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Ambiente tóxico: Globo de Ouro sofre baixas por resistência a mudanças

Organização está no meio de uma controvérsia desde fevereiro, quando jornal americano expôs falta de diversidade e recebimento de propina por votantes

Por Amanda Capuano Atualizado em 18 jun 2021, 15h19 - Publicado em 18 jun 2021, 13h23

Em mais um capítulo da novela que envolve o Globo de Ouro, dois membros da HFPA, a academia votante da premiação, renunciaram de suas cadeiras na quinta-feira, 17, alegando “um ambiente tóxico para jornalistas da ativa” e resistência dos colegas em aplicar as medidas prometidas para aumentar a diversidade e a transparência do prêmio. “A maioria dos membros resiste a mudanças transformadoras, apesar de nossos advogados e porta-vozes sugerirem publicamente o contrário”, disseram Wenting Xu e Diederik van Hoogstraten na carta de renúncia divulgada pelo jornal Los Angeles Times. Em nota de resposta às acusações, a HFPA se disse decepcionada com a “tentativa de semear divisão e dúvidas.”

A carta divulgada pelos ex-membros afirma que permanecer na HFPA se tornou insustentável e aponta uma série de motivos que os levaram a abandonar a instituição, entre eles o silenciamento de vozes críticas “constantemente ignoradas” dentro da organização . A dupla também apontou que o novo regulamento feito pelos consultores, que tinha como objetivo implantar avanços significativos para o futuro, ‘foi diluído para agradar à maioria do conselho e os membros avessos às mudanças.” Como exemplo de que a antiga cultura seguirá prosperando, eles apontam que o conselho atual conta com 12 membros do HFPA, contra apenas três pessoas de fora. “Isolamento, silêncio, medo de retaliações, corrupção e abuso verbal são apenas algumas das maneiras de descrever essa cultura”, denunciam eles, que também apontam o bullying de ex-membros como um problema sempre presente e não combatido.

A controvérsia envolvendo o prêmio surgiu em fevereiro deste ano, depois que o mesmo Los Angeles Times denunciou irregularidades em uma extensa reportagem que aponta que os votantes da HFPA recebiam “mimos” de produtores e membros da indústria, incluindo estadias em hotel cinco estrelas e almoços de luxo durante a exibição de filmes e séries. A troca de favores entre votantes e concorrentes, assim como a ausência de minorias no grupo, implantou uma desconfiança geral sobre as escolhas, muitas vezes questionadas, do Globo de Ouro, que passou a ser alvo de um boicote de grandes produtoras como a Netflix, Warner, Amazon e até de atores consagrados, como Tom Cruise e Scarlett Johansson.

  • A situação foi agravada pela falta de transparência da premiação que, conforme a carta, apenas se intensificou. Desde que a controvérsia se instaurou, a maioria das decisões tem sido tomada “de portas fechadas” e os membros não têm mais acesso detalhado às finanças do grupo. A troca de favores também continua: “O sistema eleitoral permite que candidatos movidos pelo poder conquistem a maioria dos votos prometendo empregos internos para outros membros. De acordo com o novo estatuto, pagamentos generosos para trabalhos do comitê ainda são permitidos e não há uma contribuição filantrópica mínima estabelecida, como acontece na maioria das organizações sem fins lucrativos.”

    Diante das acusações, a HFPA divulgou um comunicado no qual se diz desapontada que “em um momento em que a maioria esmagadora dos membros optou por fazer parte da mudança”, alguns decidiram tentar “fragmentar a organização e semear divisão e dúvida.” A nota segue dizendo que o Conselho e os membros da HFPA compartilham do objetivo de executar as mudança transformadoras que o órgão precisa. “Este é um momento crucial para nossa organização e estamos prontos para colaborar com os nossos membros e grupos externos para tornar essa mudança uma realidade.” Desde que a polêmica se instaurou, a instituição contratou um especialista em diversidade e anunciou algumas mudanças estruturais para aumentar os votantes negros e limitar a “propina” na academia.

    Os ex-funcionários afirmam que houve uma janela para que a HFPA aprendesse com os erros e saísse disso como uma organização “mais saudável” através de “reformas e transparência radical”. Eles alegam, no entanto, que essa janela já se fechou e “Hollywood seguiu em frente”, dando a entender que as denúncias ficarão por isso mesmo e que a solução aos descontentes é buscar o próprio espaço: “após a nossa saída, planejamos construir uma organização transparente, profissional e inclusiva para as gerações atuais e futuras de repórteres que querem trabalhar juntos sem toxicidade”, finaliza o documento.

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