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“Foi com tristeza”

Presidente do Masp, Heitor Martins diz que vetou mostra a menores por temer ação judicial, mas gostaria que pais obtivessem liminares para levar seus filhos

Consultor empersarial e dono de uma poderosa coleção privada de arte brasileira, Heitor Martins, de 49 anos, tem usado seus conhecimentos financeiros para sanar instituições artísticas. Depois de equilibrar as contas da Fundação Bienal de São Paulo na condição de presidente, assumiu o comando do Museu de Arte de São Paulo (Masp) em 2014 e trilhou o mesmo caminho. O museu paulistano, que reúne a maior coleção de arte europeia fora da Europa e dos Estados Unidos, somava débitos de mais de 75 milhões de reais. De lá para cá, Martins equacionou as dívidas ao promover mudanças na equipe e atrair doações do empresariado. Sua gestão passava longe de controvérsias até que a exposição Histórias da Sexualidade começou a fazer barulho dias antes de sua abertura, em 20 de outubro, na esteira de polêmicas de outros eventos de arte, como a mostra Queermuseu, cancelada em Porto Alegre em razão de protestos inflamados. Pela primeira vez, uma mostra do Masp será proibida para menores de 18 anos. Por quê? Martins explica que só tomou essa decisão, que ele próprio lamenta, depois que advogados contatados pelo museu apontaram o risco de a exposição ser suspensa pela Justiça, com base em alguns pontos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A seguir, sua entrevista.

Histórias da Sexualidade estava planejada desde 2015. Quando a classificação etária passou a ser discutida? Houve uma reunião do Conselho do Masp em 20 de setembro e, nesse dia, apresentamos as alternativas legais para a mostra. A questão da classificação etária ganhou dimensão em virtude do que vem acontecendo em nossa sociedade. O debate está quente e, ao abrirmos a exposição, nós nos colocamos no centro dele. Queríamos assegurar a realização da mostra para que o público tivesse acesso às obras e a essa pesquisa curatorial, que é séria e profunda e envolveu um trabalho de mais de dois anos ao custo de cerca de 1,5 milhão de reais. Queríamos garantir que o museu fosse um espaço de liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, pareceu-nos imprescindível fazer isso dentro dos parâmetros do Estatuto da Criança e do Adolescente. Contratamos um escritório especializado, o Lilla, Huck, Otranto, Camargo, que indicou que a única forma era adotar a classificação de 18 anos. Foi com tristeza que tomamos essa decisão.

Pela credibilidade que possui, o Masp não poderia ter comprado a briga, já que se trata de decisão a contragosto? O nosso papel é bancar a exposição. Garantir que ela ocorra e, com ela, o debate. O que há é uma restrição etária por questões legais, o que é diferente de censura.

O escritório Lilla, Huck tem entre os sócios o pai de um conselheiro do Masp, o apresentador Luciano Huck. É uma indicação dele? Não. O sócio responsável pelo escritório, que é especializado no tema, era colega de nossa diretora de relações institucionais, Juliana Sá, e fez o trabalho pro bono. O Luciano Huck, assim como os conselheiros em geral, não tem participação no dia a dia do museu. Ele não foi consultado e não opinou em nenhum tema relacionado a essa ou a outras mostras. O Luciano colabora financeiramente e participa das nossas reuniões, em que contribui com temas referentes à divulgação em redes sociais, na TV e na mídia impressa, um assunto do qual ele entende muito. Nos outros campos, ele é bastante reservado. Nesse caso da classificação etária, nenhum dos 83 conselheiros interferiu.

O empresário Flávio Rocha, outro conselheiro do Masp, escreveu um artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em que diz que recentes exposições polêmicas são “parte de um plano urdido nas esferas mais sofisticadas do esquerdismo” e representam, por exemplo, uma ameaça à família. O senhor concorda? O grupo de apoiadores da instituição engloba pessoas com diversas crenças e pontos de vista. Essas visões não refletem a perspectiva do museu. Não acredito que a arte esteja sendo instrumentalizada pela esquerda ou pela direita, e não vejo como essas exposições possam ter algum objetivo premeditado de destruir ou confrontar o conceito de família.

Os adolescentes barrados para ver as obras da mostra têm à disposição pornografia em larga escala na internet. Há algo de paradoxal nisso? São as contradições que a gente vive dentro da lei. Não estou defendendo a lei, não. Eu particularmente acho que ela é bastante restritiva. As pessoas podem votar com 16 anos. Então, por que 18 é a idade correta para ter acesso a uma exposição? Estamos simplesmente seguindo a recomendação de advogados. O Masp cumpre a lei e cumpre o papel de promover o debate. É a sociedade que tem de definir que tipo de limitação deseja para as crianças. Existem grupos que acham que essa restrição não é suficiente. Já recebemos dois mandados de segurança. Um deles, no dia da abertura, pedia o fechamento. O pedido foi indeferido justamente pela classificação de 18 anos. A ideia de que grupos inconformados recorram à Justiça para flexibilizar o acesso aos filhos, a meu ver, enriquece o debate. Sob o ponto de vista do museu, quanto mais gente puder ter acesso à mostra, melhor.

O senhor avalia que o Santander Cultural agiu bem ao cancelar, em setembro, a mostra Queermuseu, sob acusações de fazer apologia da pedofilia e da zoofilia? Acho que tudo o que tira a liberdade de expressão de artistas e a capacidade de o museu manter a programação não é feliz. Qualquer coisa que cerceia a liberdade é negativa. É importante haver debate ponderado.

O quadro Cena de Interior II, de Adriana Varejão, um dos mais atacados pelos críticos da Queermuseu e presente em Histórias da Sexualidade, ganhou um texto explicativo do Masp. Ele foi redigido depois da acusação de “promover a zoofilia”? O quadro já estava previsto, mas o texto surgiu mesmo depois. Na medida em que a obra foi posta no centro de uma polêmica, cabe ao museu explicar ao público de que modo ela se insere no contexto geral e por que é importante. Não há dúvida de que ela não faz apologia de crime nenhum. O museu tem também esse papel de informar o público. É lamentável que esse debate atual ocorra de forma tão radicalizada, sem respeito à voz do outro. Todas as manifestações violentas, no sentido de fechar ou inibir a mostra e também no sentido de negar o direito de não gostarem dela, são ruins.

Como o senhor viu as críticas à performance La Bête, com um coreógrafo nu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que teve a participação de uma criança? O episódio ganhou proporções inadequadas. A performance não tem nada de pedofilia. Não vejo nenhum contexto sexual. Aquilo ganhou uma dimensão desmesurada, e as manifestações contra o MAM são muito negativas. As tentativas de invasão, as agressões contra os funcionários. É preciso haver respeito institucional. O debate é legítimo no plano das ideias e no plano jurídico. Se descamba para a violência, é condenável. Nelson Rodrigues disse: “Toda nudez será castigada”. Agora vivemos o modelo de que toda nudez será pedofilia. Estão esvaziando a palavra de sentido. É uma palavra séria, que está sendo esvaziada de sentido, banalizada.

O senhor já restringiu o acesso dos seus filhos a alguma obra de arte que considerou inadequada? Não, nós nunca impusemos nenhum tipo de restrição às nossas crianças, hoje com 18 e 20 anos. Mas é aquela história: pais vegetarianos não levam os filhos à churrascaria, nem por isso querem que as churrascarias sejam fechadas.

Algum artista se queixou da classificação etária? Sim, mas ninguém tirou a obra da exposição. O protesto que houve na frente do museu, diferentemente do que se pensou, foi de apoio à mostra. Muitos artistas que participam dela estavam lá, e o clima era ótimo.

No sábado, dia seguinte à abertura, havia fila logo cedo diante do museu. A polêmica da restrição a 18 anos pode ter ajudado na publicidade? Nós já esperávamos que a mostra tivesse uma grande procura em decorrência do tema e de tudo o que está acontecendo e sendo discutido na sociedade. Em 2016, fomos o museu com o maior público do país, com 430 000 pessoas. Neste ano, devemos terminar perto de 500 000 visitantes. A exposição foi realizada como planejado, está aberta e, mantidos os números atuais, pode vir a ser a mais visitada e comentada da história do Masp. Será um blockbuster.

O Masp chegou a viver uma crise financeira enorme. Como está a situação hoje? O museu tinha mais de 75 milhões de reais em dívidas quando assumi. Era uma situação de penúria, impostos e pagamentos de fornecedores atrasados. Equalizamos os passivos, e passamos a ter superávit todos os anos. E agora, com a criação de um fundo de doações, teremos um colchão de proteção, para que a saúde financeira continue assegurada. Já captamos 16 milhões de reais para essa reserva de emergência.

O empresário Assis Chateaubriand, ao criar o Masp, na década de 40, cobrava doações de obras e dinheiro da alta sociedade. Como se deu o trabalho da atual gestão de convencimento dos novos doadores? Foi fácil. O Masp é uma instituição icônica de São Paulo. Se você ilustrar a cidade, vai usar a imagem do museu. Se convocar uma manifestação, vai marcar em frente a ele. Isso facilita, mais do que no caso da Bienal de Artes, que acontece a cada dois anos apenas. Temos o maior programa de amigos do Brasil hoje, em que se pode entrar com contribuição de 80 reais, com acesso gratuito, sem fila, desconto na loja. Nossos conselheiros contribuem com valor inicial entre 70 000 e 500 000 dólares, além de uma anuidade de 35 000 reais. A credibilidade do projeto ajuda muito. E precisamos de contribuição. O orçamento para 2018 é de 40 milhões de reais.

Qual deve ser o investimento em cultura em tempos de crise? Muitos setores da economia têm subsídios, a começar pela indústria automobilística. Igrejas têm benefícios. A cultura é um instrumento de educação e desenvolvimento e parte essencial daquilo que nos define como nação. Além disso, o setor cultural tem importância econômica. É uma atividade da chamada economia criativa, com alto valor agregado, que gera muito emprego. Não é à toa que cidades como Londres e outras investem tanto na área.

A Lei Rouanet precisa ser alterada? Se for para mudar a Lei Rouanet, que seja com a ampliação do volume de recursos e de acesso e a redução da carga burocrática do processo. Por outro lado, quem sabe a isenção não devesse ser de 100%, salvo em casos específicos. Isso faria com que os doadores tivessem um vínculo mais forte com os projetos que apoiam e fossem mais criteriosos nas suas escolhas.

Publicado em VEJA de 1º de novembro de 2017, edição nº 2554