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100 dias de Joe Biden: o que foi cumprido e o que ainda precisa ser feito

Apesar de sucessos, como uma vacinação em massa que superou expectativas, muitas promessas ainda não saíram do papel

Por Matheus Deccache Atualizado em 29 abr 2021, 09h08 - Publicado em 29 abr 2021, 08h00

Após uma das eleições mais divisivas da história do país e com recorde de participação, Joe Biden completa nesta quinta-feira, 29, 100 dias como presidente dos Estados Unidos. Com um início dos mais ambiciosos da história do país, com projetos ousados para reconstruir a economia em meio à pandemia de Covid-19, o chefe de Estado mais velho a chegar ao poder no país já acumula sucessos, fracassos e muita expectativa para os próximos quatro anos restantes. 

Um discurso forte e uma série de promessas foram as marcas registradas da campanha, coroada com a posse em 20 de janeiro. Com o desejo de ser um dos presidentes mais transformadores do país, Biden abusou dos simbolismos e utilizou o combate à pandemia como um dos seus pilares mais estruturados. Apesar dos sucessos, como uma vacinação em massa que superou expectativas e já alcançou mais de 232 milhões de doses injetadas, muitas promessas ainda não saíram do papel e o presidente ainda tem muitos desafios a enfrentar, como a polêmica questão do controle de armas no país e o aumento do fluxo migratório.

Durante a sua campanha, Biden apresentou 61 promessas para serem cumpridas durante o seu governo nos mais variados campos de atuação. Destas, 25 já foram realizadas, 33 estão em andamento e 3 ainda não tiveram início. As áreas do clima, saúde, governança e economia estão entre as que tiveram mais andamento, enquanto desigualdade, controle de armas e imigração ainda vislumbram um grande caminho a ser percorrido.

A aprovação do democrata também não é das melhores, ainda que o número seja reflexo da polarização que vive os EUA: 54,4% dos americanos aprovam o governo até aqui, número maior do que todo o governo do republicano Donald Trump, porém menor do que o último democrata a ser presidente antes, Barack Obama.

Atualmente, um dos maiores problemas a ser resolvido no governo é o tempo. Durante sua campanha, Biden realizou um pomposo discurso sobre bipartidarismo e o quanto ele precisaria de seus compatriotas republicanos para governar o país da maneira necessária. Com os resultados das eleições legislativas que garantiram a maioria mínima na sua mão, porém, Biden resolveu correr contra o tempo e aprovar o máximo de medidas que conseguir.

No entanto, essa maioria pode estar com os dias contados: com novas eleições legislativas marcadas para 2022, há possibilidade de um cenário invertido, o que certamente frustraria os planos do presidente. Além disso, o mandatário sabe que para realizar mudanças significativas e a longo prazo, emendas não são suficientes, precisando de aprovação das pautas no Congresso.

Uma das maiores vitórias até aqui foi o pacote fiscal de 1,9 trilhão injetados na economia americana, a maior infusão de dinheiro público desde a Grande Depressão, em 1929. Apesar de significativa e massiva, a lei aprovada em março se junta a apenas outras dez assinadas pelo presidente desde que tomou posse. Para efeitos de comparação, Trump chancelou 28 no mesmo período, contra 14 de Barack Obama.

Quando se trata de decretos presidenciais, que não precisam de aprovação do Congresso, a situação é diferente. Joe Biden já assinou 42 deles desde que chegou ao poder, em 20 de janeiro, muitos para cancelar políticas de seu antecessor. Entre as pautas revertidas estão questões relacionadas à Organização Mundial da Saúde, políticas de imigração e ao veto a pessoas vindas de países de maioria muçulmana. O presidente sabe, no entanto, que para que suas mudanças sejam perenes, apenas decretos não bastarão.

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Controle de armas

Ataques em massa recentemente colocaram o tema de controle de armas em debate mais uma vez. Firme defensor de maiores leis e restrições para compra de armas, Biden ainda está longe de cumprir promessas realizadas de campanha, mas começou a dar os primeiros passos para dificultar o acesso no país.

O Departamento de Estado apresentou no início do mês medidas com foco nas chamadas “armas fantasmas”, aquelas que não possuem número de série e, dessa maneira, não podem ser rastreadas. Outro ponto importante é um modelo chamado de “lei da bandeira vermelha”, que dá autonomia para tribunais e autoridades locais removerem armas de pessoas que são consideradas riscos à comunidade. 

Para fazer mais, no entanto, o presidente precisa de uma aprovação no Congresso, algo que está longe de acontecer. Apesar do debate ser periodicamente reacendido nos EUA, principalmente após uma série de atentados com armas de fogo, a Associação Nacional dos Rifles (NRA, na sigla em inglês) e poderosos aliados na Casa continuam impedindo que novas formas de controle sejam aplicadas. Um projeto de lei chegou a ser aprovado no ano de 1994, ainda durante o governo de Bill Clinton, porém foi expirado dez anos depois e não teve renovação.

Imigração e Covid-19

As políticas de imigração representam, de longe, uma das maiores dores de cabeça do presidente, à medida que o país vive seu maior fluxo migratório dos últimos 20 anos. Com a promessa de dar um tratamento mais humanitário aos imigrantes e de legalizar os mais de 11 milhões em condições irregulares no país, Biden perdeu parte do controle das milhões de pessoas que se deslocaram para a fronteira para tentar se beneficiar do novo cenário.

Depois de mais de três meses, muitas famílias continuam separadas nas fronteiras e o número de crianças em centros de detenção continuam altos. O trabalho levantou críticas inclusive de aliados, que o acusam de restringir o acesso da imprensa para acompanhar o trabalho das patrulhas nas divisas territoriais.

Se a imigração o calcanhar de Aquiles, o combate à Covid-19 é seu ponto forte. Enquanto Donald Trump adotava uma postura negacionista em relação à doença, Biden seguiu pelo caminho do enfrentamento direto, além de emplacar uma enorme campanha de vacinação.

Assim que chegou ao governo, o presidente fez a promessa de que 100 milhões de doses seriam aplicadas nos cem primeiros dias de governo, o que foi cumprido com apenas 58 dias de governo. A promessa se tornou ainda mais ambiciosa: 200 milhões de aplicações no mesmo período de tempo.

E o resultado deu certo. Mais de 43% dos americanos já foram vacinados contra o novo coronavírus e os números de infectados não param de cair. Quando chegou ao governo, os EUA registravam uma média de 195.000 novos casos e 3.000 mortes diárias; 100 dias depois, as médias caíram para 57.000 novos casos e 700 mortes.  

O sucesso na campanha de vacinação é grande e, com o ritmo atual, os EUA terão vacinado 70% de sua população em meados de junho. Em levantamento realizado em março, o índice de aprovação do atual presidente subiu quatro pontos percentuais em relação a janeiro.

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