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Globo de Ouro é acusado de corrupção após denúncias de irregularidade

Membros do grupo responsável pela cerimônia aceitam 'mimos', que vão desde presentes a viagens para hotéis 5 estrelas, em troca de nomeações às estatuetas

Por Tamara Nassif Atualizado em 22 fev 2021, 19h25 - Publicado em 22 fev 2021, 19h06

Às vésperas da premiação, marcada para o próximo domingo, 28, o Globo de Ouro acabou em um escândalo com acusações de corrupção por atos irregulares da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPQ, em sigla em inglês), grupo de jornalistas internacionais responsável por indicações e premiações da cerimônia. Segundo reportagem do jornal Los Angeles Times, publicada no último fim de semana, integrantes e ex-integrantes da HFPQ aceitam viagens a lugares exóticos, estadias em hotéis cinco estrelas, jantares, presentinhos e convites a festas badaladas em troca de nomeações às estatuetas douradas.

Ouvidas mais de cinquenta pessoas, a reportagem teve acesso a documentos fiscais internos que apontam que, apenas no final do último ano, a HFPQ pagou aos seus membros um total de 100 milhões de dólares. Em troca, deveriam participar de atividades relacionadas ao processo de escolha dos nomeados, como assistir a filmes específicos, fazer viagens a sets de filmagens, participar de entrevistas. “É incomum que todas essas pessoas estejam sendo pagas”, disse ao jornal o advogado Daniel Kurtz, amparado pelo colega de profissão Douglas Varley: “Se a Associação está pagando a seus membros por esses serviços, ela deve estar recebendo serviços de valor proporcional, que beneficiem os interesses da indústria.”

Uma dessas acusações veio da norueguesa Kjersti Flaa, jornalista que teve sua participação negada no HFPA. Em novembro do ano passado, ela processou o grupo e o acusou de institucionalizar uma “cultura de corrupção”, dizendo que a organização, isenta de impostos, operava como um cartel ao barrar candidatos qualificados como ela em nome de um monopólio de profissionais da imprensa, além de “indevidamente subsidiar” a renda dos jornalistas em questão. Ela ainda afirmou que a Associação, por trás de um “código de silêncio”, estava embebida em conflitos éticos, com membros aceitando “milhares de dólares em emolumentos” das mesmas figuras a quem conferiam troféus. O processo logo foi indeferido, com os advogados da HFPA acusando Flaa de “uma transparente tentativa de bagunçar a associação com base em inveja, não mérito”.

Ainda assim, o processo da norueguesa foi endossado – ao menos por debaixo dos panos – por membros que, de dentro da HFPA, esperavam que a organização fosse forçada a fazer mudanças há muito esperadas. “A derrota foi decepcionante”, disse um jornalista da associação que preferiu não ser identificado. “Eu pensei que isso iria abalar as coisas. Somos uma organização arcaica, e ainda acho que o HFPA precisa de pressão externa para mudar.” Apresentada como uma organização sem fins lucrativos, a Hollywood Foreign Press Association é isenta de impostos para “promover a profissão ou indústria, e não interesses individuais”. Na visão dos acusadores, além de todas as polêmicas envolvendo a legitimidade das nomeações, a associação alimenta uma estrutura de sonegação de impostos.

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Lily Collins na série ‘Emily em Paris’: cenário parisiense é refúgio em meio a roteiro clichê Netflix/Divulgação

A polêmica respingou até em Emily em Paris, agora posta na berlinda diante de suspeitas de irregularidade em suas indicações ao Globo de Ouro – em muito contestadas por críticos de televisão. Indicada a duas categorias, a Paramount Network, produtora da série, convidou 30 membros da HFPA para uma viagem à capital francesa, com visitas aos sets de filmagem e hospedagem em caríssimos hotéis cinco estrelas, cujas diárias começam na bagatela de 1.400 dólares por noite. Fora as mordomias, uma coletiva de imprensa e almoço no Musée des Arts Forains, museu privado repleto de artigos datados de 1850, estava inclusa no pacote. “Nos trataram como reis e rainhas”, disse um membro da associação ao jornal americano. Outro jornalista comentou que “a série não pertence a nenhuma lista dos melhores de 2020” e que é preciso parar de aceitar um convite como esse: “É um exemplo do porquê muitos de nós afirmamos que isso precisa mudar. Se continuarmos a aceitar isso, convidamos a crítica e o escárnio.” Nem a Paramount, nem a Netflix quiseram comentar o assunto.

Além disso, um documento de 2017, vinculado a pagamentos do estúdio Globes, mostrou que a indicação e a vitória de um filme às categorias principais poderiam render de 20.000 a 30.000 dólares em bônus aos membros do HFPA.

A Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood negou todas as acusações de corrupção e afirmou que não há provas que sustentam as denúncias de regularidade. Um porta-voz da entidade disse ao jornal que “nenhuma dessas alegações foi comprovada em tribunal ou em qualquer investigação” e que “simplesmente repetem velhas noções sobre a HFPA e refletem preconceito inconsciente contra os seus diversos membros.”

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