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Médicos usam exame papanicolau para detectar câncer de ovário e endométrio

Primeiros resultados mostraram que o teste diagnosticou 41% dos cânceres no ovário e 100% dos tumores no endométrio. Atualmente, não há nenhum exame preventivo eficaz para ambas as doenças

Por Vivian Carrer Elias 9 jan 2013, 20h12

O Papanicolau, exame ginecológico no qual células do colo do útero são recolhidas e que ajuda a detectar câncer cervical, pode também ser útil no diagnóstico do câncer do endométrio e de ovário, doenças para as quais ainda não existe um teste eficaz de prevenção. Foi o que demonstrou uma equipe internacional de pesquisadores, entre eles dois brasileiros, em um estudo desenvolvido na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira na revista Science Translational Medicine.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Evaluation of DNA from the Papanicolaou Test to Detect Ovarian and Endometrial Cancers

Onde foi divulgada: revista Science Translational Medicine

Quem fez: Isaac Kinde, Jesus Paula Carvalho, Suely Kazue Nagahashi Marie, Nickolas Papadopoulos, Kenneth W. Kinzler, Bert Vogelstein, Luis Diaz e equipe

Instituição: Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos; Universidade de São Paulo

Dados de amostragem: 24 mulheres com câncer endometrial e 22 com câncer de ovário

Resultado: Analisar mutações genéticas associadas aos cânceres endometrial e de ovário a partir da coleta do material do colo do útero pode diagnosticar as doenças de forma segura

No estudo, os pesquisadores coletaram material do colo do útero de pacientes, mas, em vez de procurarem por células cancerígenas, como acontece quando os médicos investigam o câncer cervical, eles buscaram mutações no DNA associadas ao câncer de ovário ou do endométrio. “Ou seja, não estamos mais buscando células cancerígenas, mas sim moléculas. É um Papanicolau molecular, digamos assim. Por isso ele recebeu o apelido de ‘PapGene'”, disse ao site de VEJA Jesus Paula Carvalho, chefe de Equipe de Ginecologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e um dos autores desse estudo. A precisão dos primeiros testes do ‘PapGene’ foi de 100% para o câncer endometrial e 41% para o câncer de ovário.

Essa não é a primeira vez, porém, em que uma análise genética é feita a partir da secreção vaginal coletada das mulheres – médicos já conseguem fazer o diagnóstico de HPV e clamídia por meio desse exame.

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A busca pelo exame ideal – O estudo foi feito em dois momentos. No primeiro, os pesquisadores procuraram identificar quais são as mutações genéticas mais comuns no câncer de ovário e do endométrio. Para isso, eles se basearam nos dados disponíveis sobre o sequenciamento genético de cada uma dessas doenças. A partir dessas análises, os autores identificaram 12 das mutações mais frequentes de cada um desses cânceres.

Com base nesse padrão estabelecido pela análise, a equipe desenvolveu o ‘PapGene’ e o aplicou em 24 mulheres com câncer endometrial e 22 pacientes com câncer de ovário. O teste conseguiu detectar todos os casos de câncer do endométrio e 41% dos casos de câncer de ovário. O diagnóstico foi feito em casos em que a doença já estava tanto em estágios mais avançados quanto iniciais. Quando o teste foi aplicado em um grupo de controle de mulheres saudáveis, ele não detectou câncer em nenhuma delas.

Para o ginecologista Jesus Paula Carvalho, embora a eficácia do teste no diagnóstico de câncer de ovário tenha sido de 41%, é possível considerá-la alta e encarar esse resultado como um avanço significativo. “Tudo o que foi testado antes teve resultados pífios. Portanto, um exame que, de saída, já mostra 41% de eficácia é algo muito bom. Agora é questão de evoluirmos e refinarmos o método. Mas já foi aberta uma grande perspectiva de diagnóstico de câncer de ovário sem a necessidade de procedimentos invasivos na mulher.”

Ainda de acordo com Carvalho, é possível dizer que esse teste tem grandes chances de passar a ser feito na prática clínica. “Não há muitas dificuldades em se lançar esse teste, já que ele faz uso de uma tecnologia conhecida. Não saberia dizer a data que isso vai ser feito, mas não vejo dificuldade para que comece”, diz. “Mas para isso, nós precisamos delimitar muito bem quais são as alterações genéticas do câncer de ovário.”

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CÂNCER DE OVÁRIO

O câncer de ovário não é o tumor ginecológico mais frequente entre as mulheres, mas é o mais agressivo. Isso porque ele é muito difícil de ser diagnosticado e é aquele com a menor chance de cura – cerca de 3/4 dos casos desse tipo de câncer já estão em estágio avançado no momento do diagnóstico. Mesmo assim, as principais entidades médicas do mundo não recomendam exames de prevenção para a doença, que incluem uma análise de sangue e a ultrassonografia dos ovários, em mulheres saudáveis pois, além de não reduzirem a mortalidade da doença, podem levar a cirurgias desnecessárias. Para piorar, quando a mulher sente os primeiros sintomas da doença, como sensação de empachamento (sensação de estômago cheio) e outras alterações intestinais, ela está, na maioria das vezes, em estágio avançado e é praticamente incurável. Cerca de 5% dos casos desse câncer são hereditários. A incidência da doença pode ter relação com o número de ovulações – por isso, tomar pílula e engravidar muitas vezes pode ajudar a reduzir o risco do problema.

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