Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Francisco rezará em frente ao Santo Sudário

Mais de 3,5 milhões de pessoas já prestaram homenagem à mais valiosa relíquia cristã, pilar da crença na ressurreição de Jesus. Neste domingo será a vez do papa visitar a peça na Catedral de São João Batista, em Turim

Por Adriana Dias Lopes 20 jun 2015, 09h55

Nos últimos quatro séculos, o Santo Sudário, uma das mais valiosas relíquias cristãs, foi exposto à visitação apenas dez vezes. Em 2010, atraiu 2,5 milhões de pessoas durante o período de pouco mais de um mês. Exibido novamente desde 19 de abril passado, o pano de linho que teria servido de mortalha para o corpo de Jesus Cristo no sepulcro voltou a atrair filas na Catedral de São João Batista, em Turim, na Itália. Pelo menos 3,5 milhões de pessoas já prestaram suas homenagens à preciosidade religiosa. Neste domingo, Francisco, o papa verde, rezará em frente ao manto.

O Santo Sudário é um símbolo de fé excepcional. O pano de linho de quase 4,5 metros de altura, 1,5 metro de largura e 0,34 milímetro de espessura guarda para os católicos os sinais do corpo de Jesus Cristo depois da crucificação. Há sinais de machucados que remontam a pequenos halteres – tortura praticada pelos romanos. Há referências aos pregos e à coroa de espinhos. Veem-se também particularidades, como uma mancha avermelhada no peito entre a quarta e a quinta costela direita. Oval, com 7 centímetros de diâmetro, ela tem a forma e a medida correspondentes às armas de Roma. A marca também remete à passagem bíblica em que soldados perfuraram o corpo de Jesus antes de descê-lo da cruz. Mas, para os cristãos, a importância do Santo Sudário vai muito além. Ele representa o que há de mais precioso no cristianismo – uma prova da ressurreição de Cristo. A crença na ressurreição de Jesus Cristo é o sustentáculo da fé católica.

Não há o que discutir sobre o valor do Santo Sudário como símbolo de fé. Mas sua legitimidade, naturalmente, foi posta em dúvida inúmeras vezes ao longo dos séculos. O pano é mesmo o lençol que cobriu o corpo de Jesus? Só nas últimas três décadas, para se ter uma ideia, cerca de 3 000 pesquisas foram realizadas para tentar responder a essa pergunta. Nunca houve um veredicto definitivo. Um dos trabalhos mais emblemáticos a respeito data de 1988. Naquele ano, o papa João Paulo II autorizou que especialistas das universidades de Oxford, na Inglaterra, de Zurique, na Suíça, e do Arizona, nos Estados Unidos, tivessem acesso a pequenos pedaços do pano. Os pesquisadores então submeteram os retalhos ao teste do carbono 14, composto usado na arqueologia para datar fósseis. A conclusão foi que o sudário de Turim havia sido criado, na verdade, entre os séculos XIII e XIV. Mas, em 2000, um novo estudo contestou a precisão do carbono 14. O casal de americanos Joe Marino, teólogo, e Sue Benford afirmou que os pedaços de tecido analisados no teste não eram originais – durante a Idade Média, o pano havia sido remendado com recurso chamado de “costura invisível”, método de origem francesa em que a restauração dos fios é praticamente imperceptível.

A conclusão mais extraordinária sobre o Santo Sudário é do historiador de arte inglês Thomas de Wesselow. Agnóstico, Wesselow afirmou em 2012 no livro O Sinal, um tratado sobre a ressurreição e a mortalha de Jesus, que, se não é possível provar que o sudário é de fato a mortalha do corpo de Cristo, também não há comprovação conclusiva de que não seja. A Santa Sé mantém uma postura discreta em relação ao pano de linho. Jamais alardeou os achados científicos, mesmo os que pudessem conduzir a um Jesus histórico, de carne e osso. Ao visitarem o manto, os papas seguem um ritual religioso no qual se reverencia uma imagem pelo fato de ela lembrar Deus – e não o tecido em si. Para a Igreja, se o sudário é verdadeiro ou falso, é uma questão da ciência. Não de fé.

Continua após a publicidade

Publicidade