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Governador de Santa Catarina repete passos de Witzel e pode ser afastado

Na mira de duas ações de cassação e de inquérito no STJ, Carlos Moisés periga passar por embaraços semelhantes aos do colega fluminense

Por João Pedroso de Campos - Atualizado em 11 set 2020, 10h17 - Publicado em 11 set 2020, 06h00

Ser eleito governador de estado com 71% dos votos sem nunca ter disputado sequer uma eleição a vereador não é para qualquer um. No caso de Carlos Moisés (PSL), o bombeiro militar que hoje comanda Santa Catarina, o gosto da façanha deu lugar ao sabor amargo de pesadelo. Há menos de dois anos no cargo, ele agora se olha no espelho e vê o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Ambos são políticos de primeira viagem, chegaram ao poder com os votos da onda conservadora que elegeu Jair Bolsonaro em 2018, viraram as costas ao presidente no primeiro ano de mandato, não construíram relações sólidas com o Legislativo e, sobretudo, não entregaram em suas gestões as promessas de intolerância à corrupção. Com a pandemia do novo coronavírus, foram alvejados por suspeitas de malfeitos com dinheiro destinado ao combate à doença e tiveram ex-secretários presos. Ambos agora se veem ameaçados por processos de impeachment e acumulam duras derrotas no Superior Tribunal de Justiça — o mandatário fluminense foi afastado e o catarinense virou alvo de inquérito. Moisés continua no cargo, mas pode ser apeado em breve em razão de dois processos de cassação abertos na Assembleia Legislativa. Em um deles responde à acusação de dar aumento de forma ilegal a procuradores. O outro é mais constrangedor: apura suspeitas sobre a compra de 200 respiradores por 33 milhões de reais e irregularidades na contratação de hospital de campanha em Itajaí por 100 milhões de reais.

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Como ocorre com Witzel, Moisés terá dificuldades para escapar da guilhotina. Ele precisa de 14 dos 40 votos dos parlamentares estaduais, mas, segundo líderes ouvidos por VEJA, seus aliados somam menos de 10. Abandonado pelos bolsonaristas, o governador busca votos até do PT. “Agora que precisou dialogar, as pontes estavam dinamitadas”, diz Luiz Fernando Vampiro, líder do MDB, a bancada mais numerosa, com nove membros. Governistas contam de 13 a 15 votos. “Temos apresentado o parecer do ex-­presidente do STF Cezar Peluso, que mostra que não há crime de responsabilidade, o que reforça ainda mais os nossos argumentos”, diz Moisés, referindo-se à acusação acerca do aumento dos procuradores do estado, a de tramitação mais avançada.

Sua situação, no entanto, fica mais complicada em razão de um outro aspecto que aproxima o seu calvário do vivido por Witzel: o rompimento com o vice. Tal qual o agora governador interino do Rio, Cláudio Castro, a companheira de chapa de Moisés, Daniela Reinehr, também alvo das duas ações de cassação, se apoia no bolsonarismo: deixou o PSL em 2019 no cisma entre Bolsonaro e o partido, recebeu apoio do presidente e jantou com Eduardo Bolsonaro (PSL-­SP) em visita recente a Brasília. De quebra, a advogada Karina Kufa, pessoa de confiança da família Bolsonaro, foi indicada para atuar em sua defesa, cujo principal argumento é o de que não tem nada a ver com as suspeitas sobre Moisés. “Eu sempre quis ser atuante, mas fiquei isolada, o governador resolveu que seria assim”, critica ela, que está de olho na cadeira do ex-colega em caso de cassação. A sorte de Moisés, assim como a de Witzel, está lançada. E a expressão “meteórica” poderá servir, ao fim, para qualificar tanto a ascensão quanto a queda dos dois novatos.

Publicado em VEJA de 16 de setembro de 2020, edição nº 2704

 

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