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Em reality show, assistimos à realidade da escalada do vape e seus perigos

Por que a popularização dos cigarros eletrônicos pode levar a uma ‘epidemia’ de casos de câncer de pulmão na geração Z nas próximas décadas

Por Mariana Laloni*
Atualizado em 22 jan 2024, 17h12 - Publicado em 22 jan 2024, 10h13

É necessário lidar com uma verdade factual deste tempo. Assistimos, tal como em um reality show, à realidade de uma escalada da popularização dos cigarros eletrônicos. Eles estão cada vez mais presentes em festas, lares, na saída das escolas e nos espaços públicos, consumidos especialmente pelas novas gerações. Também virou assunto na edição 24 do Big Brother Brasil, da Rede Globo: duas participantes (a modelo Yasmin Brunet e a influencer Vanessa Lopes) mencionaram sobre a sensação de crise de abstinência pela falta do vape — um dos tipos mais conhecidos entre os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs). A menção ao hábito e ao sintoma em rede nacional, que não deve ser objeto de julgamento moral, é termômetro do impacto da banalização do uso e de um perigo real para a saúde de toda uma geração.

Um levantamento do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) aponta que 2,2 milhões de adultos (1,4%) no Brasil afirmaram ter consumido os dispositivos eletrônicos para fumar até trinta dias antes da pesquisa. Em 2018, o índice era de 0,3% entre a população, menos de 500 mil consumidores. E o problema vai além: cerca de 6 milhões de adultos fumantes afirmam já ter experimentado cigarro eletrônico, o que representa 25% do total de fumantes de cigarros industrializados, um acréscimo de nove pontos percentuais em relação a 2019, segundo a mesma pesquisa. Tendência semelhante ocorre nos Estados Unidos, onde uma em cada cinco pessoas (20%) entre 18 e 29 anos usa produtos vaping, de acordo com o National Youth Tobacco Survey (NYTS).

O fenômeno é razoavelmente recente, difundido há pouco mais de uma década. Ainda não podemos dizer precisamente sobre seus efeitos na saúde da população a longo prazo. No entanto, a comunidade científica já aponta dados de que o cigarro eletrônico pode ser tão ou até mais maléfico que o cigarro tradicional (que comprovadamente causa câncer de pulmão, entre outros tipos de tumores, doenças pulmonares e doenças cardiovasculares).

Prognóstico preocupante

Assim como ocorreu no passado com as gerações que viam no cigarro tradicional um símbolo de charme e status, essa tendência indica um prognóstico preocupante: poderemos vivenciar, nas próximas décadas, uma verdadeira ‘epidemia’ de casos de neoplasias pulmonares entre pessoas que hoje compõem a chamada geração Z.

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O tabagismo segue como o principal fator determinante para o diagnóstico de câncer de pulmão em todo o mundo. Anualmente, 2 milhões de pessoas são diagnosticadas com câncer de pulmão ao redor do globo. E não apenas desse tipo de tumor. Em 2023, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), 73.500 pessoas foram diagnosticadas com algum tipo de câncer provocado pelo tabagismo no país e 428 morrem diariamente no Brasil por conta dele.

A preocupação com os cigarros eletrônicos está no radar da Organização Mundial de Saúde (OMS). A instituição alerta para os males da nicotina em pessoas menores de 20 anos. E sinaliza que crianças e adolescentes que usam esses dispositivos têm mais riscos de se tornarem fumantes na vida adulta. Globalmente, segundo relatório divulgado em 2021 pela entidade, 84 países não contam com quaisquer medidas contra a proliferação dos vapes. Outros 32 países proíbem a venda dos dispositivos e 79 adotaram pelo menos uma medida para limitar o seu uso, como a proibição da propaganda.

A escalada de consumo de cigarros eletrônicos caminha na direção oposta do que vem ocorrendo com o cigarro tradicional. Se, em 2000, 30% dos brasileiros eram tabagistas, esse índice chegou a 9% este ano, um dos menores do mundo. É preciso dar ênfase a uma vitória importante para a saúde brasileira. Fomos muito eficazes no combate ao tabagismo convencional. Avançamos até mesmo em relação aos Estados Unidos e à Europa. Em contrapartida, com a adesão das novas gerações aos dispositivos tecnológicos, esses índices podem voltar a crescer drasticamente. E corremos o risco de pôr tudo a perder nas conquistas alcançadas nos últimos anos, a partir de esforços do sistema de saúde brasileiro, por meio de campanhas e medidas eficientes.

Cigarro eletrônico x cigarro tradicional

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O Inca realizou em 2021 um estudo indicando que o cigarro eletrônico aumenta mais de três vezes o risco de experimentação do cigarro convencional. O levantamento reforça que o cigarro eletrônico pode ser, sim, trampolim para o uso do cigarro tradicional por aqueles que nunca fumaram.

Mais um fator preocupante é o poder viciante dos cigarros eletrônicos. Alguns podem conter nicotina correspondente a cinco maços de cigarro comum. Não é verdade que os vapes vendidos contêm uma quantidade de ‘ingredientes’ danosos muito inferior à do cigarro tradicional. Mesmo sem contar com itens como o tabaco em sua composição, esses dispositivos eletrônicos possuem outros elementos que podem ser altamente prejudiciais à saúde. A crença sobre a suposta ‘fumaça limpa’ é infundada. Por isso, é imperativo um trabalho de conscientização da população para impedir que se repitam os mesmos efeitos nocivos gerados pelo tabagismo. Que o tema, que agora também repercute em um reality show, sirva como ponto de atenção e de reflexão da sociedade para uma mudança de comportamento significativa que ajudará a salvar vidas no futuro.

*Mariana Laloni é oncologista clínica, diretora técnica da Oncoclínicas & Co e especialista em câncer de pulmão.

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