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Trump vai de vilão caquético a ‘supremo líder’ na imprensa norte-coreana

Americano deixa de tratar Kim como "homenzinho do foguete" e minimiza violações dos direitos humanos pela Coreia do Norte

Os norte-coreanos veem um novo Donald Trump depois da reunião entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, no último dia 12, em Singapura. Agora, o presidente americano está longe do rótulo de “caquético”, usado pelo regime de Kim Jong-un até o ano passado. Após a cúpula, ele é chamado por seu cargo, por seu nome completo e até mesmo como “líder supremo”, a nomenclatura utilizada por Kim.

Desde a reunião desta semana, a imprensa norte-coreana passou a retratar Trump como uma figura séria, quase monárquica. A narrativa oficial é cuidadosamente construída pelo governo para manter o povo ideologicamente a bordo nas esperadas mudanças nas relações entre Pyongyang e Washington. Os norte-coreanos ainda são ensinados, desde a infância, a odiar e desconfiar dos “imperialistas americanos”.

O tempo entre a realização da reunião e a transmissão dos primeiros vídeos e fotos do evento na Coreia do Norte, nesta quinta-feira (14), parece ter sido cuidadosamente escolhido pela televisão estatal. A população só teve acesso às imagens do encontro dois dias depois.

Para os norte-coreanos, a estrela foi Kim. A primeira aparição de Trump e o aperto de mãos histórico foram exibidos quase 20 minutos depois de o programa, que durou 42 minutos, ter iniciado.

A viagem de Kim a Singapura foi exibida como um documentário cronológico, começando no tapete vermelho do aeroporto de Pyongyang e no voo fretado da Air China. Em seguida, veio um vídeo de sua carreata em direção ao Hotel St. Regis, enquanto multidões de simpatizantes acenavam pelas ruas, como se esperassem uma estrela de rock.

O apresentador do programa, de maneira dramática e em candência musical, descreveu Kim como um estadista à frente de seu tempo, confiante, educado, rápido em sorrir e firmemente no controle. Segundo a narrativa, Kim permitiu que Trump, que tem quase o dobro de sua idade, se inclinasse em direção a ele para apertar suas mãos.

Antes de mostrar os dois assinando a declaração conjunta, o narrador disse que Trump fez questão que Kim olhasse sua limusine, conhecida pelos americanos como “A Besta”. Em determinado ponto, o programa descreveu Trump e Kim como os “dois líderes supremos” de seus países.

A transmissão da reunião de Singapura pela mídia estatal é de extrema importância, porque dá à população norte-coreana, que tem acesso limitado a outras fontes de notícias, uma ideia do que está acontecendo e de como o governo espera que os cidadãos reajam.

Para a média da população, a cobertura estatal da campanha diplomática neste ano deve parecer surpreendente. Depois de enviar uma delegação de alto escalão para a Olimpíada de Inverno, na Coreia do Sul, em fevereiro, Kim se reuniu duas vezes com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e com o presidente chinês, Xi Jinping. Todas as reuniões foram noticiadas pela mídia estatal, mesmo com um dia de atraso, para garantir determinado tom ideológico e as imagens mais poderosas.

No período que antecedeu a reunião, a mídia norte-coreana suavizou sua retórica, para que a atmosfera de preparação para o encontro não fosse estragada. Por anos, os Estados Unidos foram apontados como o lugar mais maligno do planeta, ao lado do Japão, antigo governante colonial do território coreano.

Pyongyang chegou a dar respostas fortes para os comentários do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, e do conselheiro nacional de segurança, John Bolton, e se manteve crítica aos “valores capitalistas”. No entanto, as referências diretas a Trump foram mínimas.

Bolton é alvo da ira do governo norte-coreano desde que serviu durante o governo de George W. Bush. Mas no programa de quinta-feira, ele foi apresentado novamente ao público no momento em que apertou a mão de Kim. Por anos, Pyongyang afirmou que a pressão pela desnuclearização era uma política de hostilidade e “chantagem nuclear” de Washington.

De “homenzinho do foguete” para “cara inteligente”

O presidente americano também mudou o seu tom ao se referir ao ditador norte-coreano. Na quarta-feira, em entrevista à rede de televisão conservadora Fox News, Trump minimizou as violações de direitos humanos cometidas pela Coreia do Norte e elogiou Kim Jong-un.

Um dia após seu histórico encontro, Trump declarou que “muitas outras pessoas fizeram coisas verdadeiramente más”. “Acredito que poderia ir a muitas nações onde já fizeram várias coisas ruins”. Ele ainda descreveu Kim como um “cara inteligente” e um “grande negociador”. No ano passado, durante os momentos de maior tensão entre os dois países, Trump chegou a se referir a Kim Jong-un como “homenzinho do foguete”.

Segundo o Departamento americano de Estado, o regime de Kim mantém entre 80.000 e 120.000 presos políticos em campos de trabalho forçado, enfrentando torturas e fome. O norte-coreano também é suspeito de ordenar, no ano passado, o assassinato de seu irmão, envenenado em um aeroporto da Malásia.

Na entrevista, Trump também elogiou o presidente da China, Xi Jinping, que chamou de “cara incrível”, e destacou que ele é “um presidente essencialmente vitalício”, algo “muito bom”.

(Com Estadão Conteúdo e AFP)