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‘Mateo’: o poder transformador da arte em meio à guerrilha

No longa colombiano, menino é incumbido pelo tio de vigiar o professor de um grupo de teatro, um padre incômodo aos paramilitares, e não demora a perceber que é o tio quem tem as ideias um tanto fora de lugar

Por Simone Costa 22 out 2014, 08h43

Mesmo com um final que não está à altura do enredo apresentado, Mateo é uma boa surpresa entre os filmes de novos diretores

Mateo (Carlos Hernández) é um adolescente de 16 anos que vive com a mãe em um bairro pobre de Barrancabermeja, na Colômbia. Pelas ruas de terra batida, entre casas de madeira e comércio simples, ele passa os dias cobrando os comerciantes que devem ao seu tio Walter (Samuel Lazcano), um agiota que Mateo tem como referência do que quer ser na vida, sem se dar conta do seu envolvimento com a violência que domina a região. No colégio, Mateo vai mal e, para não ser expulso, é obrigado a frequentar o grupo de teatro do padre David (Felipe Botero). O garoto só aceita participar depois que o tio o incumbe de entrar para o grupo para fazer uma espécie de “serviço de inteligência”, já que o padre é visto como um incômodo pelos paramilitares. Esse é o resumo de Mateo (Colômbia, França, 2014), primeiro longa de María Gamboa que está na competição de novos diretores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e foi o escolhido para representar a Colômbia na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

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Ajudando o tio com as cobranças, Mateo ganha bem mais que a mãe, que reluta em receber dinheiro do filho por conhecer sua origem. Ela se preocupa com o futuro do adolescente, mas quase não há diálogo entre eles. Mateo não lhe dá ouvidos. Ao aceitar entrar no grupo de teatro para espionar o padre, Mateo se mostra arisco nos primeiros dias. Não consegue olhar os colegas nos olhos, nem confia que eles possam segurá-lo no alto, sem deixar cair. É o costume das ruas, onde ele sabe que não pode vacilar. Mas Mateo é um garoto carismático e boa pinta e, aos poucos, vai se deixando envolver pelos outros alunos, pelo padre e por suas ideias. Não demora para que ele comece a enxergar que o tio, que ele admira, não é bem o que ele pensa.

É excelente a atuação de Carlos Hernández, aluno de teatro de uma outra cidade na região, que ainda não é ator profissional nem tinha participado de um projeto dessa magnitude. Ele se movimenta e fala com desenvoltura, de maneira natural. É interessante também saber que muitos dos outros integrantes do filme não são atores e, sim, pessoas envolvidas em projetos sociais da cidade. Isso mostra o bom trabalho feito pela direção, que também explorou muito bem a locação.

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Barrancabermeja, às margens do rio Magdalena, é um lugar marcado pela violência tanto de paramilitares quanto de guerrilhas, mas María Gamboa não usou nenhuma vez essas palavras — nem mesmo Farc (as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo narcoterrorista há décadas em atuação no país) ou tráfico de cocaína. Também não há cenas de violência explícita, apenas metáforas e insinuações. “Às vezes, é desesperadora a atração por sangue e pelo assassinato. A nós, interessava mais as vítimas em sua integridade e força, vistas de um lugar de admiração e respeito”, disse a diretora ao jornal colombiano El Espectador.

O clima positivo, de que a arte pode mudar a situação de um lugar, não incomoda. É bem interessante a maneira como Mateo vai se dando conta da sua realidade e como isso o afeta, como o transforma. Mas o longa termina de forma muito abrupta, um tanto ingênua, dando a impressão de que a realidade pode ser mudada de forma instantânea, quando todos sabem que não é tão simples assim. Mesmo com um final que não está à altura do enredo apresentado, Mateo é uma boa surpresa entre os filmes de novos diretores.

Serviço:

21/10 às 16h – Espaço Itaú de Cinema – Augusta anexo 4

Rua Augusta, 1.475 – Cerqueira César – Tel: (0/xx/11) 3288-6780

22/10 às 15h30 – Cine Sabesp

Rua Fradique Coutinho, 361 – Tel: (0/xx/11) 5096 0585

27/10 às 22h20 – Espaço Itaú de Cinema – Augusta 1

Rua Augusta, 1.475 – Cerqueira César – Tel: (0/xx/11) 3288-6780

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