Erdogan participa de oração muçulmana na Santa Sofia | VEJA
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Erdogan participa de oração muçulmana na Santa Sofia

Milhares de pessoas se reuniram em praças ao redor da catedral convertida em mesquita para acompanhar a cerimônia religiosa islâmica

Por Caio Saad Atualizado em 24 jul 2020, 13h21 - Publicado em 24 jul 2020, 12h33

O presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, se juntou a uma grande multidão nesta sexta-feira, 24, para as primeiras orações na Santa Sofia em nove décadas, selando sua ambição de restaurar a fé muçulmana na antiga igreja cristã, construída no século VI para ser a catedral da cidade.

Desde 1934, quando o monumento bizantino foi transformado em museu, nenhuma oração coletiva havia sido realizada dentro do local. Na época, a Turquia havia implantado um estado moderno e secular. Declarar o prédio como patrimônio mundial da humanidade, por ser o maior exemplo da arquitetura cristã bizantina em todo o mundo, foi a solução encontrada para afastá-lo de disputas religiosas.

No entanto, a Justiça turca revogou, em 10 de julho, o status de museu do monumento, abrindo espaço para que fosse convertido em uma mesquita. Assim que as orações foram convocadas a partir dos quatro minaretes que cercam a mesquita, centenas de pessoas se ajoelharam para dar início às práticas religiosas dentro do local. Do lado de fora, dezenas de milhares se reuniram em uma praça e nas calçadas para participar da cerimônia, que muitos veem como a correção de um erro histórico. Um telão e caixas de som foram montados na praça para a multidão composta por 35 mil pessoas, segundo o governo. 

Com a cabeça coberta por um chapéu branco típico para orações, o presidente leu uma passagem do Corão antes de o chefe religioso da Turquia, Ali Erbas, falar aos presentes.

“O anseio de nossa nação, que se transformou em um coração partido, chega a um fim hoje”, disse Erbas do púlpito, segurando uma espada. 

Cortinas brancas recém-instaladas cobriram as imagens de Jesus e Maria em partes do prédio. Representações de anjos, no entanto, ainda eram visíveis em partes dos arcos que escoram o domo da mesquita. Segundo autoridades, os mosaicos cristãos e outras artes do saguão principal serão ocultadas durante momentos de oração, mas estarão visíveis em outras partes do prédio. 

A Santa Sofia foi a maior catedral do mundo por 900 anos até ser capturada pelo sultão otomano Maomé II, o Conquistador, em 1453. Depois disso, passou a ser uma das mesquitas mais importantes para o mundo islâmico por outros 500 anos. 

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“Esta é a abertura de um lugar de oração conquistado pelo direito da espada pelo conquistador sagrado”, disse Latif Ozer, um dos fiéis presentes. “Esta é uma fonte de grande orgulho para nós, grande animação”. 

O orgulho e animação, no entanto, não foram compartilhados por todos. Líderes católicos e alguns países do Ocidente criticaram a ação da Turquia, dizendo que a mudança para um local exclusivamente muçulmano pode intensificar divisões religiosas.

Há duas semanas, após a decisão da Justiça turca, o papa Francisco lamentou o ato. Na Grécia, onde uma grande maioria da população considera o monumento uma peça central da fé cristã ortodoxa, alguns sinos de igrejas soaram em luto nesta sexta-feira.

  • A decisão atual representa a vitória de um movimento de muçulmanos conservadores, que há quatro anos luta para transformar igrejas católicas em mesquitas. Santa Sofia será a quarta igreja convertida em mesquita.

    Há 17 anos no poder, Erdogan já havia levantado a possibilidade de transformar o local exclusivamente em uma mesquita durante eleições locais no ano passado. O presidente reconstruiu a imagem da república moderna turca, fundada há quase um século pelo secularista Mustafa Kemal Ataturk, ao retirar a proibição de véus muçulmanos em instituições estatais e promover educação religiosa.

    Depois de deixar a Santa Sofia, Erdogan seguiu diretamente para outra mesquita, onde afirmou que o prédio histórico “continuará servindo a todos os os fiéis como uma mesquita e continuará sendo um patrimônio mundial para toda a humanidade”. 

    Em um comunicado enviado logo após a decisão da Justiça turca no início do mês, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) alertou que a declaração de patrimônio mundial da humanidade está vinculada a um compromisso da Turquia em garantir que “nenhuma modificação seja feita no excelente valor universal da propriedade”.

    (Com Reuters) 

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