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Enquete de Fátima Bernardes só serviu para polêmica – e audiência

Código de Ética Médica veta a escolha proposta pela apresentadora na Globo: atender primeiro um policial ou um traficante e põe risco de vida como critério

Por Maria Carolina Maia Atualizado em 27 nov 2016, 18h15 - Publicado em 27 nov 2016, 16h34

Um dos temas mais discutidos na última semana, a enquete proposta por Fátima Bernardes em seu programa na Globo, quando perguntou aos convidados se escolheriam, se fossem médicos em um pronto-socorro público, salvar um policial ou um traficante, não teve outra função que não a de criar controvérsia – e, é claro, repercussão e audiência para o Encontro com Fátima Bernardes. Uma rápida leitura no Código de Ética Médica, disponível no site do Conselho Federal de Medicina, deixa claro que um médico deve atender primeiro quem estiver em pior estado de saúde. Caso, na enquete de Fátima, do traficante.

  • “O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente”, lê-se logo no Capítulo I do código. O trecho se aplica perfeitamente ao caso proposto na Globo: o médico pode se sentir mal de ajudar um traficante, mas, se for “caso de urgência ou emergência”, ele deve fazê-lo.

    No Capítulo III, sobre condutas que são vedadas ao médico quanto à sua responsabilidade profissional, lê-se no Artigo 7º: “Deixar de atender em setores de urgência e emergência, quando for de sua obrigação fazê-lo, expondo a risco a vida de pacientes, mesmo respaldado por decisão majoritária da categoria”.

    No Capítulo V, sobre a relação com pacientes e familiares, o artigo 33 diz, de forma semelhante, que é vedado ao médico “Deixar de atender paciente que procure seus cuidados profissionais em casos de urgência ou emergência, quando não haja outro médico ou serviço médico em condições de fazê-lo”. Ou seja, se não puder repassar o atendimento, o médico deve cuidar do paciente que precisa de socorro.

    Nesse mesmo capítulo, logo a seguir, lê-se que, caso não se sinta à vontade para atender um paciente, por “fatos que, a seu critério, prejudiquem o bom relacionamento com o paciente ou o pleno desempenho profissional”, o médico pode “renunciar ao atendimento, desde que comunique previamente ao paciente ou a seu representante legal, assegurando-se da continuidade dos cuidados e fornecendo todas as informações necessárias ao médico que lhe suceder”.

    Inspirada em uma cena do filme Sob Pressão, de Andrucha Waddington, que estreava no mesmo dia, a enquete do Encontro com Fátima Bernardes, como se vê, jamais levaria a lugar nenhum, embora tivesse potencial para detonar uma polêmica incendiária – como de fato aconteceu. Se era essa a intenção do programa, o objetivo foi cumprido. A repercussão foi tanta que Fátima chegou a dizer, como que se defendendo de quem a acusava de proteger o crime, já que seus convidados optaram por salvar o traficante, que escolheria o policial.

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