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Nossos ancestrais, sim, eram os verdadeiros feministas

Estudo publicado na revista 'Science' revela que os sexos dividiam tarefas domésticas igualmente. A diferença teria aparecido como uma aberração trazida pela agricultura há cerca de 10 000 anos

A igualdade entre homens e mulheres é a regra, e não exceção, nas sociedades humanas (ou ao menos nas primitivas). Um estudo publicado na quinta-feira (dia 14) na revista Science sugere que as primeiras sociedades pré-históricas seguiam rígidos princípios igualitários, com figuras masculinas e femininas tendo o mesmo poder para decidir questões fundamentais, como com quem se casariam ou onde o grupo iria morar. As diferenças entre o valor das opiniões entre os sexos foi uma aberração trazida pela agricultura, entre 10 000 a 12 000 anos atrás. A desigualdade sexual é uma característica não dos homens, mas da espécie mais próxima a nós, os chimpanzés.

Os resultados da pesquisa, feita por antropólogos da Universidade College London, na Inglaterra, contestam a percepção de que a equidade sexual é uma invenção recente e as sociedades pré-históricas seriam dominadas por figuras masculinas, com as mulheres tendo a responsabilidade de cuidar da prole. Ao contrário, o mesmo nível de poder entre os sexos pode ter sido uma vantagem adaptativa que moldou a sociedade moderna.

“A igualdade entre homens e mulheres é o único cenário em que poderiam ter surgido características humanas como a cooperação com outros indivíduos”, diz Andrea Migliano, uma das autoras do estudo.

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A origem da paciência

Cooperação de estranhos – Os pesquisadores chegaram a essas conclusões investigando um paradoxo conhecido na antropologia, de que os caçadores-coletores preferem viver com seus parentes, mas, na prática, as tribos não exibem muitos indivíduos da mesma família. Para descobrir as origens dessa contradição, os cientistas passaram dois anos coletando dados em duas comunidades de caçadores-coletores ainda preservadas, uma no Congo e outra nas Filipinas. Os cerca de vinte membros de cada grupo viajam a cada dez dias e sobrevivem da pesca, caça e coleta de vegetais.

Por meio de centenas de entrevistas, foram mapeadas as relações de parentesco, os movimentos migratórios de um acampamento a outro e padrões seguidos na vida doméstica. Em seguida, essas informações foram incluídas em um modelo de computador criado para simular as probabilidades de composição da tribo. As análises mostraram que, quando apenas um sexo tem influência nesse processo, a comunidade é composta por vários membros da mesma família. Contudo, quando o poder é repartido entre homens e mulheres, as relações de parentesco caem drasticamente, como acontece nas sociedades estudadas.

Nesse panorama há mais ligações sociais que familiares, o que promove a cooperação entre estranhos, além de ser um obstáculo para o casamento entre parentes. As relações são monogâmicas e homens e mulheres dividem as tarefas domésticas (ambos contribuem para a obtenção do mesmo número de calorias nas refeições; ou seja, trabalham igual dentro e fora de casa). De acordo com os pesquisadores essas práticas proporcionaram desenvolvimentos evolutivos como o surgimento da linguagem e de cérebros maiores, características fundamentais para a evolução humana.

A desigualdade – Esse tipo de organização igualitária só teria sido rompida com o surgimento da agricultura, quando os grupos passaram a acumular recursos. Nesse momento, os homens passaram a ter várias esposas e mais filhos, fazendo alianças com sua família. Aparecem também as divisões de tarefas entre os sexos, com o aumento do poder de um deles. Aí veio a sociedade patriarcal.

Essa disparidade entre homens e mulheres é semelhante aos grupos de chimpanzés, que vivem em organizações dominadas por uma figura masculina, com uma hierarquia rígida e machos agressivos. Quando sua linha evolutiva se separou dos macacos, há cerca de 7 milhões de anos, o homem começou a mudar esses padrões, chegando ao comportamento igualitário dos caçadores-coletores há cerca de 50 000 anos. Em outras palavras, a desigualdade sexual entre os humanos, que pareceu uma novidade criada há cerca de 10 000 anos, é nada mais que uma volta aos nossos ancestrais primatas.

(Da redação)