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Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências

Sobretudo como ferramenta de trabalho, os encontros on-line anda causando cansaço mental que já tem nome

Por André Lopes - Atualizado em 15 Maio 2020, 13h54 - Publicado em 15 Maio 2020, 06h00

É provável que nunca tantos tenham ficado tão próximos mesmo estando distantes. O motivo para esse paradoxo, claro, é a pandemia do novo coronavírus — que, de resto, vem virando de cabeça para baixo outras incontáveis facetas da vida social. Mas, se é verdade que tecnologias como a da videoconferência — que permite vizinhança na distância — não surgiram com a Covid-19, foi devido à sua propagação, e à necessidade de isolamento social para contê-la, que tais ferramentas explodiram mundo afora.

Em poucos meses, aplicativos mais antigos como Skype e Hangouts, e os novatos Houseparty e Zoom, transformaram-se em acessórios indispensáveis para o dia a dia — seja para permitir que parentes e amigos joguem conversa fora, seja, sobretudo, para viabilizar a prática de home office e do ensino a distância compulsório. Não sem cobrar um alto preço — e, isso, insista-se, em um período reduzidíssimo de tempo. O preço: um inédito cansaço mental — que já ganhou até nome (em inglês): Zoom fatigue.

Do que se trata? O termo, que, num primeiro momento, faz menção a um dos mais populares aplicativos de videoconferência, revela uma fadiga, como o próprio nome indica, a que o cérebro se vê submetido após uma sucessão de sessões diante da tela. O fenômeno se dá em especial no caso do trabalho remoto. Com o contato presencial anulado, a necessidade de chamadas para novas interações cresce, fazendo com que, no fim do expediente, a pessoa sinta como se houvesse passado o dia em uma longa e interminável reunião.

Para os estudiosos do comportamento humano, o esgotamento pode ser explicado com facilidade. Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. Ele recolhe — como se fizesse, digamos, um “zoom” — significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais, como olhares, movimentos do corpo e até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte. “Como somos animais sociais, perceber essas pistas no contato direto é natural, requer pouco esforço cognitivo e pode estabelecer as bases para relações mais íntimas como a amizade”, afirma o psicólogo carioca Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. “Contudo, no caso de uma chamada de vídeo, essa habilidade é parcialmente prejudicada”, explica ele. “Além disso, a imagem da galeria onde todos os participantes da reunião aparecem desafia a visão central do cérebro, forçando-o a decodificar tantos indivíduos simultaneamente que nada é absorvido de maneira significativa, o que gera tensão — e stress.”

Outro problema são os travamentos e dessincronias que ocorrem durante as chamadas. Segundo um estudo feito por acadêmicos alemães em 2014, um pequeno intervalo de 1,2 segundo entre a voz e a imagem é capaz de trazer à mente, com maior frequência, a impressão de que a outra pessoa é menos amigável ou está desatenta à conversa. Nesse sentido, até a ligação telefônica tradicional parece ser menos cansativa para o cérebro, o que recomenda fortemente seu uso — aliás, retomado com força nestes dias de surto epidêmico.

É possível que em algum momento surjam recursos que atenuem o cansaço mental que as videochamadas têm provocado. Ou que acabemos nos acostumando com ele. Até lá, se a Zoom fatigue bater, e houver oportunidade, desligue a câmera. E desligue-se um pouco.

Publicado em VEJA de 20 de maio de 2020, edição nº 2687

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