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Eduardo Cunha: o pesadelo de Dilma

O deputado evangélico que vaga como poucos pelas entranhas do poder em Brasília e liderou a rebelião na base governista quer comandar o Legislativo

Dia sim, outro também, uma espécie de romaria de deputados, vereadores e empresários se forma em frente a uma pequena sala na Câmara dos Deputados. Naqueles seis metros quadrados, sob uma parede forrada por isolamento acústico, o líder do PMDB na Casa, Eduardo Cunha (RJ), senta a poucos centímetros do interlocutor. No “confessionário do PMDB”, como o local ficou conhecido nos corredores do Congresso Nacional, anota demandas, faz acordos, cobra faturas políticas e lista suas armas – nem sempre as mais republicanas – que serão usadas contra o adversário da ocasião. Quinze anos depois de, segundo antigos aliados, dividir com a nebulosa figura de Paulo César Farias, o PC Farias, o papel de arrecadador da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, Eduardo Cosentino da Cunha (que nega o histórico ao lado do ex-presidente) chega neste domingo ao ponto mais ambicioso de sua carreira política e pode se tornar presidente da Câmara dos Deputados.

Aos 56 anos, no terceiro mandato na Casa, Eduardo Cunha é um político meticuloso, que conhece como poucos as entranhas do poder em Brasília. Seus aliados projetam que, no futuro, será facilmente equiparado ao senador Renan Calheiros, também do PMDB. Com pelo menos três celulares criptografados, Cunha lidera com desenvoltura as negociações nos bastidores no Congresso, define cargos para seus afilhados políticos, traça estratégias para dificultar os interesses do Palácio do Planalto.

Alvejado por denúncias de corrupção, sempre saiu praticamente ileso das acusações atribuídas a ele. No ano passado, foi absolvido, por falta de provas, da imputação de usar documentos falsos para suspender um processo no qual o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) apurava irregularidades em sua gestão na companhia estadual de habitação (Cehab) – responsável pelas verbas destinadas à construção de casas populares.

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Apelidado de “pinguim” pelo jeito claudicante de caminhar, Cunha promete reforçar a fama de inimigo do governo Dilma Rousseff e, se eleito, quer pautar já na primeira sessão deliberativa a votação final do Orçamento Impositivo, sistema que obrigaria o pagamento de emendas parlamentares sem a possibilidade de o Executivo barrar a liberação dos recursos. “Eduardo Cunha se consolidou na bancada e as posições de enfrentamento são todas feitas por consenso”, diz o deputado e amigo Leonardo Picciani (PMDB-RJ). Para a presidente Dilma Rousseff, com quem nunca ficou a sós em uma reunião, é um indigesto político em ascensão, uma inevitável pedra no sapato a cada votação relevante no Congresso. “Estou pouco me lixando se Dilma não gosta de mim”, costuma dizer o peemedebista.

Nas raras vezes em que não está costurando acordos, atua politicamente no subúrbio do Rio de Janeiro, frequenta cultos evangélicos e grava, direto de Brasília, inserções na rádio Melodia FM. Fala de queda do petróleo ao beijo gay da novela das oito – e admite que os ouvintes não estão necessariamente interessados em suas análises, mas no bordão que usa desde o início dos anos 2000: “O povo merece respeito”.

Deputado com pavio curto, reúne desafetos históricos – o ex-aliado Anthony Garotinho e o inimigo figadal Ciro Gomes são os melhores exemplos. Tem personalidade vingativa e um apetite voraz pelo poder. Mais do que vencer as eleições para a Presidência da Câmara neste domingo, projeta uma mudança de rumos no PMDB: articula desde já a manutenção do partido na chefia das duas Casas legislativas em 2017 e defende abertamente que a sigla lance candidato próprio à Presidência da República em 2018. “Cunha sabe que ser líder é ser uma máquina de moer carne. Mas tem excepcional capacidade de articulação e tem seguidores cativos”, afirma o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS).

Na disputa voto a voto com o adversário e ex-presidente da Casa, o petista Arlindo Chinaglia, Cunha atuou como um garimpeiro: mapeou os votos prometidos na eleição e fez acenos como a intenção de colocar em votação temas de interesse do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT). Procurou sem constrangimentos o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), e o ministro Gilberto Kassab (PSD) em busca de apoio para tentar liquidar, já no primeiro turno, a disputa. Otimista, projeta obter de 313 a 331 votos, incluindo as desejadas traições de governistas. Seus concorrentes dizem que não terá mais de 250 votos. “Ele não é uma Pollyanna, mas também não reclama das dificuldades da política. É turrão e não sabe ouvir um não”, analisa a filha Danielle, que aos 27 anos é responsável pela publicidade e pelas mídias sociais da campanha.

Além do inevitável apelo de “voto útil” – segundo o qual a chapa do rival Julio Delgado (PSB) naufragará -, Eduardo Cunha também afagou deputados que vão iniciar o primeiro mandato neste domingo: por exemplo, chegou a viajar ao Amazonas para visitar uma futura parlamentar que estava com o pé quebrado. Cobrou faturas políticas por apoio financeiro na campanha eleitoral de outubro e distribuiu bombons de licor em um chá com esposas de deputados. “Com Eduardo Cunha, deputado novo pode falar e não só para os céus. Senti um espírito de inclusão”, diz o novato Carlos Marum (PMDB-MS) ao justificar sua adesão imediata à campanha do correligionário.

A fama de plítico de bastidores também rendem queixas de adversários que atribuem a ele a distribuição de dossiês, especialmente contra Arlindo Chinaglia. Publicamente, Cunha revida reclamando da chantagem de ministros e da oferta de cargos no governo em troca de votos. No chumbo trocado, o peemedebista contabiliza ter conseguido pelo menos dez votos da bancada do PT.

Nas últimas semanas, Eduardo Cunha percebeu o enfraquecimento de seu favoritismo na disputa deste domingo. Além da ofensiva do Palácio do Planalto para evitar sua vitória, seu nome apareceu como um dos supostos beneficiários do propinoduto montado na Petrobras. A citação era esperada no comando do PMDB desde o ano passado. Irritado, atribuiu a adversários políticos a suposta indicação de seu nome no acordo de delação premiada celebrado pelo doleiro Alberto Youssef.

Nos últimos dias, sacou seu principal trunfo catalisador de apoio: prometeu aos deputados recém-eleitos exigir que os novos parlamentares também sejam agraciados, logo no início do mandato, com o direito a verbas para obras nas bases eleitorais. Se sair vitorioso neste domingo, vai contemplar os neoaliados com cargos no Congresso. Se derrotado, terá um exército de parlamentares insatisfeitos com o governo e prontos para incendiar o Parlamento.

Às vésperas da eleição, um influente líder na Casa define bem o cenário: “Nem o governo tem certeza do que é melhor: tê-lo no comando da Câmara ou no comando de uma rebelião”. Eduardo Cunha já provou que sabe como ser o pesadelo do governo no Legislativo.

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