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Metas do Brasil na COP26 deixam ‘pulga atrás da orelha’, diz bispo

Para o presidente da Comissão Pastoral da Terra, compromissos anunciados são 'bonitos', mas é 'difícil crer que alguma coisa boa possa vir'

Por Rafael Moraes Moura 7 nov 2021, 15h21

Na última segunda-feira, 1, o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, anunciou na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 26, o compromisso do governo brasileiro com uma meta de redução das emissões de carbono de 50% até 2030, chegando à neutralidade de carbono até 2050. O evento não contou com a participação do presidente Jair Bolsonaro, o que levantou dúvidas sobre o real do compromisso brasileiro com a agenda ambiental.

Em entrevista a VEJA,  o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) — braço da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)  para tratar da situação dos trabalhadores rurais e dos conflitos no campo — diz que as metas assumidas pelo Planalto são “bonitas”, mas ressaltou que está com “a pulga atrás da orelha”.  “O que devemos fazer é continuar nos organizando e usar agora esse instrumento, que o Brasil assinou, para pressionar e fazer com que aquilo que foi dito na teoria seja colocado em prática”, afirmou Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, bispo da Prelazia de Itacoatiara (AM). Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Qual a opinião do senhor sobre  a atuação do governo brasileiro na COP26?  Olha, o balanço que a gente pode fazer da atuação do governo brasileiro na COP26 é uma promessa que a gente tem dúvidas quanto à possibilidade de cumprimento porque se assinou com outros países esse acordo para zerar o desmatamento até 2030 e a questão da proteção de florestas e da proteção dos povos indígenas. Então, em termos de intencionalidade, me parece muito bom, mas o fato de o próprio presidente da República não ter ido participar e ter enviado apenas o ministro do Meio Ambiente já é algo que nos deixa com uma certa inquietação. Por que não foi? Por que não valorizou e por que não foi lá assumir pessoalmente o compromisso? Então o compromisso e as metas anunciadas são bonitos, mas esperamos que agora isso saia do papel e que saia da boa intenção para a prática.  

O senhor não acredita no cumprimento das metas por parte do governo Bolsonaro? Faz parte do próprio objetivo da conferência encontrar caminhos para evitar os efeitos catastróficos das mudanças climáticas. É claro que há uma repetição, fica-se marcando datas como uma meta para alcançar que acaba não se alcançando e se realiza uma outra conferência onde se renova esse compromisso, mas quando nada está sendo, de fato, proposto. Essas nações que participam desta Conferência das Nações Unidas para o Clima estão de alguma maneira se comprometendo umas com as outras e com seus países para poder fazer alguma coisa. Queira Deus que os governantes e as nações que estão participando da Conferência façam acontecer, inclusive, nós aqui no Brasil. 

A política ambiental de Bolsonaro tem sido muito atacada por especialistas, ambientalistas e governos estrangeiros. O senhor concorda com as críticas? O governo não está dando a devida atenção à política ambiental, inclusive é algo que a gente fica, como diz o ditado “com a pulga atrás da orelha”, com o compromisso que o Brasil está assumindo de proteger a floresta e os povos indígenas. Então o nosso país não nos inspira muita confiança, já que essas indicações que o governo assumiu com a política ambiental que o próprio governo vem adotando nos últimos três anos. Fala em proteção dos povos indígenas como guardiões da floresta e aí o governo faz uma tentativa de mudar a legislação para que haja possibilidade de a mineração invadir terras indígenas para explorar minério. Outro ponto que se assinou no acordo é de promover uma cadeia ambiental sustentável de oferta e procura. Que compromisso esse governo fez até agora para que haja isso? Vai fazer daqui para frente?

O senhor parece cético quanto ao cumprimento das metas. A nossa esperança é pouca pela prática do governo, que tem como política ambiental a fala do ex-ministro (Ricardo Salles) para aproveitar a pandemia e passar a boiada, mudando a legislação para avançar sobre a Amazônia. Então, de fato, é muito difícil a gente crer que alguma coisa boa possa vir daí. 

À frente da Comissão Pastoral da Terra, o que o senhor acredita que precisa ser feito de agora em diante na área ambiental para forçar que as metas saiam do papel? Primeiro, continuar fazendo o que nós sempre fizemos enquanto Igreja Católica, que é continuar na luta para defender a terra, as águas, os territórios, os pescadores, os pequenos agricultores e aqueles que sabem conviver com a floresta e preservam as florestas, que são os povos indígenas. Não devemos desistir da luta porque houve agora essa promessa de uma ação menos devastadora do governo sobre o meio ambiente. Temos que continuar fazendo a nossa missão. Não vamos recuar nenhum centímetro naquilo que nós já vínhamos fazendo na defesa da floresta, dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, seringueiros e pequenos agricultores. 

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