Clique e assine com até 92% de desconto

‘Pazuello pacificador’: os bastidores da reunião que irritou Bolsonaro

Encontro protagonizado pelo ministro da Saúde, governadores e líderes do governo teve aval à vacina do Butantan e ligações de Doria

Por Eduardo Gonçalves, Gabriel Mascarenhas 22 out 2020, 12h40

Como já virou praxe no governo Jair Bolsonaro, as reuniões palacianas estão sempre no centro das maiores confusões envolvendo o presidente da República e os seus ministros. Nesta semana, Bolsonaro entrou em rota de colisão com o seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que de “nobre soldado” e “predestinado” virou “traidor” por causa de uma reunião realizada na terça-feira, dia 20.

No encontro com 24 governadores, técnicos do Ministério da Saúde, representantes do Instituto Butantan e da Fiocruz e dois líderes do governo, Pazuello ainda tentou demonstrar humildade dizendo que os presentes estavam no nível de conversar diretamente com o presidente. Mas, como assunto competia à sua pasta, foi ele o escalado, segundo as suas próprias palavras. O assunto era delicado – a inclusão da vacina Coronavac, que será prouzida pelo Butantan, no Programa Nacional de Imunização (PNI) e a formalização da intenção de adquiri-la quando fosse aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Imunizante este que Bolsonaro queria distância por estar associado ao seu adversário prematuro de 2022, o governador João Doria (PSDB), e por sua origem chinesa.

Em meio a esse clima de conflagração que já vinha se desenhando nas últimas semanas, Pazuello foi elogiado pelos governadores e aclamado como o “pacificador do país” ao longo de toda a reunião, que durou cerca de duas horas e meia. No fim, ainda vazou um áudio de Doria telefonando ao ministro, parabenizando-o pela iniciativa e pedindo-lhe permissão para postar um vídeo. “Amanhã faço as referências que você merece”, diz o governador de São Paulo no áudio.

As menções honrosas na reunião somadas ao vídeo publicado pelo tucano enfureceram Bolsonaro, que no dia seguinte desautorizou o ministro e anunciou que não iria comprar nenhuma vacina chinesa. “Não abro mão da minha autoridade”. Auxiliares tentaram passar a impressão de que ele havia sido pego de surpresa pela atitude de Pazuello. No entanto, o ministro não foi elogiado – e avalizado – só pelos governadores. Representantes do governo Bolsonaro também destacaram a sua coragem e o papel de conciliador, como o líder na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR): “O ministro tem muita coragem de fazer os compromissos com as vacinas que estão em pesquisa, porque, senão, se a gente esperar dar certo para falar, quando der certo, na nossa vez, a produção vai estar muito distante”, afirmou ele, frisando ao final que é “isso o que o presidente pensa também”.

  • Estava claro ali para todo mundo que as vacinas em discussão eram as do Butantan e da Fiocruz, que, apesar de suas origens internacionais, estão nos estágios mais avançados dos testes e serão produzidas em solo brasileiro. O diretor do Butantan, Dimas Covas, ainda tinha em mãos um frasco do imunizante já pronto, que, segundo ele, irá levar no rótulo a inscrição “Ministério da Saúde-Instituto Butantan”. Alguns governadores, como Ronaldo Caiado (DEM), aliado do presidente, aproveitou o momento para dizer que “era a melhor notícia que recebeu no ano” com o recipiente na mão.

    Com o recuo do governo federal no dia seguinte e a postura imprevisível de Bolsonaro, Pazuello saiu de cena e se recolheu, ainda mais depois porque testou positivo para a Covid-19. A alguns interlotutores com quem conversou nesta quarta-feira, dia 22, ele disse que o problema de Bolsonaro é pessoal com Doria. Já os governadores preparam uma resposta ao presidente e tentam manter a negociação da vacina com o Ministério da Saúde. Para isso, farão uma nova reuninão nesta sexta-feira, que também deve dar o que falar.

    Continua após a publicidade
    Publicidade