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Impopular, Trump faz hoje discurso ao Congresso dos EUA

Presidente deve ressaltar economia forte e agenda de comércio exterior; impopularidade de Trump assombra republicanos em ano de eleições intermediárias

Por Solly Boussidan Atualizado em 31 jan 2018, 02h08 - Publicado em 30 jan 2018, 22h45

Donald Trump faz nesta terça-feira às 21h (0h de quarta-feira, em Brasília) seu discurso sobre o “Estado da União” no Congresso americano. Trump deve defender e se apegar às poucas conquistas de seu primeiro ano de governo, bem como definir suas prioridades para 2018, incluindo a urgência de superar divisões e avançar em uma reforma migratória.

Esta será a segunda vez que Trump faz um discurso sobre o “Estado da União” — em fevereiro de 2017, poucas semanas após assumir a presidência, Trump falou ao Congresso. Naquela ocasião, Trump não tinha muito o que relatar aos congressistas e usou o discurso como continuação de seu palanque eleitoral.

O discurso deste ano é, portanto, considerado a primeira fala oficial do presidente, prestando contas aos Estados (representados pelos senadores) e ao povo americano (representado pelos deputados) da situação atual do país e do que sua administração pretende fazer ao longo do próximo ano.

“Será um discurso importante. Cobriremos o tema da imigração. Por muitos anos, temos falado muito sobre imigração, mas fizemos pouco (…) Também será um discurso importante sobre comércio”, disse Trump segunda-feira na Casa Branca.

De acordo com a porta-voz da Presidência, Sarah Sanders, o discurso de Trump terá como tema principal a construção de um país “seguro, forte e orgulhoso (…), justamente o que o presidente fez em seu primeiro ano de governo”. “Mas o tema central e excludente do discurso será a proposta lançada pela Casa Branca sobre uma reforma migratória, que deve ser negociada no Congresso para destravar o diálogo e permitir a aprovação do orçamento federal”, completou.

O país ainda não tem um orçamento geral aprovado para o ano fiscal em curso e, desde dezembro, o Congresso autorizou apenas planos provisórios de gastos –o atraso na aprovação do último orçamento provisório, em 20 de janeiro, levou ao shutdown (fechamento) do governo americano por quase 72h– com o plano de gastos provisório atual expirando na próxima semana, em 8 de fevereiro.

Para votar e aprovar um orçamento federal anual, a oposição feita pelo Partido Democrata exige que se defina uma solução para os 690.000 jovens imigrantes que regularizaram sua situação, a partir de 2012, por meio do programa Daca: trata-se de um contingente de imigrantes que entraram ou permaneceram nos Estados Unidos de forma não legalizado enquanto menores de idade, são os chamados dreamers (sonhadores). Esses imigrantes se viram mergulhados em um limbo jurídico em setembro do ano passado, quando Trump anunciou que seu governo não renovaria o Daca.

Prioridades

Afora a questão migratória, Trump deve destacar as parcas conquistas de seu governo em 2017 — em especial seu sucesso em modificar a legislação fiscal do país.

A favor do presidente, está também o fato de ter conseguido aprovar nomes às vezes controversos para cargos políticos e no judiciário, além de ter mantido grande parte dos republicanos no Congresso sem que houvessem rompido com ele — algo que parecia bastante possível há apenas um ano.

Além disso, Trump gradativamente parece estar conseguindo controlar diversas agências americanas –tradicionalmente independentes em relação ao ocupante de ocasião da Casa Branca–, especialmente aquelas subjugadas ao Departamento de Justiça, como o FBI (a polícia federal dos Estados Unidos). Na semana passada, após meses de intensa pressão, o vice-diretor do FBI, Andrew McCabe, anunciou que deixaria o cargo a apenas dois meses de se aposentar.

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Antes disso, o presidente já havia demitido o diretor da instituição, James Comey. Trump e seus aliados têm também feito uma intensa campanha de desinformação com a aparente intenção de descreditar as investigações do procurador especial Robert Mueller — Mueller foi selecionado em maio de 2017 pelo vice-advogado geral da União, Rod Rosenstein, para investigar se houve interferência da Rússia nas eleições presidenciais do ano anterior e se os russos estiveram envolvidos em algum tipo de conluio com a campanha de Donald Trump.

A investigação sobre a interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016 e as reuniões entre membros da campanha eleitoral de Trump e oficias russos deve ter novos capítulos em 2018. Recentemente, rumores de que o controverso ex-estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, seria chamado para depor perante Robert Mueller, conselheiro especial designado para o caso, esquentaram o cenário.Um relatório de conclusão da investigação pode abalar diretamente o governo e a popularidade do presidente. Ainda não se sabe nada sobre as conclusões de Mueller, mas o tema deve continuar a perturbar a Casa Branca.“Se a investigação for divulgada no meio do ano, pode ter um grande impacto sobre as eleições de novembro, principalmente se houver provas de algum tipo de conluio entre a campanha de Trump e a Rússia”, diz o cientista político e professor da Universidade de Wisconsin, David Canon.
Lézio Júnior/VEJA.com

E a economia americana vai bem — pelo menos de acordo com Trump e seus assessores. Se por um lado as bolsas americanas têm se mostrado aquecidas, por outro, os atuais números da economia dos Estados Unidos são só pouco melhores se comparados ao ano anterior, quando o ainda-candidato Trump repetia incessantemente que os democratas estavam deixando o país em frangalhos.

Isso, no entanto, não impede o presidente de falar –e tuitar– constantemente sobre o assunto, atribuindo a si os louros pelo suposto bom momento. A tendência deve persistir no discurso desta noite e levar Trump a fazer um apelo ao Congresso por um ambicioso plano de investimento de cerca de 1 trilhão de dólares para reconstruir a infraestrutura do país ao longo da próxima década.

Trump deve ainda alicerçar a parte da fala que versa sobre economia em menções à política de comércio exterior, outro dos grandes temas de sua gestão.

No campo da política externa, o foco deve ser a tensão com a Coreia do Norte e o passo dado por Washington para reconhecer Jerusalém como capital de Israel — assuntos que geram algum consenso bipartidário. Mais espinhosos devem ser os temas relacionados ao futuro do acordo nuclear com o Irã e a relação bilateral com Cuba.

Direito de resposta

A fala do presidente vem tradicionalmente acompanhada de uma resposta da oposição — o jovem congressista Joseph Kennedy, sobrinho neto do ex-presidente John F. Kennedy, apresentará a réplica oficial do Partido Democrata ao discurso de Trump. Já a representante democrata de origem peruana, Elizabeth Guzmán, ficará encarregada da resposta em espanhol, dirigida especificamente ao eleitorado hispânico.

Desde que assumiu o cargo de presidente, Trump tem dividido os Estados Unidos com sua retórica nacionalista. Movimentos racistas e xenofóbicos ganharam força e impulsionaram episódios como o de Charlottesville, na Virgínia, em agosto, quando manifestantes racistas e antirracistas se enfrentaram, deixando três mortos e dezenas de feridos.“Ele é o presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso do mundo, e suas atitudes permitem que pessoas racistas, machistas, xenofóbicas e homofóbicas saiam do escuro e digam o que querem dizer”, diz o cientista político Christopher Parker, da Universidade de Washington. O professor acredita que esses movimentos sempre existiram no país, porém eles têm sido encorajados pelo presidente americano.A realidade provavelmente permanecerá a mesma no segundo ano de governo Trump. Com suas declarações controversas, o republicano deve polarizar ainda mais a sociedade americana, e as consequências podem ser graves. Mesmo com o fim de seu governo, os movimentos racistas provavelmente continuarão fortalecidos.
Lézio Júnior/VEJA.com

O “Estado da União” é uma chance do presidente apresentar de forma não filtrada pela mídia seus feitos e planos. Donald Trump, nesse ponto de seu mandato, é o presidente mais impopular da história americana desde que pesquisas sobre o assunto começaram a ser feitas (somente 39% dos americanos aprovam seu desempenho). Ele também coleciona inimigos ferrenhos em todas as esferas de governo e da sociedade.

Com as eleições intermediárias americanas previstas para já daqui a nove meses, os republicanos esperam que o discurso de hoje reverta a natural tendência de baixa que ocorre com a associação do partido ao nome de Trump e comece a indicar céus menos turbulentos no futuro próximo.

(Com AFP)

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