -

    11/06/2012 às 16:36

    Estes ai em nada diferem daqueles sanguinários ditadores africanos que saqueiam a nação e deixam a saúde, educação, segurança, e toda infraestrutura do país num caos total.
    Todos sorridentes torrando o nosso suado imposto, corroendo o bem estar social de todos os brasileiros, são os parasitas, câncer do Brasil.

  7. Think tank

    -

    11/06/2012 às 16:27

    Quem paga a corrupção na Cleptolândia não é o Cachoeira nem Cavendish, somos todos nós graças a este sistema farsesco comandado por gangues que tomaram os três poderes.

  8. Marcelo

    -

    11/06/2012 às 16:09

    Renato,
    se voce se refere a Prof. Adjunto ou Titular, o salartio em inicio de carreira e proximo dos R$ 4.000,00, mas e para os cargos de Prof. Assistente ou Auxiliar? Nos principais centros, essas figuras nao existem, mas e em centros menores? Por acaso nao ha mais universidades federais que nao tenham professores nesta etapa da carreira?

  9. Renato

    -

    11/06/2012 às 14:31

    Mentira. Trabalho em universidade federal e sei que nenhum professor em início de carreira ganha menos do que quatro mil reais. Irresponsabilidade de quem quer afirmar suas convicções sem buscar os dados verdadeiros.

    E não há uma forma mais gentil, mais delicada e mais educada de dizer que o articulista se enganou?

  10. Marco

    -

    11/06/2012 às 13:03

    Dom Setti: Pois é, ultimamente tenho ficado preocupado com o nosso Brickmann, acho q é efeito do coringão, ou a decepção com o Imperador. Faz um texto brilhante desses, e no final acaba estragando o texto. Na realidade o q temos é professores militantes partidarios do exercito petista.
    Abs.

  11. ze do matogrosso

    -

    10/06/2012 às 23:42

    …Excelente artigo. A indignação é tanta, com os malfeitos e a impunidade, que não permite fazer um comentário coerente.

  12. Pedro Luiz Moreira Lima

    -

    10/06/2012 às 21:14

    Não sei está ou não,caso uma dessas moças for a que morreu num trágico acidente de helicóptero, junto com um filho ou filha pequena – mostra bem a falta de cuidado,humanidade dos jornalistas.
    Não faço a defesa de ninguem e sim respeito – devo estar exigindo demais, pedir respeito a jornalistas.
    Caso não esteja – gato escaldado…não fizeram isso?assim não peço desculpas.
    Pedro Luiz

  13. Luiz Pereira

    -

    10/06/2012 às 20:22

    Setti,
    Paulo Francis vira e mexe dizia que nosso cotidiano é de grande vulgaridade.
    Ao ver a sola dos sapatos das madames, impossível discordar.
    Essa foto, mais a dos guardanapos de Napoleão, já seriam bastante para levar Cabral e Cavendish até a CPI. Nem que fosse para ouvirmos seus silêncios.
    As fotos falam mais do que eles jamais estariam dispostos a confessar.
    abs

  14. Teresinha

    -

    10/06/2012 às 20:20

    Bem colocado, a gastança de um lado (sem falar dos novos casos de corrupção) e uma das principais atribuições de um governo – Educação, totalmente precária: estrutura/valorização pessoal/plano curricular – apesar dos gastos exacerbados em publicidade, a realidade é outra.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados