25/05/2012
às 18:57 \ Vasto MundoEgito: presidente saído das eleições de hoje terá que enfrentar a “república dos generais aposentados”

Eleição no Egito será decidido entre Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, e Ahmed Shafik (ex-primeiro Ministro) (Foto: EPA / AP)
Seis décadas de ditadura e de generais, mais de um ano de agitações políticas e de um governo de junta miliar após a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro do ano passado, 50 milhões de eleitores, 13 candidatos, 10 outros impedidos de participar do pleito por várias razões — e o maior país do mundo árabe, o Egito, finalmente e a muito custo, realizou suas eleições presidenciais livres.
De todo o processo, ficaram para a disputa do segundo turno, conforme informações ainda não oficiais divulgadas no Cairo, Mohammed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana, organização islâmica que já foi radical e caminhou para a moderação, e Ahmed Shafid, ex-primeiro-ministro do ditador Mubarak.
Vença quem vencer, não faltarão problemas ao novo presidente, que lidará com uma Assembleia Popular da qual dois terços dos 508 deputados são de partidos islâmicos: pobreza extrema entre a maioria dos 85 milhões de egípcios, as tradicionais carências brutais nas áreas de educação, saúde, saneamento básico, infraestrutura etc, sem contar com a discriminação existente contra os egípcios cristão do rito copta (4 milhões de cidadãos).
Do ponto de vista político, além da complexidade que será tratar com a Assembleia e suas dezenas de partidos, o futuro presidente, se quiser levar em frente a multidão de ideais que impulsionou a “primavera árabe” no país, terá como enorme desafio para a real democratização da sociedade enfrentar o poder militar. Além do poder das armas, as Forças Armadas (e principalmente o Exército) constituem, também, uma tentacular potência política e econômica no país.
Significativamente, ao longo da campanha em que se engalfinharam candidatos islamistas, laicos, pró-ocidentais ou hostis ao Ocidente e até veteranos da “revolução” que derrubou a monarquia, em 1952, não se tocou no assunto da desmilitarização do Estado egípcio.
Em célebre artigo que escreveu durante a ditadura no Brasil, o falecido (e corajoso) jornalista Arnaldo Pedroso d’Horta realizou um levantamento sobre o número de militares que ocupavam cargos públicos civis e concluiu afirmando que tinha general cuidando até de merenda escolar.
No fim da carreira, belos cargos ganhos de presente
No Egito, é muito pior. O Egito é uma verdadeira república de generais da reserva.
É praxe, consolidada ao longo de quatro ditadores oriundos dos quarteis desde 1952 — o general Mohammed Naguib, o coronel e criador do Movimento Não-Alinhado Gamal Abdel Nasser, o general Anuar el Sadat e o general da Força Aérea Hosni Mubarak –, que os altos oficiais, ao irem para a reserva, ganham de presente belos cargos como a presidência de indústrias do setor bélico, o governo de província, diretorias de empresas petrolíferas e outras, o que inclui uma instituição fundamental para a economia do Egito, como a estatal que administra o Canal de Suez.
As Forças Armadas, e principalmente o Exército, possuem empresas nos setores de construção civil, alimentação e transportes, entre outros, todas dirigidas por militares. A elite militar goza de todo tipo de privilégio e raro é o caso de um alto oficial que não seja muito rico.
O novo presidente tomará posse no próximo dia 30 de junho.
Tags: Ahmed Shafik, Canal de Suez, Eleições no Egito, governadores provinciais, Hosni Mubarak, instabilidade política, Irmandade Muçulmana, Mohammed Morsi, poder das Forças Armadas, presidentes de estatais, privilégios, protestos, república de generais da reserva, tortura

















































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