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Países europeus dão cidadania a pessoas antes barradas

Vítimas de intolerância e preconceito nos países onde buscaram asilo, os imigrantes ilegais são incentivados a ficar e preencher vagas na saúde e na lavoura

Por Julia Braun Atualizado em 12 jun 2020, 10h40 - Publicado em 12 jun 2020, 06h00

As cenas ficaram marcadas na memória: filas de refugiados caminhando por terra, fugindo das batalhas na Síria e no Iraque, e homens, mulheres e crianças espremidos em barcos precários, querendo escapar da pobreza, da falta de horizonte e, sim, de mais batalhas no Norte da África. Destino de todos: a Europa. Entre 2010 e 2013, mais de 3 milhões de pessoas buscaram abrigo no continente, o que desencadeou uma crise que ergueu barreiras físicas nas fronteiras e municiou o discurso ultranacionalista que fez a extrema direita avançar em vários países. A pandemia mudou esse estado de coisas.

Sistemas de saúde premidos por falta de pessoal, serviços de delivery necessitados de entregadores e empresas de limpeza carentes de gente disposta a fazer o serviço sujo viram nos imigrantes ilegais uma mão de obra barata e disponível, que ganhou utilidade renovada quando, no campo, os cultivos amadureceram e a colheita ficou premente. Resultado: diversos governos estão estendendo vistos de residência e trabalho aos ilegais — um efeito colateral positivo da propagação mundial do novo coronavírus. A Itália, porta de entrada para desesperados que cruzavam o Mediterrâneo e eram recebidos — quando eram — com o nariz torcido, aprovou em maio um projeto de lei que regulariza a situação de 400 000 estrangeiros para trabalhar em serviços domésticos e na agricultura. A autorização vale por seis meses, mas pode ser prorrogada se a pessoa tiver um emprego garantido.

DIREITOS - A brasileira Ana e a família em Portugal: acesso a todos os serviços //Arquivo pessoal

A colheita de morango, pêssego, alface, feijão e outros produtos tornou-se emergência em plena pandemia, sobretudo no Sul europeu, por falta de pessoal. Tradicionalmente, ela é feita pelos primos pobres do Leste Europeu, que aproveitam a livre circulação pela União Europeia para fazer um pé-de-meia. Com as fronteiras fechadas, cerca de 150 000 colhedores da Romênia, Polônia e outras nações estão presos em seus territórios, o que põe em perigo até um quarto da safra. “Foi a primeira vez que os empregadores pediram a regularização da situação dos imigrantes ilegais, mesmo que isso aumentasse seus custos”, diz Maurizio Ambrosini, professor de sociologia da migração da Universidade de Milão. O governo da Espanha aprovou em maio um decreto que concede permissão de trabalho por dois anos a estrangeiros entre 18 e 21 anos que estejam dispostos a aceitar um emprego na lavoura e prorroga os contratos de quem já desempenha essa função, marroquinos em grande parte, beneficiando 600 refugiados até o fim de maio. A Alemanha também estuda conceder visto aos 60 000 estrangeiros que têm pedido de asilo pendente para trabalharem na agricultura.

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Antes disso, os serviços de imigração europeus correram para contratar a toque de caixa médicos e enfermeiros que aguardavam permissão de trabalho no limbo da imigração. Em março, o governo espanhol autorizou a contratação de mais de 2 000 médicos venezuelanos que esperavam a homologação de seus diplomas. A França também permitiu o trabalho de médicos, dentistas e farmacêuticos sem certificado reconhecido, sob supervisão de profissionais locais. No ápice do surto, até a província alemã da Saxônia lançou uma campanha de recrutamento de refugiados com experiência médica — sendo a região o berço do partido de extrema direita Alter­nativa para a Alemanha (AfD). Em rara atitude de caráter mais humanitário do que oportunista, Portugal determinou no fim de março a legalização de todos os imigrantes com pedido de visto de residência pendente, a fim de que tivessem acesso aos benefícios sociais dos demais cidadãos. A medida atingiu 130 000 estrangeiros, entre eles muitos brasileiros. Para a catarinense Ana Tonial, 30, auxiliar de cozinha em Aveiro, a medida chegou bem a tempo de aproveitar a ajuda na compra de leite e fraldas para o filho de 2 meses. “Ainda tenho de dar continuidade ao processo, mas a ida ao escritório está até agendada”, diz ela, que emigrou com o marido e um filho de 2 anos. Ninguém sabe se a boa vontade dos europeus para com os imigrantes vai continuar depois da pandemia. Por outro lado, alerta Marta Foresti, da London School of Economics, “a crise econômica que se instalou no continente deve deixar de atrair tantos imigrantes”. É difícil saber quem vai precisar de quem no futuro.

Publicado em VEJA de 17 de junho de 2020, edição nº 2691

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