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Choque de realidade

Artistas e anônimos lotam os estúdios que casam malhação com impulsos elétricos sobre os músculos para acelerar resultados. Não pense que é algo fácill

Por muito tempo foi piada: a pessoa punha uma faixa acoplada a eletrodos no abdômen, ligava um aparelho, sentava para ver TV e, alguns minutos de choquinhos depois, a “ginástica” para endurecer e definir músculos estava completa, sem esforço, suor ou lágrimas. Evidentemente, isso era pura balela. Agora, o tratamento de choque está de volta na multiplicação, por toda parte, da eletroestimulação muscular (EMS, na sigla em inglês) — só que com mais seriedade e, sim, com bons resultados. As sessões duram vinte minutos, exigem roupa especial e, acompanhadas de profissional qualificado, podem aumentar em até seis vezes a intensidade da musculação (isso mesmo: é preciso malhar junto), fazendo de cada treino o equivalente a mais ou menos uma hora e meia de academia convencional. As famosas, claro, abraçaram os eletrochoques com entusiasmo. A atriz Bruna Marquezine postou um vídeo comprovando — com gemidos, inclusive — o esforço, que também atrai adeptas como Marina Ruy Barbosa, Grazi Massafera, Juliana Paes, Carolina Dieckmann e Mariana Ximenes.

O processo de estimulação artificial de músculos começa vestindo-se legging e camiseta colados ao corpo e, por cima, colete e braçadeiras equipados com placas e fios conectados a um aparelho. O treinador define a carga de impulsos elétricos e os locais que vão recebê-los. Cada “choque” dura cerca de quatro segundos, seguido de intervalo igual, e os impulsos são capazes de estimular 300 músculos de uma área, ou 98% do total, contra no máximo 50% no treinamento comum. “A eletroestimulação vai direto para as fibras que mais produzem resultados, mas que também são as que mais demoram a ser acionadas nos exercícios tradicionais”, explica o personal trainer Chico Salgado, que adotou o método como complemento nos treinamentos de ginástica funcional e lutas.

Por sua alta intensidade, recomenda-se a prática uma vez por semana, no máximo duas. Cada sessão custa, em média, 150 reais. Desligada a máquina de eletroestimulação, haverá na sua frente um atleta resfolegando, com o suor escorrendo pelos cabelos. “A gente sente o corpo inteiro trabalhando”, descreve a atriz Maria João, 43 anos, que incluiu o EMS na sua rotina com o objetivo de ganhar mais força nos membros superiores. “Estou acostumada a fazer balé, jogo futevôlei e frequento academia. Nada é tão cansativo quanto o treino combinado com a eletroestimulação”, confirma a universitária carioca Julia Kurtz, de 19 anos, que se submete ao tratamento de choque há dois meses.

Os equipamentos de eletroestimulação muscular usados no Brasil são importados principalmente da Alemanha, onde o método vem sendo desenvolvido faz uma década, e têm o selo de aprovação da Anvisa. Antes mesmo de se unir aos exercícios físicos, o EMS já era utilizado como auxiliar na recuperação de lesões em atletas como o tenista Rafael Nadal e o velocista (hoje jogador de futebol) Usain Bolt. O centro de treinamento do Corinthians, em São Paulo, conta com um aparelho desse tipo. Sozinho, no entanto, o efeito, em qualquer circunstância, é pífio. “A eletroestimulação não é segredo de sucesso. Mas pode ser um bom complemento”, atesta o médico Sérgio Maurício, da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. Ou seja, desconfie dos canais de televendas: prometer músculos firmes e definidos sem suar muito a camiseta é, e sempre foi, nada além de desinformação.

 

Publicado em VEJA de 3 de outubro de 2018, edição nº 2602