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A expectativa do pódio

De origem humilde, família de Flavia Saraiva aguarda, entre apreensiva e eufórica, a prova decisiva da ginasta

É natural que os pais se preocupem quando o filho ou a filha não crescem dentro dos padrões esperados para a faixa etária. Com a família de Flávia Saraiva, a maior sensação da ginástica artística brasileira, não foi diferente. A caçula da delegação de 465 atletas brasileiros, que ainda é a menor e mais leve – 1m33 de altura e 32 quilos –, esteve no consultório de um especialista aos 9 anos de idade. Embora os pais também tenham altura abaixo da média, sua estatura chamava a atenção. Sem dinheiro para arcar com um caro tratamento à base de hormônio de crescimento, seus pais, que na época vendiam cestas básicas de porta em porta, acabaram se conformando com a situação. Por ironia, o que era visto como um problema tornou-se um dos maiores trunfos da ginasta, de 16 anos. O domínio dos baixinhos nessa modalidade não acontece por acaso – que o diga o fenômeno Simone Biles, a ginasta americana de 1m45. Com o centro de gravidade mais próximo do solo, tendem a ter mais equilíbrio, executarem os exercícios com mais precisão e, ao fim de saltos e piruetas, sofrerem menos impacto. Um esporte perfeito para a pequena Flávia, esperança de pódio na final individual da barra de equilíbrio (trave), nesta segunda. Xodó do grupo, Flavinha vire e mexe acaba sendo carregada no colo, de brincadeira, pelo treinador Alexandre Cuia e pelas companheiras após cada apresentação. E pode se tornar a primeira ginasta do país a ganhar uma medalha olímpica. “Assim que a levei para fazer um teste já disseram que ela tinha nascido para ser uma ginasta”, lembra a mãe, a comerciante Fábia Brito Lopes Saraiva, de 40 anos.

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Ao pisar pela primeira vez em uma arena de ginástica artística, Flavinha, como a atleta é chamada por todos, não se conteve e soltou: “Isso é melhor do que parque de diversões”. Nessa época, tinha 8 anos – quatro a mais do que a idade ideal para iniciar nesse esporte – e participou de uma seleção na Faculdade Moacyr Bastos, em Campo Grande, onde funcionava a ONG comandada pela Georgette Vidor, coordenadora de seleção brasileira da modalidade. Pragmática, a técnica avisou que o biótipo ideal e o talento evidente de nada serviriam se a família não a apoiasse. Carioca do bairro de Paciência, distante 65 quilômetros do Centro do Rio, a ginasta correu o risco de abandonar a carreira ainda no início por falta de dinheiro até para a condução. “Cheguei a dizer que ela teria que desistir daquele sonho. Muitas vezes contei com a ajuda dos vizinhos”, recorda Fábia, que, durante todos os dias, junto com a filha pegava quatro ônibus e passava mais de quatro horas no trânsito para que ela pudesse treinar numa academia, na Barra. Do tipo que é a primeira e a última a deixar o ginásio, desde miúda (o que, aliás, soa redundante) dava indícios de que viveria de ponta-cabeça. Subia nos móveis, se pendurava numa goiabeira do quintal e vivia se equilibrando numa barra de ferro nos fundos da casa – um prenúncio do que seria sua maior especialidade, a trave. Elétrica e com uma elasticidade digna de um contorcionista, aos 5 anos deu um grande susto na família. Escondeu-se num cantinho do armário coberta por uma pilha de roupas e adormeceu profundamente. Os pais chegaram a ir a uma delegacia achando que ela tinha desaparecido.

Estreante em uma Olimpíada, Flavinha, a princípio, era uma promessa para os Jogos de 2020, em Tóquio. A menina que adora ver desenhos como Bob Esponja e Phineas e Ferb na TV e sempre carrega na mala bonecos minions – aqueles seres rechonchudos amarelos que surgiram no filme Meu Malvado Favorito –, porém, começou a chamar a atenção em 2014. Naquele ano, durante os Jogos Olímpicos da Juventude Nanquim, na China, subiu ao pódio três vezes: conquistou ouro no solo e prata individual geral e trave. Nos Jogos Pan-americanos de Toronto, em 2015, pôs no peito as medalhas de bronze individual geral e por equipe. Em abril deste ano, no evento-teste na Arena Olímpica do Rio, foi a vez de brilhar novamente com o ouro no solo. A atleta, que cursa o 3ºano do Ensino Médico num curso à distância (ela e outras integrantes da seleção têm acompanhamento de uma professora) e planeja fazer faculdade de fisioterapia, treina em média dez horas por dia, seis dias por semana. Ela e a mãe já não passam horas dentro de um ônibus para ir aos treinamentos. Hoje, Flavinha passa a semana num apartamento de um condomínio nas imediações do Parque Olímpico, na Barra, com mais três atletas e a família – a mãe, o pai, João Saraiva Ubirajara, de 43 anos, e o irmão, também João, de 12. Aos domingos, quando não está concentrada com a equipe, vai para a casa em Paciência. No quarto que divide com o irmão, todo decorado com seus personagens preferidos (minions, de novo), dorme com a cama cheia de bichinhos de pelúcia. O costume se repete nas viagens com outras ginastas. O imóvel da família foi reformado e ganhou um terraço com a ajuda da filha. Além do apoio do Ministério do Esporte, conta atualmente com o patrocínio de cinco empresas, o que lhe rende em torno de 25 000 reais mensais. “Ela ajudou a gente a comprar um caminhãozinho para levar as cestas básicas”, orgulha-se o pai, que agora tem uma pequena distribuidora de alimentos.

Os pais da ginasta Flávia Saraiva - João e Fábia Os pais de Flávia, João e Fábia

Os pais de Flávia, João e Fábia (Anna Fischer/VEJA)