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Pequeno guia para desconstruir Salvador Dalí

Por Meire Kusumoto - 25 out 2014, 07h52

Fenômeno de público no Rio de Janeiro, onde bateu recorde com quase 1 milhão de visitas, Salvador Dalí, a maior retrospectiva do pintor surrealista já montada no Brasil, chegou ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, com sistema anti-filas e alta expectativas. A vinda ao país de eventos como este, que já passou por diversos museus pelo mundo, é importante não só por colocar a arte na agenda da população, mas por permitir discuti-la para além dos clichês. O Dalí que surge, quando a discussão desfaz o mito, é uma fonte rica de controvérsias: um artista egocêntrico que se valia do marketing para dar visibilidade à obra, que flertava com a ditadura de Francisco Franco e que passou a se repetir a partir dos anos 1940, pouco depois de ser expulso do movimento surrealista por seu fundador, o poeta francês André Breton.

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Nascido em Figueres, na Catalunha, em 1904, Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech estudou técnicas de pintura, escultura e gravura na Real Academia de Bellas Artes de San Francisco, em Madri, por cerca de quatro anos. Mas a sua passagem pelo curso e pelo alojamento da escola, onde conheceu nomes que marcariam o mundo da arte, como o cineasta Luis Buñuel e o escritor Federico García Lorca, foi encurtada pela audácia do pintor. Pouco antes de enfrentar os exames finais, em 1926, ele foi expulso da academia por dizer que a comissão avaliadora não era qualificada o suficiente para examiná-lo.

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Em 1929, ele se aproximou do movimento surrealista, inaugurando a fase em que faria as suas maiores obras, como O Grande Masturbador (1929) e A Persistência da Memória (1931). Em companhia de colegas do grupo, Dalí bebeu dos estudos do psicanalista Sigmund Freud e propôs pinturas com uma abordagem do universo dos sonhos e do inconsciente. Mas não durou muito. Apenas dez anos depois, a obsessão pela figura Adolf Hitler (que mais tarde se converteria em admiração pelo fascista Francisco Franco) e o gosto pelo dinheiro (Dalí lucrava sem pudor com a sua produção, desenvolvendo trabalhos inclusive para a publicidade e a moda) renderiam a ele não apenas o apelido de Avida Dollars, um anagrama de seu nome confeccionado por Breton, mas também a saída forçada do surrealismo.

Virada – É a partir do rompimento com o movimento e de sua mudança para os Estados Unidos, em 1940, que Dalí passa a ser visto com desconfiança pela crítica. Durante essa década, ele se converteu ao catolicismo e começou a criar imagens sagradas, como em A Madona de Port Lligat (1949), em que usa técnicas tradicionais da pintura. Ambas as fases, a surrealista e a religiosa, estão em cartaz no Tomie Ohtake, em São Paulo, na mostra que reúne 218 peças do espanhol.

“As obras de Dalí após a década de 1930 se transformaram ou em uma repetição kitsch de velhos temas ou em uma devoção vulgarmente pomposa”, disse o crítico de arte Robert Hughes em artigo escrito para o jornal britânico The Guardian em 2004. “Os ‘dois Dalís’ – o jovem gênio perturbador e o velho pretensioso e indecente – são a mesma pessoa. Mas um deles é uma versão corrompida e vaidosa da outra.”

Para Pedro de Andrade Alvim, professor de história da arte da Universidade de Brasília (UnB), a obra de Dalí é importante para entender o surrealismo e tem um poder desconcertante no espectador, mas a repetição é um problema. “Depois de um tempo, as pessoas gostam menos das peças dele. Elas parecem ter sido feitas a partir de uma fórmula”, diz.

Na opinião da pesquisadora inglesa Dawn Ades, porém, Dalí se tornou alvo da crítica por suas posições políticas e por resgatar o academicismo na pintura, em uma época marcada pela profusão de vanguardas que sacudiu a Europa nas primeiras décadas do século XX. A professora emérita da Universidade de Essex, da Inglaterra, afirma no entanto que essa corrente de pensamento está sob revisão. “Houve um tempo em que os críticos não olhavam as obras de Dalí feitas após o final da década de 1930. Mas agora há pressupostos menos rígidos de que esse tipo de pintura é inaceitável. As pessoas veem potencial nesse trabalho.”

Já Camille Paglia, professora de Humanidades e Estudos Midiáticos da University of the Arts da Filadélfia, atribui o mau humor da crítica ao flerte de Dalí com a indústria da moda e do cinema. “A reputação final do pintor foi prejudicada por seu interesse pela moda e por Hollywood (algo que admiro nele) e por seu estilo de representação harmonioso, que conflitava com a ascensão do abstracionismo ao fim da Segunda Guerra Mundial”, diz Camille, autora do recém-lançado Imagens Cintilantes – Uma Viagem Através da Arte desde o Egito a ‘Star Wars’ (Apicuri). “Mas Dalí foi um poeta genial do inconsciente freudiano, com seus trocadilhos sexuais ousados, e um homem de visão alucinatória e de êxtase, herdeiro moderno do barroco italiano e ibérico.”

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