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“Quero que a novela tenha um fim”, diz autora de ‘Amor de Mãe’

Na volta das gravações, a escritora Manuela Dias falou a VEJA sobre os novos rumos da trama

Por Marcelo Marthe Atualizado em 24 ago 2020, 12h40 - Publicado em 21 ago 2020, 06h00

Por que decidiu abordar a pandemia na fase final da novela? O processo todo é muito vivo, assim como o vírus é vivo. Meu primeiro instinto foi de não abordar a Covid. Pensei: “Vou viver no meu mundinho particular e poupar os personagens dessa loucura”. Mas eu precisava escrever uma trama exequível, que pudesse ser gravada. Essa adaptação foi muito interessante. É como se o destino dos personagens fosse o nosso.

Como assim? Creio na máxima grega: quando você quer saber seu destino, tem de conhecer você mesmo. A boa aventura é a que desafia o herói a virar ele próprio. E isso vale para nossa própria vida: os grandes eventos é que fazem a gente ser a gente. Procuro aplicar essa lógica à novela. Os personagens vão encontrar seus destinos por meio de um novo caminho que passa pelo coronavírus.

Os personagens vão usar máscara? Vão. A novela é totalmente realista. Eu tive de botar o coronavírus na trama porque a gente não pode ter, por exemplo, aglomeração de figurante. Se eu não ponho a Covid, como justificar aquela cidade cenográfica vazia? Eu me sinto, como autora, responsável por atores, equipes e todo mundo envolvido em realizar as coisas que brotam da minha cabeça.

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Tantas adaptações não limitam suas possibilidades como autora? É o meu trabalho, sabe? Eu me adapto à realidade. Quero que a novela tenha um fim, que a gente volte a gravar, porque é muito importante — óbvio, pensando no lado pessoal da coisa, mas também pelo esforço da equipe e da empresa. É muito dinheiro investido, e uma novela sem fim não é um produto. Nós perderíamos tudo o que fizemos. Era tão importante terminar que nem penso nisso como esforço.

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A possibilidade de Amor de Mãe ficar sem desfecho a angustiava? Eu já nasci angustiada. Tenho uma leve sensação de que nossos ancestrais tranquilos não deixaram descendentes. Mas, sim, claro, eu ficava completamente mobilizada. Não existe diferença entre a minha vida e o meu trabalho, é tudo a mesma coisa. Antes de essa novela nascer, eu tinha entregado outra sinopse para a Globo. Quando minha filha nasceu, foi tão avassalador que falei: “Gente, segura aí que eu vou entregar outra sinopse”.

Qual é a relação da sua maternidade com a novela? Eu quis muito ser mãe, mas só consegui aos 39 anos. Atualmente, tenho 43. Hoje em dia rola esse caô de que dá para ser mãe com 80 e poucos anos. Cara, é fake. É muito difícil engravidar aos 39 anos, tem todo um batalhão maçante de exames. Eu não tive de fazer fertilização, mas perdi três bebês. Foi muito difícil e intenso. E, naquele momento de tanta desorientação, com toda a feminilidade questionada, eu pensei: “Tenho de aproveitar essa situação, não posso só sofrer”. Eu tinha de me fortalecer. Quando tive a Helena, foi uma experiência maravilhosa, apesar de não ter gostado muito da gravidez — é muito difícil estar grávida, é um strike corporal em todos os sentidos. Mas, no momento que a Helena nasceu, eu amei amamentar, não precisava de ajuda, eu sabia tudo de dentro.

Como abordar temas sérios como o racismo e o machismo sem afugentar o espectador que só busca diversão? Eu não escrevo para as pessoas entenderem o que é machismo ou racismo, mas para elas sentirem. Porque é a conexão com os outros seres humanos que faz a gente mudar. Eu peço às musas, porque acredito num mundo descrito pelos gregos em que possam existir musas que vão me inspirar e levar minha palavra como uma flechada no coração das outras pessoas.

Thelma, personagem de Adriana Esteves, foi de figura complexa a vilã escancarada. A comparação com Carminha, personagem da atriz em Avenida Brasil, faz sentido? As duas são pérfidas, mas a Carminha era amada, expansiva, engraçada, provocava uma identificação imediata, enquanto a Thelma é realmente odiada porque mente, manipula, é passivo-agressiva. Já vi no Twitter muita gente falando: “Explode esse aneurisma logo, desgraçada”.

O que acha da repercussão da novela nas redes? Eu acompanho na medida da minha saúde. Leio as coisas da novela que têm um intuito bacana. Quando acho que vou me chatear, não leio.

Publicado em VEJA de 26 de agosto de 2020, edição nº 2701

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