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Máfia dos ônibus do Rio destruiu provas de pagamento de propina

Delações de doleiro Álvaro Novis e seu empregado revelam que esquema de mesadas para autoridades existe há quase três décadas; repasses somam R$ 260 mi

Por Thiago Prado - Atualizado em 3 jul 2017, 14h40 - Publicado em 3 jul 2017, 13h02

Uma delação premiada homologada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) revela que a máfia dos ônibus do Rio de Janeiro destruiu em março do ano passado planilhas que comprovavam o pagamento de propinas durante três décadas. A informação está na colaboração feita por Edimar Moreira Dantas, funcionário do doleiro Álvaro Novis, também delator. Ele conta que, após a 26ª fase da Operação Lava Jato, mais conhecida como Operação Xepa, o sistema de crédito e débito criado pela Federação das Empresas de Ônibus do Rio de Janeiro (Fetranspor) para contabilizar as operações com dinheiro sujo foi apagado. Na ocasião, a Polícia Federal começou a desvendar os pagamentos ilegais feitos pela Odebrecht para o marqueteiro João Santana e sua mulher, Mõnica Moura.

Edimar Dantas conta que o empresário de transporte José Carlos Reis Lavouras, dono da Companhia Viação Flores e membro da direção da Fetranspor, lhe indicava mensalmente os endereços para que os pagamentos fossem feitos. Havia duas contas operadas pela federação (a F/Sabi e a F/Netuno). As planilhas apagadas tinham seis colunas: a primeira coluna referia-se à data em que os recursos foram debitados ou creditados; a segunda e terceira, aos valores debitados e creditados pela Fetranspor; a quarta, ao saldo com o colaborador; a quinta coluna ao status do saldo – se positivo (“CR”) ou negativo (“DB”); e, por fim, a sexta  servia para que os operadores colocassem alguma observação a respeito da transação. Embora as planilhas tenham sido destruídas, um pen drive ainda guarda os detalhes das operações feitas entre 2010 e 2016.

A operação que prendeu a cúpula do setor de transporte rodoviário do Rio de Janeiro revela que o esquema de pagamento de propinas para autoridades começou nos anos 1990. Em delação premiada homologada pelo STJ, o doleiro Novis afirmou que a relação com representantes do segmento começou em 1990, quando o empresário Lavouras o procurou para operacionalizar “pagamentos de vantagens indevidas a políticos”. Tudo, segundo Novis, para “garantir benefícios relacionados a linhas de ônibus e tarifas“. Muitos dos beneficiários envolvidos no esquema continuam mantidos sob sigilo pela Justiça por terem foro privilegiado.

A corretora de Novis, a Hoya, foi utilizada durante três décadas para movimentar o propinoduto. Os pagamentos eram feitos por transportadoras de valores – pelo menos quatro delas são citadas (a Transegur, Transeguir, Transexpert e Proseguir). O ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) é apontado no depoimento de Novis como recebedor de dinheiro sujo desde os tempos em que atuou como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

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Durante seu período no Palácio Guanabara, os investigadores encontraram mais indícios de pagamentos ilegais. Em agendas apreendidas com Luiz Carlos Bezerra, o operador de Cabral, estão escritas palavras como “Jardins”, “Flowers” e “Garden”. Em depoimento, o próprio Bezerra admitiu que as palavras referem-se à Companhia Viação Flores, de propriedade do empresário Lavouras, que pagou 3,3 milhões para a quadrilha de Cabral.

Ao todo, os procuradores calculam que cerca de 260 milhões de reais foram pagos durante o período. Foram expedidos pelo juiz Marcelo Bretas nove mandados de prisão preventiva e três de prisão temporária. Um dos principais empresários do ramo, Jacob Barata Filho, foi preso ontem no Aeroporto Internacional Tom Jobim tentando embarcar para Portugal. Hoje, foram detidos ainda o presidente da Fetranspor, Lélis Teixeira, e o ex-presidente do Detro Rogério Onofre. Em delação premiada, Novis revelou que Onofre investiu o dinheiro da propina em três hotéis em nome de pessoas da sua própria família.

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