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Cunha: de aliado de Collor a carrasco de Dilma e preso por Moro

De início tímido no Rio, virou evangélico, ganhou votos para ir a Brasília, acumulou poder e patrocinou saída de Dilma, mas hoje está só, preso e condenado

Por Guilherme Venaglia - Atualizado em 30 mar 2017, 17h34 - Publicado em 30 mar 2017, 17h33

Polêmico, meticuloso e controverso, o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se converteu aos poucos em uma das figuras mais importantes e temidas de Brasília. Do começo, nos bastidores da política do Rio de Janeiro, viveu seu ápice durante um ano e meio, entre 2015 e 2016, quando foi presidente da Câmara dos Deputados e considerado um dos responsáveis pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Cassado pelos pares e condenado pelo juiz Sergio Moro, vive seu ostracismo e, mais uma vez, é alvo de especulações sobre uma possível delação premiada.

Cunha deu seus primeiros passos na política participando das campanhas de Moreira Franco (PMDB) ao governo do Rio de Janeiro em 1986 e de Fernando Collor (PRN, hoje PTC) à Presidência da República em 1989. Foi por meio de Collor que assumiu seu primeiro cargo público, em 1991, quando foi nomeado para a presidência da extinta Telerj (empresa estatal de telefonia do Rio) pelo então presidente, mas não durou muito na função, passando pela sua primeira acusação de corrupção.

A época, o Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu irregularidades na contratação de servidores sem concurso, tratamento privilegiado a fornecedores e falhas na licitação para a edição de catálogos telefônicos. Deixou o cargo em abril de 1993, já no governo do presidente Itamar Franco (PMDB), mas levou da estreia em cargo público um título que ele se autoatribui até hoje, o de que “trouxe o telefone celular para o país“.

Dessa primeira fase de bastidores, Cunha acumula uma tentativa malsucedida de retornar à estatal. Pelas mãos de deputados do Rio de Janeiro, foi indicado ao presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para o comando da Telerj. Em seus livros de memórias Diários da Presidência, FHC se recorda de que a “ficha corrida” de Cunha fez com que ele fosse descartado. Filiado ao PPB (atual PP), Cunha tentou se eleger para a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em 1998, mas foi derrotado.

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Rádio, religião e política

Se Cunha tivesse de agradecer a dois elementos o seu crescimento na política, estes muito provavelmente seriam o rádio e a religião evangélica. Ambos vieram de uma única pessoa: o empresário e deputado Francisco Silva, líder evangélico e dono da rádio Melodia FM.

Transformado em radialista, Cunha começou a construir sua base de seguidores fieis e a estreitar as suas relações com os poderosos. A partir de uma indicação de Silva, foi levado pelo governador Anthony Garotinho (PDT, hoje PR) para o comando da Companhia de Habitação do Rio de Janeiro (Cehab), onde teve uma segunda acusação, a de ter favorecido uma pequena construtora chamada Grande Piso. Este processo prescreveu no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2015.

Eduardo Cunha, então presidente da estatal Telerj, em 1993 Frederico Rozário/Folhapress

Da aliança com Garotinho, hoje um de seus principais rivais, Cunha tiraria o apoio à sua eleição como deputado federal em 2002. Junto com seu apelo entre o eleitorado conservador e cristão, a indicação do governador foi importante para que ele conseguisse uma cadeira na Câmara.

O deputado

A maior parte dos treze anos em que Eduardo Cunha esteve na Câmara foi no baixo clero, nome dado ao grupo de deputados de pouco prestígio. Pouco depois de eleito, deixou o PP e migrou para o PMDB, mas demorou para ser conhecido pelo país. Desde o primeiro dia, se consolidou em ser um defensor das pautas conservadoras, como o combate ao casamento gay, ao aborto e à legalização da maconha.

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Por trás dessa figura, foi por vezes foi identificado como um defensor de lobbys de empresas para aprovação de medidas. Essa articulação do parlamentar com o capital financeiro foi o engate para que ele chegasse à linha sucessória da Presidência da República. Em 2014, ele ofereceu sua ajuda na captação de recursos para as campanhas de dezenas de parlamentares, muitos deles reeleitos para a atual legislatura. Em troca, um pedido simples: o apoio para assumir a Presidência da Câmara.

Enfrentando o candidato do então governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), além de Julio Delgado (PSB-MG) e Chico Alencar (PSOL-RJ), Cunha se elegeu para comandar a Câmara já no primeiro turno da disputa, com dez votos além do necessário. Foi a primeira vez que o Brasil descobriu quem era Eduardo Cunha, já identificado como o “pesadelo de Dilma Rousseff“. Se essa era a meta do parlamentar quando assumiu, ele conseguiu.

Foi o peemedebista quem, em 1º de dezembro de 2015, convocou uma já histórica entrevista coletiva para anunciar que ele havia decidido aceitar o pedido de impeachment contra a petista. Com o processo aberto, foi a senha para que o vice-presidente Michel Temer (PMDB), a oposição e os movimentos sociais contra Dilma decidissem que era, sim, possível derrubá-la do cargo.

Cunha x Dilma

Acostumado a declarações verborrágicas, foi pela boca que Cunha começou a se complicar. Em março de 2015, depôs espontaneamente à CPI da Petrobras para negar que tivesse qualquer relação com o esquema investigado pela Operação Lava Jato, assim como a posse de contas no exterior. A revelação de empresas offshore em nome de Cunha na Suíça, pela Procuradoria-Geral da República (PGR), suscitou a abertura de um processo de cassação contra o presidente da Câmara.

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Além de ter sido um motivo para que a ex-presidente Dilma Rousseff se vangloriasse de “não ter conta na Suíça”, como seu principal detrator, a denúncia da PGR provocou uma articulação de bastidores antes da aceitação do pedido. Insinuada por muitos e negada por ambos, uma suposta negociação teria ocorrido, em que o apoio do PT a Cunha no Conselho de Ética da Câmara foi “moeda de troca” para que o deputado continuasse arquivando os pedidos que chegavam a sua mesa.

No final, o conselho, com os votos petistas, deu seguimento ao processo contra ele. Assim como Cunha também transformou Dilma em alvo de um impeachment, consumado definitivamente em agosto de 2016. No dia 17 de abril, foi o parlamentar do PMDB quem presidiu a sessão da Câmara que aprovou o relatório a favor da cassação dela, permitindo que o processo prosseguisse para o Senado.

A queda

Alvo do processo de cassação mais longo da história da Câmara dos Deputados, ele viu tudo desmoronar após “cumprir seu papel” no afastamento de Dilma. No dia 5 de maio, menos de um mês após a votação na Câmara, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou um pedido da PGR e afastou o parlamentar da presidência e do mandato. Deste ponto para frente, a queda dele foi surpreendentemente rápida. Em setembro, por 450 a 10, ele perdeu definitivamente o cargo de deputado.

Um mês depois, sem a proteção do foro privilegiado, Cunha foi preso pelo juiz Sergio Moro. Desde seu primeiro dia atrás das grades em Curitiba, há muita especulação e tensão em Brasília sobre a hipótese ele colaborar com as investigações. Se é verdade que ele teve todos os aliados poderosos e a influência que sempre se gabou de ter, muita gente tem motivo para temer se Cunha decidir falar para a Polícia Federal.

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O ex-deputado já deu sinais contraditórios a respeito da intenção, mas agora, com o peso de uma condenação de quinze anos e quatro meses de prisão que Moro colocou sobre seus ombros, o medo é que ele fique tentado a ceder aos encantos da redução de penas decorrentes de uma delação. Se fará ou não, é a resposta que Brasília aguarda ansiosamente.

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