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A jogada de mestre de Obama e Macri

Entenda como a revelação dos documentos desclassificados da ditadura argentina (1976-1983) contribui para a estratégia política dos dois presidentes

Por Duda Teixeira Atualizado em 12 ago 2016, 17h49 - Publicado em 12 ago 2016, 17h36

A divulgação na internet de 1081 páginas de documentos trocados por diplomatas americanos sobre a ditadura argentina (1973 -1983) é altamente louvável porque permite conhecer melhor esse triste período histórico e evitar que a crueldade se repita.

Os textos trazem descrições dos métodos brutais, como torturas e desaparecimentos, usados pelos militares nessa guerra interna, que deixou 30 000 mortos e desaparecidos.

Além disso, os documentos revelam em pormenores como o presidente americano Jimmy Carter (leia matéria “Meia volta, volver” na VEJA que chega às bancas no dia 13) conseguiu influenciar o ditador Jorge Rafael Videla a respeitar os direitos humanos e a permitir a visita de uma comissão da Organização de Estados Americanos (OEA) para averiguar a situação.

“O remorso provocado pelo golpe de Augusto Pinochet no Chile, em 1973, e pelo fim da Guerra do Vietnã, em 1975, levou os americanos a querer espalhar o bem para o mundo e disseminar o respeito aos direitos humanos. Jimmy Carter foi o humanista gente boa que incorporou esse espírito”, diz o diplomata Paulo Roberto Almeida, diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), em Brasília.

Em uma carta de novembro de 1977, Carter diz para Videla: “Mostre progressos em direitos humanos e eu garanto a você que os Estados Unidos estarão sempre prontos para reconhecer esses avanços” (veja abaixo).

Carta-Carter-Videla-direitos-humanos

Mas a divulgação da relação entre os presidentes Carter e Videla também beneficia, de maneira brilhante, os atuais presidentes envolvidos: Obama e Macri.

Na Argentina, Macri estava sendo criticado, embora sem qualquer prova, de não apoiar os direitos humanos e de não querer continuar com as investigações sobre os crimes dos militares.

 

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Embora não tivessem qualquer militância nas décadas de 1970 e 1980, Néstor e Cristina Kirchner, os dois presidentes da Argentina entre os anos 2003 e 2015, adotaram o discurso da defesa dos direitos humanos. Eles fizeram isso a pedido do presidente venezuelano Hugo Chávez, que já financiava várias organizações argentinas, como as Madres da Plaza de Mayo, para ganhar influência na região.

Durante três mandatos, os Kirchner também assumiram uma retórica contra os Estados Unidos e negaram-se a pagar as dívidas aos fundos americanos que compraram parte da dívida renegociada do país, os chamados fundos buitres (abutres, em espanhol).

Quando Macri se elegeu presidente no final do ano passado, ele imediatamente conseguiu um acordo com os credores americanos e, assim, abriu a possibilidade para que seu país consiga mais investimentos e empréstimos no futuro.

Enquanto o novo presidente colocava em prática suas primeiras medidas, os perdedores do pleito levantaram a possibilidade de que ele não continuaria com as investigações em relação aos crimes contra a humanidade promovidos pela ditadura militar. O assunto ainda é seríssimo na Argentina, onde há cerca de seiscentos oficiais detidos.

A revelação dos documentos sobre a ditadura Argentina na semana passada mostra que Macri não apenas conseguiu uma ótima relação co Washington como inverteu o discurso de defesa dos direitos humanos a seu favor.

“Foi incrível a rapidez como Obama respondeu ao pedido de Macri  para que disponibilizasse os arquivos da ditadura. Durante todos os anos de governo dos Kirchner, eles não conseguiram fazer o que o Macri obteve em poucas semanas”, diz Fernando Schüler, professor titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta. “Esse é um gesto que mostra a influência internacional e a capacidade de negociação de Macri”.

Nos Estados Unidos, a divulgação dos documentos enquadra-se dentro do desejo de Barack Obama de deixar um legado. Na aproximação com Cuba, que teve início no final de 2014, Obama colocou na pauta o tema dos direitos humanos e chegou a se encontrar com dissidentes da ditadura em Havana.

Ao trazer à tona documentos da era Carter, Obama tenta refletir a própria imagem e entrar para a história ao lado do ex-presidente.

“Os documentos deixam claro que o governo de Jimmy Carter, que era Democrata e também liberal, usou a agenda de direitos humanos para questionar o desejo por autonomia de alguns governos militares, não só da Argentina mas também do Brasil e no Chile“, diz o cientista político José Niemeyer, do Ibmec, em São Paulo. “Foi uma maneira de o governo americano retomar o controle do apoio que eles tinham dado anteriormente.”

Os Estados Unidos, claro, nunca deram apoio para a ditadura comunista em Cuba. Ao colocar a agenda de direitos humanos na pauta, Obama pode estar usando um pretexto para ganhar influência na ilha. Com Carter, a estratégia deu certo.

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