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Fracassa tentativa de diálogo sobre crise na Ucrânia

Falta de resultados no campo diplomático pressiona UE a aplicar sanções

Por Da Redação 5 mar 2014, 20h31

Uma tentativa de trazer à mesa Rússia e Ucrânia para discutir a crise na Crimeia fracassou nesta quarta-feira. A proposta era promover um diálogo direto entre Moscou e Kiev, mas o chanceler russo Sergei Lavrov boicotou um encontro com o ministro das Relações Exteriores do governo interino ucraniano, Andriy Deshchytsia, que seria realizado em Paris. A Rússia não reconhece o governo que assumiu o país depois da deposição de Viktor Yanukovich, presidente que era próximo do Kremlin.

Se a ideia de colocar Moscou e Kiev frente a frente para uma conversa diplomática acabou frustrada, ao menos Lavrov discutiu a crise com representantes europeus e com o secretário de Estado americano, John Kerry, que encerrou o dia esforçando-se para ilustrar um cenário otimista. “Todas as partes concordaram hoje que é importante tentar decidir essas questões por meio do diálogo. Hoje iniciamos um processo que, ao longo dos próximos dias, esperamos, vai nos levar ao caminho da redução das tensões”.

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Ao falar sobre o encontro entre os chanceleres russo e ucraniano, que não ocorreu, Kerry afirmou que “não tinha expectativas de que uma reunião desse tipo poderia ocorrer”. Acrescentou, no entanto, que algumas ideias novas para resolver a crise foram apresentadas e serão levadas para análise dos presidentes Barack Obama e Vladimir Putin. “Eu prefiro estar onde estamos hoje do que onde estávamos ontem”, finalizou.

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Apesar do tom positivo da fala do secretário americano, Lavrov foi bem mais irônico ao responder se havia encontrado com seu homólogo ucraniano: “Quem é esse? Eu não vi ninguém”. Deschchytsia, da mesma forma, também foi direto ao responder por que a reunião não havia ocorrido: “Perguntem a Lavrov”, disse a jornalistas.

A ausência de resultados pela via do diálogo coloca mais pressão sobre os países da União Europeia para que recorram a medidas punitivas contra o Kremlin, principalmente porque a expectativa de que Moscou fizesse concessões simbólicas para tentar evitar sanções não se concretizou. Nesta quinta-feira, lideranças do bloco econômico vão se reunir em Bruxelas para avaliar sanções contra a Rússia que obriguem Putin a recuar da invasão na Crimeia.

No entanto, as sanções a serem discutidas são mais simbólicas do que substantivas, segundo o Guardian, que cita como exemplo o congelamento de negociações sobre a facilitação do trânsito de russos para a Europa – conversas que já estão interrompidas de forma não oficial. O impacto de medidas como esta seria muito mais a longo prazo do que imediato, apesar de a Rússia já ter ameaçado com retaliações. Fontes consultadas pelo jornal britânico em Bruxelas admitem que há poucos sinais de disposição da Rússia em buscar uma solução política. No entanto, a hipótese de uma proposta de último minuto do Kremlin não pode ser totalmente descartada como manobra para evitar sanções.

​Nesta quarta, a UE anunciou uma oferta de 11 bilhões de euros em ajuda financeira à Ucrânia ao longo dos próximos dois anos. O bloco também afirmou ter congelado por um ano os ativos de dezoito funcionários ucranianos que estariam envolvidos no desvio de dinheiro público durante o governo de Yanukovich. As sanções também contêm disposições destinadas a facilitar a recuperação do dinheiro, informou o Conselho da UE. O próprio ex-presidente está entre os sancionados.

Em Washington, o Congresso prepara uma legislação que permita a Obama ter à disposição uma série de medidas punitivas, incluindo a não emissão de vistos e o congelamento de bens. Em um ponto mais extremo, os EUA poderiam impor restrições ao comércio com a Rússia, independentemente de decisões tomadas pela Europa.

Obama e o premiê britânico David Cameron conversaram por telefone nesta quarta sobre a crise. Um comunicado distribuído pela Casa Branca afirma que ambos consideraram “inaceitável” a violação da soberania da Ucrânia e afirmaram que a Rússia “já começou a pagar os custos por suas ações, como a redução da confiança dos investidores”. Cameron e Obama também discutiram formas de apoio para estabilizar a economia da Ucrânia.

Confrontos – Enquanto os diplomatas tentam encontrar uma saída para a crise, os conflitos seguem na Ucrânia. Nesta quarta, tropas russas controlaram parte de uma unidade de defesa em Yevpatoria, na costa oeste da Crimeia, mas não conseguiram dominar a central de comando, segundo o Ministério da Defesa ucraniano.

No norte da península, no istmo que liga a república autônoma ao restante do país, soldados russos usaram dez caminhões para bloquear o trânsito e passaram a checar documentos de quem deseja atravessar o local. Duas bandeiras russas foram colocadas na região, segundo o New York Times.

Em Donetsk, no leste, onde a população de origem russa é maioria, manifestantes pró-Moscou exigindo mais autonomia de Kiev enfrentaram a polícia e invadiram um prédio da administração regional – foi a segunda ocupação da sede nesta semana. Confrontos entre as forças de segurança e os manifestantes resultaram em vários feridos.

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