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‘O horror vai ter espaço no cinema brasileiro’, diz diretor de ‘Quando Eu Era Vivo’

Para Marco Dutra, é só uma questão de tempo para que o setor abra as portas para gêneros diferentes da comédia, que atualmente domina a bilheteria de produções nacionais

Por Meire Kusumoto 31 jan 2014, 11h45

Uma breve descrição de Quando Eu Era Vivo, filme que estreia nesta sexta-feira, chega a causar estranhamento: trata-se de um bom longa nacional de terror, com Antônio Fagundes e Sandy – sim, Sandy Leah – no elenco. O cinema nacional, dominado nos últimos anos pelas comédias, que em 2013 responderam pelas maiores bilheterias entre os filmes brasileiros, não parece aberto a produções que flertem com outros gêneros, quanto mais o horror. A atuação de um dos nomes mais tradicionais do teatro e da TV, Antônio Fagundes, e de uma cantora com imagem de fofa também intriga. A combinação de tudo isso, no entanto, por mais inesperada que seja, dá certo.

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A tensão explorada no filme já vinha sendo treinada pelo diretor Marco Dutra (de Meu País e Trabalhar Cansa) em curtas-metragens de horror como O Lençol Branco (2004), quase sempre em parceria com Juliana Rojas, que também participou de Quando Eu Era Vivo. Para o longa, Dutra afirma ter se inspirado indiretamente no trabalho de alguns brasileiros que inseriam sustos e ambientes macabros em suas produções, como Walter Hugo Khouri (de As Deusas e Estranho Encontro) e, claro, José Mojica Marins, o Zé do Caixão (de À Meia Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver).

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Para o diretor, é só uma questão de tempo para que o cinema brasileiro dê mais atenção a outros gêneros que não o humor. “As comédias estão nessa era de ouro, mas as portas de outros gêneros estão esperando ser abertas. Minha sensação é de que já está começando a acontecer, está na boca do povo. Esses gêneros vão ter o espaço que merecem”, diz em entrevista ao site de VEJA. Ele tanto acredita que há um novo caminho a ser trilhado no cinema que investe em outras duas produções na linha de Quando Eu Era Vivo, ambas com elementos sobrenaturais. Uma delas, ainda na fase de concepção de roteiro, vai se passar no universo de Drácula; a outra, que já deve começar a ser filmada em 2014, no dos lobisomens.

De fato, o terror brasileiro vem dando passos para conquistar, se não o público, ao menos a crítica. No ano passado, O Lobo Atrás da Porta, longa de Fernando Coimbra baseado no triângulo amoroso real – e horripilante – vivido por Milhem Cortaz (o marido), Fabiula Nascimento (a mulher) e Leandra Leal (a amante, que sequestra a filha do casal) se sagrou vencedor do Festival do Rio, um dos mais tradicionais do país.

O filme – Baseado no romance A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli, Quando Eu Era Vivo conta a história de Júnior, interpretado com maestria por Marat Descartes, um homem que, após perder o emprego e se divorciar da mulher, volta a morar no apartamento em que foi criado, em São Paulo. Na casa, moram o pai, Sênior (Antônio Fagundes), e Bruna (Sandy), uma estudante de música que aluga o quarto onde anos antes dormiam Júnior e seu irmão, Pedro (Kiko Bertholini).

Júnior é, aos poucos, tragado pelas lembranças que a casa traz, especialmente de momentos misteriosos e sombrios vividos ao lado de sua mãe, Olga (Helena Albergaria), já morta. Conforme o rapaz passa por essas transformações, o ambiente do filme se torna mais sombrio e tenso, dando ao espectador a impressão de que uma verdadeira tragédia pode acontecer a qualquer momento.

Júnior e Sênior mantêm uma relação fria e a distância entre os dois parece aumentar quando o filho resgata objetos, fotos e vídeos da mãe, que permaneciam encaixotados no quartinho dos fundos do apartamento. O pai, de início alheio aos acontecimentos na casa, é envolto em mistério com o desenrolar do filme. “Ele tem uma profunda incomunicabilidade com os filhos, como devia ter com a mulher. Eu encaro o meu personagem como a porta de entrada para o suspense e o terror. Ele é envolvido de repente pelo horror, assim como o público”, diz o ator.

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