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“Não dá para ficar de braços cruzados à espera da vacina”, diz Unifesp

Em entrevista a VEJA, Soraya Smaili, reitora da Universidade Federal de São Paulo, afirma que a instituição trabalha com diversos remédios para a Covid-19

Por Mariana Rosário - Atualizado em 10 set 2020, 14h44 - Publicado em 10 set 2020, 14h20

A notícia divulgada na noite da última terça-feira, 8, de que o laboratório Astrazeneca suspendeu os testes da vacina contra a Covid-19 desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, representou um balde de água fria para muitos. Em curso no Brasil, os estudos também foram paralisados até que se tenha maiores esclarecimentos acerca das razões que levaram um paciente dos testes de fase 3 ao adoecimento. A entidade coordenadora do estudo aqui no país, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi informada da interrupção na própria terça a noite. Os testes caminhavam em ritmo acelerado no país e todos os 2.000 voluntários de São Paulo já haviam recebido as primeiras doses sem qualquer efeito adverso grave. Há ainda outros voluntários no Rio de Janeiro e em Salvador que também já tinham recebido as agulhadas nos últimos meses.

Em entrevista a VEJA, a reitora da Unifesp, Soraya Smaili, afirma que a entidade sempre trabalhou em diferentes frentes sem apostar todas as fichas unicamente na vacina. Nos laboratórios da instituição e nas dependências do Hospital São Paulo, dezenas de medicamentos são testados todos os dias em busca de apresentar respostas para a doença em tempo recorde. “Pode ser que tenhamos medicamentos antes da vacina”, disse à reportagem.

 

 

Quando vocês foram notificados sobre a pausa dos testes da vacina de Oxford? 

Recebemos a informação na terça à noite.  Esse fato não é uma coisa sem importância, mas é por isso que existem estudos, para que possamos observar as reações. Casos assim ocorrem até com medicamentos aprovados. Ainda não é sabido se o evento está relacionado à vacina, ou não, temos que esperar mesmo. Os voluntários seguem em acompanhamento aqui e no mundo inteiro. São 40.000 ao todo e no Brasil 5.000, sendo 2.000  em São Paulo. Mas não podemos ficar de braços cruzados de forma alguma, estamos nos movimentando muito. Estou dizendo há algum tempo que não devemos pensar só na vacina, mas olhar para pesquisas boas e importantes acontecendo em paralelo. Pode ser que tenhamos medicamentos antes da vacina.

Como foi o impacto da suspensão na universidade?

Já tivemos outros estudos interrompidos por segurança, como o conduzido com a cloroquina e a azitromicina. Continuamos trabalhando e muito. Há inúmeras coisas acontecendo que vão muito além da vacina. Nunca estivemos focados em uma única pauta, são 170 projetos envolvendo seres humanos para dar respostas à Covid-19. Temos pesquisas clínicas e em laboratórios com medicamentos. Há também projetos na área de enfermagem, estudos acerca da reutilização de máscaras, observando a possibilidade de testar novos antissépticos para superfícies. Há ainda grupos que fazem pesquisas socioeconômicas com comunidades carentes e vulneráveis, para ver onde estão os óbitos e qual a população que está sendo mais atingida. Saúde mental também é um assunto, há grupos que analisam o trauma dos residentes e profissionais da saúde envolvidos nesse atendimento. Toda a área da saúde na Unifesp está focada em ter respostas para o tratamento e barrar o contágio da Covid-19. Não é só a vacina. Repito. Enquanto ela não vem, temos de encontrar outras saídas, outras soluções.

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Quantos remédios estão em teste?

Só em em ensaios clínicos, com humanos, há em torno de dez medicamentos em análise. Ainda há uma série de pesquisas sendo feitas com fármacos no laboratório, pelo menos umas vinte. O nosso objetivo é pegar um medicamento que já existe e é usado para outras doenças e analisá-los para o coronavírus. Esses medicamentos, que já têm a liberação da Anvisa, estão aprovados nas fases 1 e 2 para outras doenças e, portanto, são seguros. O que agiliza o processo. Aqui, testamos um grande número deles em laboratório, com o uso de células infectadas com o novo coronavírus. Esses testes de laboratório são feitos em larga escala, com vários medicamentos, mas a escolha não é aleatória. Há uma lógica. Verificamos os medicamentos que influenciam em uma determinada ação no processo celular, chamada autofagia. Essa autofagia pode contribuir para a eliminação de uma infecção de uma célula infectada. Quando algum vírus, como o novo coronavírus, entra na célula, forma-se uma espécie de cápsula, e dentro da célula do hospedeiro ele começa a se multiplicar. Ao estimular a autofagia, é possível que o sistema celular encapsule e elimine esse vírus. Essa é uma possibilidade que estamos estudando. Há alguns remédios no laboratório que mostram que podem fazer isso. E por consequência eliminam o vírus da própria célula. Temos dados interessantes, que estão indo para publicação. Até o fim de setembro saem publicações importantes. São resultados promissores.

Como são conduzidos os testes com remédios que envolvem a participação de voluntários?

Os voluntários são os nossos pacientes e também de outros hospitais. A Unifesp teve cerca de 1.000 internações e cerca de 9.000 atendimentos em ambulatório para Covid-19 até agora. Os nossos ensaios clínicos ocorrem em formato de coalizão, ou seja, o Hospital São Paulo junto de outras instituições. Cerca de 30% dos pacientes que foram internados aqui participaram dessas análises.

Quais estudos tiveram até agora bons resultados?

Temos duas publicações com corticoides, que revelaram ser possível diminuir o tempo de internação e da necessidade do uso de respiradores. Há também estudos em pacientes feitos com a heparina, um remédio antigo. Segue a mesma lógica dos ensaios em laboratório, vamos pegar aquilo que é seguro e que não prejudicará os pacientes e verificar se conseguimos uma melhora nos casos de Covid-19. A heparina parece que tem resultados positivos, eles devem sair em breve. Recentemente começamos a testar o remdesivir, o antiviral que foi aprovado nos Estados Unidos, com bons resultados para o tratamento da Covid-19. 

 

 

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