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A guerra de versões de Eduardo Paes e Marcelo Freixo sobre a milícia

Secretaria de Segurança só recebeu pedido de investigação sobre candidato suspeito uma hora antes do debate da RedeTV. Fotografia mostra reunião de Paes com acusados de comandar milícia, em 2009

Por Cecília Ritto e Thiago Prado - 6 set 2012, 15h04

Berg foi citado na página 151 do relatório da CPI. O documento traz apenas o primeiro nome, Rosenberg, citado como dono do “escritório dos nordestinos”. No local teria ocorrido uma negociação sobre venda de terrenos irregulares, operada por milicianos

Desconhecido da maioria absoluta dos eleitores do Rio até a tarde de quarta-feira, o candidato do PSOL Berg Nordestino, que tenta pela primeira vez uma vaga na Câmara Municipal, tornou-se assunto do debate exibido pela RedeTV. Não exatamente por suas qualidades. A revelação pelo Radar On-line de que Rosenberg Alves do Nascimento era citado no relatório da CPI das Milícias, de 2009, criou uma situação desconfortável para o candidato do partido à prefeitura, Marcelo Freixo, em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto – tem 13%, segundo o Datafolha. Foi a partir de Berg, e das suspeitas levantadas contra ele na comissão de inquérito presidida por Freixo, que o prefeito Eduardo Paes pode contra-atacar. Acusado pelo candidato do PSOL de se reunir com milicianos, Paes rebateu afirmando que o partido do rival não tem controle sobre quem se candidata.

Berg voltará à cena nesta quinta-feira. E novamente deve constranger Marcelo Freixo. Durante o debate, o deputado estadual do PSOL afirmou que “há duas semanas” havia pedido à Secretaria de Segurança informações sobre Berg. A secretaria informou a VEJA, nesta quinta-feira, que o ofício com pedido de investigação foi protocolado às 21h de quarta-feira, ou seja, pouco mais de uma hora antes do debate, e cinco horas depois da publicação da nota a respeito da citação de Berg no relatório da CPI. A assessoria de Freixo confirmou a data do pedido. O problema está na declaração da véspera, sobre um pedido de investigação que não ocorreu. Eduardo Paes pretende, agora, usar esse dado contra Freixo, se novamente confrontado.

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Freixo disse durante o debate: “Sobre o candidato, não havia nada na ficha criminal, não havia como ser descoberto que ele era essa pessoa até porque no relatório da CPI ele é citado, e não indiciado”. E mais: “Começamos a desconfiar de situações referentes a ele há duas semanas. Pedimos investigação na Secretaria de Segurança para também não cometermos injustiça contra alguém. Hoje confirmamos que provavelmente é essa a pessoa, ligada ao miliciano que mais ameaçou a minha vida”. O miliciano a que se refere Freixo é o ex-vereador do PR Luiz André Ferreira da Silva, o Deco, preso por homicídio.

A reunião citada por Marcelo Freixo no debate da RedeTV: Eduardo Paes e Adilson Pires (PT) tiveram encontro com acusados de integrar milícia em 2009
A reunião citada por Marcelo Freixo no debate da RedeTV: Eduardo Paes e Adilson Pires (PT) tiveram encontro com acusados de integrar milícia em 2009 VEJA

Berg foi citado na página 151 do relatório da CPI. O documento traz apenas o primeiro nome, Rosenberg, citado como dono do “escritório dos nordestinos”. No local teria ocorrido uma negociação sobre venda de terrenos irregulares, operada por milicianos.

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A Secretaria de Segurança informou que não foram abertas investigações com esse objetivo até o momento. O candidato do PSOL afirmou, nesta quinta-feira, que começou a suspeitar de Berg há uma semana. Dois telefonemas e uma informação passada pessoalmente – todas por pessoas de sua confiança, garante – levantaram dúvidas sobre as verdadeiras intenções do candidato em campanha pelo PSOL. Um dos assessores de Freixo começou, então, a pesquisar informalmente o passado e as conexões de Berg. No debate, Freixo disse que suspeita até que Berg seja um “infiltrado” da milícia.

O PSOL informa que Berg tentou gravar vídeos de campanha com Freixo, ideia rejeitada pelo deputado. Ainda na noite de quarta-feira, uma reunião do PSOL decidiu pelo pedido de expulsão do candidato e de impugnação da candidatura. Na manhã desta quinta, Berg foi ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) para se informar sobre sua situação.

Em sua página no Facebook, Berg mostra fotos de campanha – uma delas ao lado de Freixo e do deputado Chico Alencar, em uma caminhada. A foto, reproduzida no alto desta reportagem, está adulterada, informam assessores de Freixo. Berg realmente está no local, mas as placas do candidato foram inseridas posteriormente, sobrepondo material de campanha de outro nome do PSOL. Ele também aparece na rede social fazendo campanha na favela Bateau Mouche, um dos locais que, segundo o relatório da CPI das Milícias, era explorado por milicianos comandados pelo ex-vereador Deco.

Berg Nordestino, sem querer – ao menos pelo que se sabe até o momento – transformou a milícia em tema do debate e em polêmica da semana nas eleições no Rio. O candidato foi citado como reação a uma acusação feita por Marcelo Freixo. O candidato do PSOL tentou acuar Eduardo Paes, perguntando sobre a realização de uma reunião da qual participaram milicianos. No encontro, segundo Freixo, foi decidido que as licitações de linhas de vans na capital seriam feitas não de forma individual, num modelo parecido com o dos táxis, mas com cooperativas – e a maioria delas era controlada por milicianos. Paes se defendeu dizendo que não tem como verificar antecedentes criminais de quem vai à prefeitura.

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Apesar de não checar antecedentes criminais, o prefeito recém-eleito em 2009 já tinha à disposição informação sobre o grupo que estava à mesa. O encontro citado por Freixo foi fotografado, e a imagem, publicada em 10 de julho de 2009 no jornal O Dia. Ocorrida naquele ano já com Paes na condição de prefeito, a reunião teve a presença de 10 representantes de cooperativas, levados pelo vereador petista Adilson Pires, hoje candidato a vice de Paes. No grupo estava Dalcemir Pereira Barbosa, acusado de ser um dos chefes da milícia de Rio das Pedras e de envolvimento no assassinato de Paulo Roberto Paiva, chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Transportes Urbanos (SMTU), órgão encarregado de fiscalizar as vans.

O poder dos grupos de transporte alternativo ainda é grande, e a força das cooperativas no Rio é capaz de causar complicações para o prefeito. No dia 15 de agosto, já durante a campanha eleitoral, cerca de 3 mil vans cercaram o estádio do Maracanã e bloquearam vias importantes do centro e da zona norte, para pressionar a prefeitura a liberar o edital de licitação de novas linhas.

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